por F. Morais Gomes

30
Jan 11

Fim de tarde em Sintra, o cadenciado matraquear das bolas na mesa de snooker acompanhava as animadas tertúlias  no discreto bar do Sabot. Clientes disputando uma partida ou jovens da geração recibo verde, anónimos ou velhos conhecidos, no Sabot corriam soltas as conversas abrilhantadas por litros de ávidas imperiais que conduziam sempre à salvação do mundo pelo fim da tarde, depois da enérgica utilização do verbo e antes do previsível e recuperador bife com cogumelos. Rafael, Rafa para os amigos apreciava a tranquilidade do local para garatujar letras para canções, viera cedo, Adriano, funcionário das finanças , chegava pelas seis como de costume, com a sala ainda tranquila, naquele dia particularmente zangado com a notícia da retirada de competências às câmaras despesistas, a crise a justificar a medida, um dia a crise a justificar a democracia, reclamava, uma imperial era urgente, antes que aumentasse o preço, irritado com a cultura de laxismo, personagem em busca de guião na Sintra de 2011.

-Isto só lá vai com a independência! Já vistes que Sintra tem mais população que a Madeira e os Açores juntos? - comentava ao balcão com o Zé, sorvendo a primeira cerveja dum trago  – e temos tudo para isso, já viste?

O Rafa, embrenhado nos seus poemas, sorriu da mesa do canto e pediu um café, alheado, política não era com ele. O Raposo Taxista chegava entretanto para uma fresquinha, o Adriano continuava na arenga elevando o tom da voz, a sala mais composta era garantia de audiências, que  a pátria salva-se sempre primeiro nos cafés.

-Pois vejam bem, temos castelos, saída para o mar, aeroporto na Granja, indústrias, tribunal, turismo…-ia debitando, uma imaginária bandeira independentista passando pela vista a esvoaçar no Castelo dos Mouros, tortuosas teorias da conspiração galvanizando o insurrecto estudante entre duas partidas de snooker no bar e mais uma imperial fresquinha.

O Raposo concordava, mas o essencial era sair do euro:

-Tem toda a razão amigo, por este andar daqui a cinco anos estamos todos a comer ervas. Deu-se cabo da agricultura, indústria não há… e a malta nova, andam a tirar cursos para trabalhar em supermercados ou roubar. Não sei onde é que isto vai parar!

Adriano começava a juntar apoios enquanto o Zé aviava mais uma rodada, agora já com amendoins, para enxugar, lá fora mais um comboio saía para o Rossio. O revolucionário das seis da tarde continuava:

-Saía-se do euro e fazia-se uma zona franca em Sintra, um paraíso fiscal, um cluster de industrias criativas, davam-se isenções fiscais às  empresas ecologicamente eficientes e universidade gratuita, paga com as receitas da zona franca, iam ver, em dez anos éramos a Suíça da Europa- continuava, naif, o desejo de mudar o mundo dos outros quando não se consegue mudar o próprio. O Rafa, já contagiado pela ideia do cluster criativo interrompeu a escrita no bloco azul e juntou-se-lhes, dois adeptos já estavam convertidos, pelo andar à meia-noite a Rádio Ocidente anunciaria um golpe de Estado e a secessão de Sintra, micro-estado sem exército, maior que o Mónaco ou o Luxemburgo .

O Raposo Taxista insistia na questão do euro, já a quarta imperial inaugurava o caminho da goela, havia que tomar medidas:

-Eles vão ver aonde vai levar esta política. Vejam uma coisa: um país sem moeda e sem agricultura  está sempre dependente dos outros. E o que é que a gente produz? Nada! Até as batatas vêm de Espanha, é uma vergonha!

-Claro!- acicatava o Adriano - se isto fosse independente apoiava-se fortemente a agricultura! A maçã reineta, as hortas de Almargem, o vinho de Colares…

-Ah, isso sim, boa pinga sim senhor! - atalhou logo um dos jogadores de snooker, até ali calado, debruçado sobre a mesa, distraído tocara numa bola não branca com o taco.

-Então mas onde é que eram os limites do tal país?- sondou o Zé, anuindo, servindo uma tosta mista  ao Rafa.

-Para mim era assim: toda a zona rural, no máximo até Mem Martins . Já viram que daí para lá só há problemas? Além do mais está tudo construído, não trás receitas, é um fardo em despesas de saúde, educação, há os bairros sociais e os imigrantes. E os IMI’s não rendem tanto assim, que as pessoas não pagam...-rematava, estava tudo estudado, até o acordo ortográfico devia ser revisto.

A conversa fluía e a noite caía rápido, os dois do snooker saíram pensando serem todos malucos, voltariam mais tarde, os conspiradores levados pelo entusiasmo cantavam já canções patrióticas devidamente ilustradas com canecas de cerveja e brindes à revolução, à independência e até a José Mourinho.

Já a revolução estava em marcha,tocou o telefone,a voz furiosa e alterada da mulher  do Adriano do lado de lá  obrigava a mudança de planos, o frango para o jantar nunca mais chegava e ainda tinha de passear o cão. Obediente, lá saiu correndo, adiando o golpe de estado para a tarde seguinte. Com uns tremoços a acompanhar, se possível.


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:02

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