por F. Morais Gomes

29
Jan 11

A tarde caía fresca na penumbra das frondosas árvores, no improvisado camarim da Regaleira actores e técnicos agitavam-se para a estreia de Hamlet, toda a família Tapafuros em azáfama para mais uma temporada, os pesadelos do príncipe de Elsinore  no palco da Quinta Mágica.

Em noite cacimbada, vento irritante mas familiar (se  tem saudades do Inverno passe o Verão em Sintra) Rui Mário, seguro, mestre, dava instruções, o teatro feito verbo, atento a detalhes e lembrando marcações enquanto a um canto Pedro Hilário, ao relento, testava o  som no terreiro, absorto revendo as músicas minimais com que ilustraria o desassossego em som. Já vestido e maquilhado, Samuel , o Hamlet de Sintra, relia o texto uma derradeira vez, muita merda, haviam desejado a Rute e o João Vicente, pela noite a Lua Cheia fecunda bafejaria mulheres com uma hora pequenina, a peça prateada ao luar também entraria em trabalho de parto. À porta, na bilheteira e com o conforto de casa cheia, Marco desdobrava-se recebendo convidados,  os amigos ,cúmplices  viriam para um  copo no fim da noite. Um percalço: um jovem actor, nervoso com a estreia ,tivera uma "branca", o Olavo substituiria, sabia o texto.

Rui Mário  seria desta vez o fantasma, invisível voz na noite escura, do além conduzindo os títeres mortais em valsa lenta. Ao jantar no Culto bebera um vigorante tinto, qual guerreiro antes da batalha, ortónimo de fantasmas vários, da vida, de vidas, fingidor sem falsidade.No camarim, com  Samuel  a verificação das marcações, a colocação da voz,o guião uma vez mais relido:

-"Que velhaco sou eu, que vil escravo! Pois não será monstruoso? Este actor pôde, numa simples ficção, num sonho apenas de paixão, forçar a alma aos seus preceitos, a ponto de fugir-lhe a cor do rosto, marejarem-lhe os olhos, o conspecto confundir-se-lhe, a voz tornar-se trémula, e toda a compostura conformar-se às suas influências?" -repetiam, o texto em  confissão, a confissão em texto, olhar no espelho onde Samuel era Hamlet e Hamlet era o mundo.

O silêncio invadia a noite na casa do Grande Alquimista.Começada a função, a pantomina das máscaras  desfilava o seu jogo de sombras, Sintra-Elsinore, Dinamarca em Cynthia, a pequenez e grandeza dos homens, convocando-os para o desvendar das fragilidades que o truão de Stratford-Upon-Avon desnudara, temido dos poderosos, mordaz porta-voz dos sem voz. Os jovens actores do Resistências debutavam, como há vinte anos outros o haviam feito, tapando furos das aulas, iniciáticos militantes do teatro.Um deles como discreto escudeiro no Pátio das Quimeras, outros dois silenciosos cortesãos na corte de Cláudio, rei indigno, no palco do mundo muitos Cláudios  primeiras figuras na pérfida récita da traição.Rui Mário acompanhava, tutelar e o primeiro acto fluía, o público bebendo silencioso as palavras ditas, Rui letárgico repetindo-as, sentidas:

-“Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que só medram ervas daninhas, cheio só das coisas mais rudes e grosseiras”

Atento, Marco registava em vídeo, como produtor profissional e eficaz guiava Paula Moura Pinheiro que assistia, prometera uma notícia no Câmara Clara.No canto superior da bancada ,amigos dos Tapas escutavam em silêncio, o Pignatelli, a Cláudia Faria , o Fernando.No fim ,na tasca do Samuel se daria o bálsamo às gargantas boémias após a estreia,no primeiro dia do resto daquele Verão.

-Cada peça encenada é sempre um libelo de resistência- comentava o Rui para o Jorge Menezes- fazer teatro hoje é ter a sobriedade de ser louco, mas sem loucura corre-se o risco de ficar doido- rematava, sorrindo, o criador olhando a criatura, Jorge, aconchegando o cachecol , concordava com a cabeça, só os Tapas o  arrancavam do exílio em Fontanelas.

A peça caminhava para  o perturbador clímax  que o dramático enredo tecera, profético, inquieta a sonoridade do Hilário, na bancada expectante antevia-se  a tragédia, sempre renovada e fatal. Já Samuel segurava o crânio do bobo Yourik, finitude do Ser prostrado convidando à reflexão e  no confessionário da Regaleira-Mundo se incensava a Vida, abúlica e trágica nas angustiadas palavras que gerações de actores renovaram no mágico e catártico momento do Grande Teatro do Homem:

- "Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se…"

A assistência bebia cada palavra, no breu da noite, druida junto ao carvalho, Rui Mário, de olhos fechados e sorrindo deixava cair o pano imaginário, Príncipe da Dinamarca no  orvalho de Sintra desfiando o resto do texto na solidão do recinto cheio:

- "Morrer… dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando enfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal?"


publicado por Fernando Morais Gomes às 12:21

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