por F. Morais Gomes

25
Jan 11

Lagos, Estio de 1445.O sol escaldante de Agosto desaconselhava grandes caminhadas mas D. Henrique não dispensava o passeio pelo areal. Três naus de Gonçalo de Sintra regressavam de Arguim  carregadas  de goma laca, pó de ouro e escravos e divertia-o o alarido ruidoso dos homens em terra e das mulheres ansiosas, carpindo e rezando no cais. Desde que as velas de Cristo  passaram a sul do Bojador que os negócios  prosperavam e em terras do Mali haviam embarcado dezenas de cativos, capturados por régulos  de Tumbuctu. Nuno Tristão e Antão Gonçalves porfiavam na empresa mercantil e enquanto caminhava na praia pensava como ajuizada fora a aposta na navegação para sul do Cabo Branco, agora alargada  a Arguim.

D. Henrique contava já 51 castos anos, as mulheres não o atraíam,não casara e só os negócios do mar  e os seus  mareantes o distraíam, longe da corte e do sobrinho rei, infeliz  jovem rodeado de intriguistas cortesãos. Aquele sul bafejado pelo suão, o cheiro a peixe e goma  nos mercados de Lagos e Portimão eram o seu mundo privado, bálsamo da alma atormentada.

Arguim, ilha a sul do grande Saara  e de  água doce brotando das areias, como entusiasmado relatara Gonçalo ao voltar, uma légua de largo e duas de longo com bancos de areia e recifes era a mais recente descoberta. D. Henrique tentara já atrair comércio do noroeste africano para o Rio do Ouro, tendo cabido a João Fernandes concretizar esses planos. Gonçalo acrescentava agora novo domínio à Ordem de Cristo, enquanto em Veneza Fra Mauro  trabalhava  numa  carta que facilitasse a orientação das naus,  à medida que o Mar Oceano se tornava num imenso lago português.

Lagos nesses dias fervilhava de navios e mercadores, marranos de Lisboa e Évora, flamengos de Bruges, pela tarde fariam o trato da goma e dos escravos, uma vintena de peças com boa dentadura, as fêmeas parideiras depressa reproduzidas. D. Henrique, cavalgando a sua égua inspeccionou a mercadoria, um negro mais alto e musculado  atraiu-lhe a atenção. Sempre mais interessado nos  machos que nas fêmeas, possuía vários espécimes que, diziam serviçais da sua casa, frequentemente acediam aos seus aposentos durante a noite, após o que frequentemente se ouvia o ruído lancinante dum chicote flagelando o próprio corpo, para expelir o pecado, aventava Domingas Vaz, a velha cozinheira, benzendo-se.Gonçalo de Sintra acompanhava-o ,enquanto o feitor, Telmo da Gama, destinava alguns escravos para o Duque de Beja, a goma laca seguiria para Lisboa e Setúbal. Gonçalo era seu protegido, íntimo da casa de Lagos e frequente acompanhante nas deslocações à Côrte, antes de D. Duarte se finar  levara mesmo o seu amo a conhecer as frescas terras de Sintra onde nascera, sempre bafejado por mercês do Infante protector. D.Henrique apontou-lhe o escravo negro,  pedindo opinião.,era escuro como um tição, olhar temível, hirto de ódio, agrilhoado, com desprezo olhando os captores. Das carnes desnudadas sobressaíam as vergonhas, pujantes, bom reprodutor por certo, ruminava o Infante. Gonçalo apreciava-lhe a desenvoltura e D. Henrique  mandou separá-lo e  mais duas pretas já prenhas. As crias renderiam bom dinheiro, depois de parirem ,uma carroça  carregou-os a caminho de  casa onde Adahu saberia o que fazer com eles.

Adahu, velho tuaregue ao serviço de D. Henrique, fora um escravo capturado em Tumbuctu. Chegara-se a pensar possuir informações sobre o reino do Prestes João mas era falso, D. Henrique ainda assim, achando-o sábio  depois de o mandar açoitar por mentiroso manteve-o ao seu serviço. Como mais velho tinha ascendência sobre os recém-chegados e o  seu chicote de boas vindas não deixaria de comemorar a chegada de novos braços, os mais fortes destinados à construção das naus, os de pele mais fina para o serviço doméstico, sendo os mais formosos para vestir e banhar a seu amo antes da missa ou novena na igreja matriz.

Já caída a noite, depois da  visita às naus e da ruidosa arenga no mercado dos escravos, regressava satisfeito à casa chã e senhorial, onde Domingas, instruída para não incomodar, deixara na mesa uma malga com leite de cabra e meio pão de centeio. Depois das orações,  com  o horizonte azul recortado pelas velas de Cristo e o pôr do sol tardio prenunciando novo e cálido dia, o Navegador recolhia ao quarto onde o tição negro  o aguardava, para satisfazer as vontades de seu senhor.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:55

É pá, esta é picante.
Por muito menos do que isto calaram o pio ao Herman José :-)
Abraço.
ZM
Zé Maria a 25 de Janeiro de 2011 às 15:20

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