por F. Morais Gomes

09
Fev 11

Já desde Livorno que corria de boca em boca, uma exótica e vistosa comitiva aproximava-se da Cidade Eterna, estranhas e monstruosas bestas desbravavam a Via Ápia sem que fossem repelidas, o povo estranhava.

Naquele 9 de Março de 1514,fazia a entrada nos Estados do Papa uma luxuriante embaixada do rei de Portugal, o poderoso D.Manuel com fausto fazia alarde dos sucessos da sua navegação, fazendo agora tributo ao senhor da cristandade.

Tristão da Cunha, o plenipotenciário, instruíra Garcia de Resende para que distribuísse moedas de ouro pelos pobres e fosse esmoler para com as igrejas, o que o secretário do embaixador fazia, para gáudio dos locais que assim davam vivas àqueles bizarros mas opulentos portoghesi. O Papa estava avisado da chegada,Leão X receberia a comitiva no dia 20,dispensada a bula de entrada nos Estados Pontifícios.

Diogo Pacheco e João de Faria montavam guarda ao rico tesouro que seria ofertado, e a custo mantinham calmos os exóticos animais, tirados de seus sossegos em paragens longínquas e agora no reino dos baptistérios e campanários. Dois leopardos, uma pantera, papagaios ,perus raros e cavalos da Índia, o circo real chegava à cidade boquiaberta. Mas, mais que todos, impressionava um enorme elefante albino de doze palmos de altura carregando um palanque de prata no dorso, em forma de castelo, contendo um cofre com os presentes reais, entre os quais paramentos bordados com pérolas e pedras preciosas, e moedas de ouro cunhadas para a ocasião. Um rinoceronte indiano estivera igualmente previsto, o primeiro na Europa desde os tempos romanos mas morrera num naufrágio na costa italiana.

Mais de cem pessoas emolduravam a parafernália de presentes, para glória do Rei Venturoso, Senhor do Oriente, do Império e da Conquista, vassalo do Papa mas seu igual, temido e invejado, dono de mares tormentosos agora  mansos lagos portugueses. A Tristão da Cunha competia obter  bulas e breves, a bênção do representante de Deus a troco de generosas arcas no lombo dum paquiderme.

Roma estava rendida, à ordem de João de Faria trombetas e tambores   anunciavam  novos centuriões cobertos de glória. Fernão Pires, do Paço de Sintra, era o responsável pela guarda do  elefante e do tesouro de quase quinhentos mil cruzados. O animal diversas vezes se mostrara enervado com os boquiabertos e assustados camponeses que em algazarra seguiam o cortejo ao longo da estrada, só o mahout sentado na lombada o mantinha em sossego, em pânico fugindo os campónios quando estridente fazia sentir a presença, atarantando  os cavalos da comitiva. Garcia de Resende tombara inclusive uma vez quando o alazão que montava se desgovernou assustado, projectando-o numa poça enlameada, para regalo de Tristão da Cunha, que ria trocista dos infortúnios do azarado secretário.

Entre satisfação geral, com os cardeais abismados e a criadagem receosa, finalmente a comitiva foi recebida no Castelo de Sant’ Angelo, todos os lusos em ricas vestes, os tesouros expostos em louvor do Santo Padre. Ainda não refeitos do espanto provocado pelos leopardos e os elegantes cavalos árabes que desfilavam altivos, já do lado do Tibre, perante o assombro de todos, abria caminho o cortejo mais vistoso: o  portentoso elefante, ricamente paramentado, guiado pelo mahout, com Fernão Pires escoltando a cavalo e lançando moedas de ouro, o pavilhão do poderoso rei de Portugal desfraldado ao vento. Toda a praça estremeceu e quase dispersou quando o proboscídeo soltou um guincho tonitruante, deixando os guardas suíços em posição de fogo, temerosos.

Para espanto geral, e à ordem de Tristão da Cunha, o elefante ajoelhou três vezes , dócil,em sinal de reverência e depois, obedecendo a um aceno do tratador indiano, aspirou a água de um barril com a tromba e espirrou-a sobre a multidão e os assustados cardeais benzendo-se, ante aquele sublime e recente converso.

O Papa aproximou-se, deslumbrado, embora receoso, o Senhor dos Altares ao encontro do Senhor da Selva e Tristão da Cunha fez então a entrega do valioso presente ao romano Pontífice:

-Santidade, El-Rei D.Manuel fez mercê de vos enviar o mais pujante dos animais encontrado em nossas e vossas terras das Índias . Um elefante, Hanno, é o nome porque atende, apesar de corpulento conta apenas quatro anos, pouco para a sua espécie. Vem de Cochim, e a glória de Deus vem reverenciar. E a um sinal ao tratador, o elefante ajoelhou, a receber bênção do Papa, ufano, receoso embora, não fosse o presente enervar-se. Garcia de Resende registava o momento, séculos depois do grande Aníbal, o poderoso rei de Portugal deslumbrava Roma, senhor de remotas gentes, também ele  Grande Elefante de um império onde o sol nunca se punha.

À ordem do Pontífice, o camerlengo conduziu Hanno para um improvisado picadeiro onde atarantados guardas o olhavam aterrados, doravante sua nova morada à sombra de sinos e igrejas. Mais tarde, afeiçoado, Leão X mandou erigir-lhe um enorme estábulo no Borgo de Sant’Angelo. Com o tempo participou inclusive em procissões e desfiles,  recordação do poderoso Portugal impressionando a Sede Apostólica, grande e pujante nos mares  como Hanno entre os romanos.

No Paço de Sintra, o Venturoso, recebidas as notícias do deslumbre e impressão provocados, regozijava, triunfante, enquanto da varanda interior lançava a um fosso uma lebre de alimento a  um altivo tigre do Malabar.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:58

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