por F. Morais Gomes

27
Jan 11

Lisboa, Novembro de 1966,a manhã cinzenta e chuvosa testemunhava o pausado embarque da companhia do alferes  Avelino Guedes rumo a Angola. Recruta em Mafra , um curso de Medicina recente ,agora  um pelotão de rudes transmontanos, infantes em armas pelo Império.Único varão do velho Dr.Sérgio, advogado em Condeixa, olhava ansioso o imenso navio e a massa castanha  e verde de soldados alinhados, a Pátria una do Minho a Timor com os olhos neles, a repelir os turras inimigos no  Ultramar. Avelino escondia o nervosismo, inseguro condutor duma trintena de mancebos, a Vera para trás a acabar o internato, invadia-o  o torpor de  sentimentos ambíguos , patriota confuso, o consultório e a noiva  adiados. No cais de Alcântara, madrinhas de guerra incentivavam os bravos com promessas de espera, a companhia de passionais aerogramas logo os confortaria na solidão do mato cálido e perigoso.

O embarque foi em silêncio, interrompido pelos gritos de mães de negro, eternas viúvas de maridos e filhos arrancados para uma guerra distante, já de luto carpindo um futuro incerto, a cadeira vazia à mesa, a cama fria sem macho, as vacas por ordenhar pela manhã. Soando o vapor a embarque, Avelino abraçou o pai, um beijo em Vera, a promessa do regresso, salvo, vivo de carne e de alma.

Até Angola foram dias de enjoo, jogos de cartas pela noite, o receio do regresso  na horizontal ,numa caixa negra  e  fria, a incerteza angustiada dum póstumo toque de silêncio. Logo um voo para Ambriz e quartel em Santo António do Zaire, a guerrilha ali ao lado, num Congo pejado de turras, catanas  e canhagulos ameaçando os colonos.

As patrulhas na picada eram silenciosas, o capim alto escondendo rastejantes nativos à tocaia do branco, as minas furtivas aguçando o medo. Medo do regresso. Medo da casa na aldeia jazigo de vivos dilacerados.Medo do olhar perdido no Marão ou na Estrela com a mente no mato ocre e castigador para onde um dia os mandaram.

No Verão de 1967, o esperado sucedeu. A patrulha de Avelino foi emboscada no mato, um furtivo lança granadas esfacelou o Barbosa, 19 anos, de Trancoso, vísceras dilaceradas, gritando esvaído. O PintO, perna atingida e osso exposto, rebolando com dores, os outros assustados a disparar para o vácuo, logo seguido do silêncio, a savana de volta à calma de todos os perigos. A evacuação foi lenta, o AVP-1 com interferências tardava a comunicar, o Barbosa já cadáver jazia, alvo, no chão do helicóptero o Pinto chorava sozinho, de dor e vergonha, que um homem não chora.

Retirados para Luanda, o corpo do  Barbosa foi velado no Quartel-General, toque aos mortos pela manhã, Avelino em continência, sangrando por dentro. O Pinto, amputada a perna e desmobilizado, partiu para a Metrópole, ao encontro das lágrimas da família, já choradas na partida em Alcântara, a Torre e Espada para o soldado mártir no 10 de Junho seguinte.

Pelo fim de 1969 Avelino finalmente voltou a casa. Depois da emboscada, cumprira o resto da comissão no hospital em Luanda, testemunha do lento estertor duma geração perdida numa guerra que não entendia mas que fazia deles homens, dizia a propaganda, exaltada em patrióticos  juramentos de bandeira país fora.Um olhar triste e perdido colou-se-lhe à cara nos anos que se seguiram.

Maio de 2010.No Aeroporto de Figo Maduro, o velho doutor Avelino Guedes e  a família acompanhavam a partida do neto João para o Afeganistão. Tenente do exército, oferecera-se para uma missão em Cabul, o velho C-130 aquecia já os motores para a partida a caminho de Camp Warehouse, integrado na IFOR. Apesar da movimentação talibã, os riscos eram calculados, o pior eram os suicidas, o Messenger asseguraria o contacto com Condeixa.Avelino, melancólico, recordava outros tempos mais dramáticos, a já distante partida de Alcântara e a guerra de capim contra um inimigo oculto, hoje lusófono e amigo, sinal dos tempos.

No hangar, militares e famílias trocavam os últimos beijos, abraços, fotos pelo telemóvel. A um canto, uma jovem alferes despedia-se também da família, um velho grisalho e enrugado destacando-se numa cadeira de rodas, perna amputada e olhar perdido. Com a emoção, o velho engasgou-se e começou a tossir,  minutos sem cessar, Avelino, médico, aproximou-se a oferecer ajuda. Não tomara os medicamentos, explicava a neta, quase a embarcar, amparando o avô.

Um olhar mais demorado e o velho Avelino reconheceu atrás das rugas o Pinto, estropiado na picada quarenta e três anos antes. O alferes Avelino e o soldado Pinto olharam-se e não evitaram um abraço, sentido e húmido, quarenta anos atrasado e arrancado a um livro de História já fechado.

O C-130 fechava as portas, os netos de ambos partiam agora, dois avós cúmplices os uniriam em Cabul. A vida dos  sobreviventes dum império esfumado no cais de Alcântara cruzava-se em nova partida, novo destino ancoradouro da alma. Uma guerra os separara, outra os reunia, já sós na pista ,o C-130 levantando nos céus de Lisboa.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:53

Pois é. Já não me importava de embarcar como o Avelino, não obstante o destino mas o caminho que nos leva a um porto distante e a novas aventuras ! Aí viajar...
António a 27 de Janeiro de 2011 às 14:04

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