por F. Morais Gomes

07
Fev 11

Tem futuro a concepção de cultura e vida cultural que hoje ainda marca a nossa praxis quotidiana? A mudança de paradigma e as novas solicitações da sociedade global exigem que se ultrapassem alguns bloqueios instalados, como sejam o espírito corporativo, o imobilismo na preservação de lugares e a incapacidade para congregar novas sinergias, o individualismo hedonista que desvaloriza o trabalho de equipa em benefício das figuras, a subsidiodependência e a suburbanidade de escolhas culturais. É na subversão deste estado de coisas que a vida cultural(no sentido de inovação e mudança), com novos modelos de financiamento,  novos e empenhados dirigentes e de braço dado com as novas tecnologias  poderá singrar.

Nos tempos que correm, o espaço mediático torna-nos um pouco indiferentes ao que nos rodeia no mundo da cultura e fomenta o fenómeno da “não-inscrição”, a acção de que tudo o que acontece, não transforma a realidade nem tem  sequência e evapora-se sem efeito no futuro. Significa que as coisas nos passam de forma superficial, tornando-nos indiferentes e conformados e sentindo que nada podemos fazer. É pois necessário um espaço público, livre e independente, onde as pessoas possam discutir e debater tudo o que seja do seu interesse, contribuindo assim para a criação de cidades inteligentes. Em Portugal não há cidades inteligentes porque a grande parte dos indivíduos dá demasiada importância e atenção apenas ao que se passa no espaço mediático e não ao espaço das ideias, a cultura não se discute, repercute-se sem discussão e em função de modas.

Na sociedade portuguesa actual, a reverência e respeito temeroso e a passividade perante as instituições não foram ainda quebrados e raros são aqueles que conhecem o pensamento livre, tudo decorre nos lugares e tempos mediáticos, as pessoas formam um sistema estático que trabalha para a sua manutenção. Ora essa não-inscrição passiva, no sentido em que pensadores como José Gil a enunciam, continua hoje. O que acontece na vida cultural é sem consequência e nada tem efeitos transformadores que tragam intensidade à vida colectiva. Só os agentes culturais podem, reconhecendo isto, contribuir para as alterações no status quo ante na sua diversidade e riqueza e em  conexão com as indústrias criativas, estimulando a acção colectiva e se possível em rede nos sistemas culturais urbanos, cabendo aos poderes (autarquias, Estado) assumir o papel de catalisadoras e facilitadoras dos processos criativos promovidos pela sociedade civil.

Como dizia Roland Barthes, também aqui é preciso dar significado ao significante, ou as elites, ao invés de serem forças de vanguarda tornar-se-ão forças de estagnação, reproduzindo mimetismos e não comportamentos de mudança.


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:33

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