por F. Morais Gomes

28
Jan 11

Era tensa a atmosfera à chegada ao aeroporto do Cairo. Fernando Rodrigues, jornalista free lancer propusera ao Correio Diplomático uma reportagem sobre a turbulência no Magreb, depois da Tunísia era agora o Egipto a fazer manchetes,um acordo com o editor e chegava para cobrir os eventos.Regateado o táxi, a visão matinal da megapólis de vinte milhões de almas aparentemente transmitia tranquilidade, cartazes de Mubarak destacados,o bulício anárquico e ruidoso dos soukhs. Ashaki,a jornalista que conhecera em Gaza na altura do cerco ao Hamas esperava-o, arranjara-lhe um hotel simpático depois da conversa no Skype.

Ashaki mostrava-se exultante. Com vinte e sete anos, nunca conhecera outro governo  no seu país senão o de Mubarak, um regime fechado , o apoio americano como seguro de vida, jovens em luta por emprego e liberdade a destapar agora a panela de pressão no Facebook. Por SMS nova manifestação tinha sido convocada para o dia seguinte, no centro do Cairo e esperavam-se  milhares de jovens, ElBaradei chegara da Europa. Depois dum banho e de um almoço ligeiro calcorreou a cidade a pé.Na praça Tahrir vários mufis em silêncio dirigiam-se para a madrassa de Qalaun, alheios às manifestações, laicas e urbanas. Mais agitado pareceu o ambiente no  mercado Khan al-Khalili, o cheiro das shishas de vários sabores inebriando o ar, nas ruas a algazarra dos vendedores no regateio,  cobres e especiarias  serpenteando pelas vielas estreitas.Deteve-se a  fumar um cachimbo de água no El Fishawy e em inglês, lá foi socializando,tentando entender a rua árabe. Uns receosos de falar, a polícia secreta com olhos e ouvidos espalhados, mais interessados na venda de souvenirs,todos das pirâmides, os novos mais entusiastas, depois dos habituais vivas a Ronaldo, sinónimo de Portugal por aquelas bandas.

No dia seguinte,acompanhado de Ashaki, montou posto no local da manifestação, perto da  mesquita de Ibn Tulun. Sem líder ou grupo organizador, espontânea, muita polícia e repórteres estrangeiros, Cristiane Amanpour, a conhecida jornalista reportava para a Fox. Fernando com o seu cartão “Press" visível fotografava e tirava notas enquanto os manifestantes iam chegando, a pé e de metro,   milhares, o perímetro policial reforçado.Gritava-se por liberdade e democracia, muitos jovens com mp3, divorciados da velha guarda corrupta e instalada. Minutos mais tarde e já a praça transbordava, um cocktail molotov solitário atingiu um café, ocasião para a polícia intervir. Os ânimos aqueceram , Fernando captava tudo, História ao vivo e a cores, lembrava-lhe o Portugal de 1974 que não vivera. Um dos manifestantes, exaltado, tentou imolar-se pelo fogo,  Fernando, atento e em busca do exclusivo saltou para a frente a captar a foto mas a polícia perdeu a calma e desatou  a disparar. Uma bala, perdida atingiu-lhe o ombro, deitando-o por terra, Ashaki aflita logo a socorrê-lo com colegas do jornal. A turba gritava e a Fox captava imagens do jornalista português rodeado de  manifestantes irados, dano colateral em revolta alheia.

A perda de sangue e o desfalecimento levaram-no a acordar num hospital no dia seguinte ,cheiro a água oxigenada, compressa no ombro. A enfermeira sorria, vários correspondentes queriam entrevistar o homem certo no lugar errado.Assim  se faz a História, pensou, com o ombro inchado.Ashaki  chegou trazendo  flores e sumos. Fernando era jovem e bem parecido e em Gaza quase “pintara” um clima entre eles, o ombro dorido mas macio acicatava desejos. Os jornais da manhã pouco transpiravam, arruaceiros ociosos, calara a censura. Três dias depois teve alta e instalou-se na casa de Ashaki, um apartamento em Heliopólis, moderno, os pais eram abastados armadores em Suez e estudara em Paris, árabe mas emancipada.

Com o tempo e já convalescente, a rua ganhou dimensão, os americanos encorajavam as reformas, Fernando exultava e pensava como os povos  encontram sempre o seu rumo por muito anestesiados que estejam. Ashaki conseguira permissão para cobrir os eventos, cada vez mais esperançada num Egipto livre e Fernando sentia aquela terra como sua agora, irmanado numa causa nobre que a Portugal sufocado pela crise faltava e decidiu ficar uns tempos, com ela viveria dias irrepetíveis.

Algumas semanas depois, chupava uma shisha com sabor a maçã no El Fishawy ao fim da tarde, Ashaki finalmente trazia a notícia da reviravolta política, um novo governo era aclamado nas ruas  explosivas de alegria. Abraçaram-se e juntos desceram  o Nilo de felluka,  as margens plenas de festa, a libertação a passar por ali.No Egipto de 2011, a liberdade reconquistada chegava com um travo forte e doce a maçã.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:12

Janeiro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13

18
22

23



mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO