por F. Morais Gomes

26
Jan 11

Rodrigo Fernandes acelerava em direcção ao ministério, a manhã fria e alguns minutos de atraso provocavam já mossa no  saldo de horas, o sistema biométrico da assiduidade a denunciar, irritante. Licenciado em Relações Internacionais, o pai arranjara-lhe emprego no Ministério da Agricultura onde o serviço não apertava e os cortes nos programas  deixavam  ocioso  parte do dia,  tudo decidido em Bruxelas. Nas muitas horas vagas  jogava Farmville, a única quinta onde  lidava com porcos e vacas sem suportar agricultores boçais atrás de subsídios, fosse pela seca ou pela cheia.

Naquela manhã, para variar, havia a pressa dum relatório para o ministro, a  Oposição no Parlamento com a perspectiva de eleições  esgrimia o argumento das quotas de leite , milhares de litros desperdiçados  nos Açores  para cumprimento da PAC.Um escândalo, gritava teatral um deputado que nunca vira uma vaca mas a quem o patriotismo das pastagens motivava shakesperianas tiradas no hemiciclo, sublinhadas pelos “muito bem!” de correligionários ensaiados.

Rodrigo ,maçado, lá colidiu as informações solicitadas, ao menos fazia qualquer coisa.Com sorte escapara ao corte no vencimento, aumento de 10% em Novembro, de onde agora cortavam 4%, o ministro fora colega do pai no Colégio Militar, é assim que se vêm os amigos.Imprimindo o árido relatório, barras de explorações e gráficos de leite , suspirava por um lugar numa embaixada, Paris ou Roma,onde pudesse fazer outras coisas e viver o perfume da civilização, longe daquele sonolento gabinete no centro de Lisboa, o café mais próximo vendendo chamuças oleosas e bolos de arroz com quinze dias.

O telefone interno tocou entretanto, o ministro chamava-o, briefing para ensaiar o discurso, havia que dar ar de competência e domínio dos dossiês na intervenção da tarde,  os números davam argumentos à oposição e havia que dourar a pílula, alegar qualquer coisa. A ver se não demorava ,  marcara uma massagem no Holmes Place às 18h e queria despachar cedo a questão das vacas .

Rodrigo, subserviente, clamava pela má-fé da Oposição, ingratos, não reconheciam o árido  trabalho em prol dos agricultores que se produzia naquele ministério, todos os dias  fazendo o IC19  para  com denodo salvar a pecuária nacional. Sobre as quotas do leite aventou uma ideia:

-Senhor ministro, há hipótese de dar uma interpretação diferente aos números da campanha do leite…

-Sim?...Diga diga, Rodrigo, sou todo ouvidos.

-É assim: Bruxelas fixou uma quota de 4 milhões de litros para a campanha de 2010, e os produtores durante a campanha obtiveram 5,5 milhões não é?..-foi avançando, nunca vira uma vasilha de leite, mas os números bastavam.

-Sim, e pelas regras da PAC temos de eliminar do circuito esse leite, não pode ser comercializado, senão  pagam-se pesadas multas.

Rodrigo, ar matreiro e já iniciado em manobras políticas na secção de Alfragide gizou um plano:

-Sugeria uma coisa: por um lado rectificar as estatísticas, anunciando que não era em litros de leite mas em número de recipientes que os números estavam a ser contabilizados, e notificar já o EUROSTAT,.Aliás, temos lá o Bernardo, que  é do partido, pode dar uma ajuda; e por outro atirar a responsabilidade do descontrolo para o governo regional. Os tipos não se puseram de fora neste assunto dos vencimentos? Pois agora chuta-se a bola para o lado deles, que se amanhem. E no Parlamento o senhor ministro pode ainda contra atacar com uma linha de crédito para os agricultores do Oeste e assim calam-se já os detractores…

O ministro rejubilava, boa cartada:

-Excelente, Rodrigo, ainda bem que o tenho cá no ministério. Olga, prepare já um despacho anunciando uma linha de crédito, o Rodrigo dita o que for preciso. Depois, daqui a dois meses suprime-se e alega-se que o PEC 4 exige mais sacrifícios ao país…

Rodrigo sorria, ufano, como é que ainda não estava em Paris a passear no Boulevard des Italiens e a servir o país num gabinete da embaixada.

Durante a tarde, o ministro lá colocou o ar de responsável sem horas de sono e em prol da pecuária nacional e o debate foi levado para os apoios e a linha de crédito, aplaudida de pé pela bancada do Governo.

Oito dias depois, já Rodrigo arrumava o carro no parque fronteiro ao ministério, o telemóvel tocava, o ministro queria falar-lhe, a voz séria sugeria urgência. Pensou que a história do leite se calhar azedara e com a calma possível acelerou o passo. No gabinete, o ministro, bem disposto, saudou-o cordialmente, oferecendo café. Eram boas notícias: o Governo reconhecia a extraordinária preparação de Rodrigo em assuntos agrícolas e os seus conhecimentos do mundo rural e nomeava-o  Secretário de Estado da Agricultura, a posse seria dois dias depois, saudava, abraçando o novo e promissor governante.

Rodrigo depois do pasmo rejubilou, à tarde muito saudado no Pavilhão Chinês pelos amigos de outros gabinetes. Afinal, perorava saboreando um martini, a agricultura era o futuro do país, ecológica e sustentável, com espírito de missão cumpriria o lugar e as  deslocações a Bruxelas para as maçadoras reuniões quinzenais.Enquanto os restaurantes da Grand Place mantivessem o cardápio de vinho e queijos a tudo se sacrificaria em prol do país e da lavoura.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:14

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