por F. Morais Gomes

17
Fev 11

Filipe Corujão acelerava a construção da moradia nas Azenhas do Mar, a licença estava prestes a caducar havia um atraso considerável, o empreiteiro atrasara-se e obras não eram com ele. Médico no Amadora-Sintra, via-se enfiado em desenhos e alvarás em vez de injecções e analgésicos, a burocracia portuguesa faz qualquer um envelhecer. Na Câmara o arquitecto, um tal Alberto Henriques era um caso sério para o apanhar. Do telemóvel não atendia, do serviço diziam que estava em reunião, em Portugal quando se precisa de falar com alguém está em reunião.

As alterações no projecto já estavam executadas, mas a Câmara não aprovava, o plano da orla costeira, a Rede Natura 2000, a certificação do ruído, e muito mais. O Conrado, empreiteiro de manhã e alcoólico à tarde dizia que se avançasse a construção, a obra não podia parar, tinha outra no Algarve a seguir e se não fosse agora não sabia quando poderia voltar.

O projecto das alterações tinha já dois meses na Câmara, mas ainda não saíra das mãos do arquitecto Henriques. Tentou uma reunião, telefonou para vários lados, tente mais tarde, o senhor arquitecto foi almoçar. Um fiscal passara já uma vez, a ameaçar com embargo, era preciso acelerar, as pesadas multas desaconselhavam aventuras.

Tentou ser recebido pelo arquitecto, não logrando senão para três semanas depois, a licença caducaria entretanto e o fiscal, já antes a torcer o nariz não deixaria de actuar. Impossível, muito trabalho, reuniões, meta uma exposição.

Passados uns dias, a obra foi efectivamente embargada, contra-ordenação a caminho, o Conrado partia para o Algarve não sem apresentar previamente a factura, a licença na melhor das hipóteses só daí a três meses, e teria de suprimir na volumetria, e pagar taxas agravadas.

O transtorno era grande, mas havia que ter paciência, um colega do hospital, optimista dissera-lhe que em Cascais levara um ano, com um bocado de sorte ainda esse ano recomeçaria a obra.

O banco do Amadora-Sintra é um microcosmos de doentes e outros a viver da doença, noites de álcool e excesso de velocidade, cadinho da sociedade, violenta e desumana. Filipe estava de banco de terça para quarta, o rotineiro desfile de acidentados. Comera uma sopa no bar e avançava para mais um paciente, uma queda de motorizada, luxação, siga para o RX.

O rotineiro movimento de ambulâncias e sirenes é  a música da noite nos hospitais, mais uma e um ferido entravam agora, choque frontal no IC-16, a seguir ao Tribunal. A vítima sangrava muito, o outro falecera.

Filipe mandou avançar para a observação, o doente tinha hematomas na cara e quase não falava, a mulher e a filha aflitas vinham atrás, a fazer a identificação.

Debruçado sobre o sinistrado, Filipe reconhecia agora o arquitecto da Câmara, o Alberto Henriques, estava atordoado e o caso inspirava cuidados. Momentaneamente lembrou-se do processo e do embargo, ir-lhe-ia custar tudo para mais de cinco mil euros, e bastava ter pegado no processo uns dias antes, sobranceiro despachara-o no átrio do departamento.

Depois de exames e medicado, recolheu ao internamento, os bombeiros entregavam à mulher uma pasta com papéis que se espalharam com o choque. Depois correu a informar a família, não corria perigo de vida mas tinha ali para dois ou três meses.

Só dois dias depois o infausto arquitecto, agora a soro, recuperou minimamente. Durante a visita matinal, reconheceu o médico, o tal da casa nas Azenhas, e entre o silencioso e o encavacado perguntou pelo seu estado:

-Há-de ir ao sítio, arquitecto. Com três meses de “estaleiro”….- respondeu, distanciado e profissional, agora com o arquitecto de “baixa” é que o projecto nunca mais sairia .

Passadas duas semanas, o arquitecto teve “alta”, repousaria agora em casa, umas muletas como companhia para três ou quatro meses, longe da Câmara.

No dia em que saiu, ainda combalido procurou Filipe no seu gabinete, a agradecer a assistência, e a prometer celeridade no processo das alterações. Iria telefonar a um colega, para dar prioridade, os prazos têm de se cumprir e é o dinheiro dos contribuintes que está em jogo, afinal.

Meia hora depois, a enfermeira voltava, o senhor doutor pedia desculpa mas não podia receber o arquitecto, estava em reunião…


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:16

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