por F. Morais Gomes

03
Fev 11

S.Pedro de Penaferrim, 1882.Naquela tarde de 12 de Setembro o Verão ia-se esgotando em derradeiras résteas de sol sobre a esplanada térrea da antiga gafaria, logo o vento açoitante pela noite varreria S. Eufémia e o Arrabalde. Acometido de doença pulmonar, Rodrigues Sampaio, antigo Presidente do Ministério, definhava moribundo na sua casa de Sintra.Os médicos, cépticos, faziam o que podiam, mas a febre e o delírio apossavam-se  já do doente, pneumonia adinâmica vaticinara o dr.Telles.

A rondar os setenta e cinco anos, o “Sampaio da Revolução” como amigos e detractores o conheciam, mantivera até ali o vigor rebelde de homem de causas. Jornalista mortífero, maçon empenhado, amante dos prazeres da mesa, fora um liberal encartado, apesar de destinado aos altares. Porém  tempos  duros e exigentes foram aqueles que chamado a chefiar o governo  dum país ingovernável suportara meses antes, zurzido de todos os quadrantes, como aliás fizera aos seus adversários com a  pena verrinosa, e a palavra  afiada,  Gomes Leal e  Bordalo Pinheiro sempre cáusticos e sem perder pitada.

A recaída justificava apreensão, até a cabidela da Aldegundes o enjoava, pantagruélico voraz que chegara a devorar um leitão, teima com um conselheiro do Tribunal de Contas, nem os inseparáveis jornais conseguia já ler, febril e entrapado em  pachos de álcool. De Lisboa, o Rei  posto a par enviava o secretário a desejar melhoras, melhor fora se ficasse por lá, os ares de Sintra em Setembro estimulam males dos ossos e são propensos a febres, comentara o monarca, mais adepto de Cascais e do mar, no iate Amélia.

Apesar da vida de picardias, fora generoso e magnânimo, aos filhos da velha Antónia calçara quando mancebos foram chamados a servir  nas fileiras, o Soveral abrira o negócio com financiamento seu. Nenhum agora se acercava a saber novas, com o fim perto, mais fácil se tornava perorar póstumas homenagens quando o cadáver frio e quebrantado jazesse nos Prazeres, promovido a  patriota inigualável e insubstituível.

Ouvido o dr.Telles a Aldegundes correu a chamar o padre Raimundo, o jacobino tardio e seminarista de berço, bandeado para a a causa de D. Pedro por aversão à facínora miguelista pedia os sacramentos O velho pároco, para cima dos noventa, ungia agora com os santos óleos o servo que Deus chamava antes de si, tribuno loquaz e teimoso, na cama-tumba de dossel azul, Rodrigues Sampaio arfava e tossia, consumido pela febre derradeira.

Nessa noite, num raro momento de tranquilidade - os moribundos melhoram sempre à noite - chamou por Fernanda, afilhada a quem órfã recolhera, que triste e discreta acariciava agora o protector de muitos anos na hora do desenlace. Sampaio, febril, pegou-lhe a mão, tensa e aflita e reviu as batalhas por ideais consumidos na feira das vaidades, a juventude em que puro idealista acreditara numa pátria sem servos e acabara Par dum Reino cadaveroso de ignaros em busca de mando, cão-barão sem rumo que não o rotativo poder fútil e efémero.

Rodrigues Sampaio tivera o seu ciclo. Poder, contra o Poder, rebelde, reverente, alheio, integrado, compassos de vida em transições esperançosas, espectro do século como o espectro do jornal a que um dia dera o nome. Os dias do fim reportavam para um passado pleno mas controverso. Quisera reformar a escola mas poucos  tinham acesso às letras, a patuleia nos campos apenas trocara amos do antigo para um novo regime que do Chiado não passava. Sossegadas que foram as armas que puseram irmãos contra irmãos e que, tribuno, combatera pela pena e palavra, morria sem que o país mudasse, sucumbido aos trens do Fontes e aos monopólios de tardios baronetes à sombra da Carta regenerada.

A noite enluarada trazia agora um silêncio expectante, o silêncio que antecede a borrasca, a lamparina no quarto apagando-se lentamente, como a vida também se apagava, nas quintas lá fora cães latiam premonitórios, a febre a virar delírio, o corpo possuído e prestes a desistir.

Antes que a suprema manhã chegasse, Rodrigues Sampaio partiu, discreto e sem despedidas, cúmplice do século e dos seus tombos, o país no desnorte, peão no xadrez interrompido, cartola e bengala a caminho da Luz. Era Setembro e era treze.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:46

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