por F. Morais Gomes

20
Fev 11

Reprovado em Direito no segundo ano, em Março Artur Baleizão fora incorporado em Santarém. Cavalaria, o ramo onde é uma besta por cima e outra por baixo, dizia o avô, veterano da I Guerra. A viagem desde o Alentejo até nem era longa, mas a perspectiva de África mais tarde não o deixava tranquilo. O pai já falara com o capitão Maia, também ele de Castelo de Vide, mas o envio para o Ultramar  finda a recruta era ainda incerta, as coisas estavam acesas na Guiné desde que o general Spínola saíra de governador e editara um livro que deixara todos nervosos. Na véspera da incorporação tinha havido incidentes nas Caldas, nunca se percebera o quê, mas para ele, jovem miliciano, que nem os atacadores aprendera  a  laçar, com espinha bífida e óculos graduados,  estava como papagaio em capoeira de galinhas, solha frita às quintas-feiras e o  alucinado do Carvalho a ressonar e  fazendo camas à espanhola na caserna.

Nessa quarta-feira a ordem de recolher foi às nove, como habitual, antes escrevera a Mariana que o aguardasse  em Lisboa no fim-de-semana para irem ao teatro, talvez um copo no Jamaica com o Tiago e a Ângela depois.Na quinta de manhã haveria instrução de tiro e sapadores, ainda lhe doíam as pernas do cooper da véspera, vida estúpida para quem não queria seguir carreira, de farda parecia um pinto calçudo, alvo de gozo no comboio.Não conseguiu dormir logo, na messe dos oficiais havia barulho ainda,copos pela certa, o Passos, instruendo como ele estava de serviço, esperaria por ele para um cigarro na caserna, só a luz de presença estava ligada ainda. Aí pelas onze e meia o segundo-comandante, furibundo, atravessou a parada, estaria a fazer a folha a algum, por certo, Cavalaria não é mole, e Santarém era a elite. Parte dos milicianos seguiria para o contingente NATO, Tancos ou Santa Margarida, outros para África, Nambuangongo apesar da pouca informação parecera  coisa séria.

Pela uma, o Passos tardava, uma algazarra soou na parada, o tenente Barbeitos, a gritar na  porta da caserna e a mandar formar em dez minutos. Nova praxe aos maçaricos, pensou, enfadado.

Todos formados, foi então comunicado que sairiam para uma missão urgente, em Lisboa, os comandantes de esquadrão todos em consonância, o comandante e o segundo ausentes, porém. Recruta não discute, Lisboa ida e volta na mesma noite, mais uma praxe a caminho.Ordem de equipar o M-64,G-3 municiada, duas rações de combate por homem, até parecia  uma guerra a sério, pensou, lembrando a guerra do Solnado, várias vezes aquele folclore lhe parecera obsoleto e teatral, havia que aguentar,antes Lisboa que Bissau.

No meio do reboliço, descortinou o capitão Maia, seu patrício, de camuflado, agitado no gabinete do oficial de dia, falando com dois graduados. Depois de ordenar sentido, falou às tropas na parada:

-Homens! Se bem que ainda não tenham a recruta completa, a vossa destreza vai ser posta à prova! Temos uma missão a cumprir esta noite: ir a Lisboa e controlar o acesso a vários locais, Banco de Portugal, Rádio Marconi e Terreiro do Paço entre outros. Esta missão visa  demitir o governo que tarda em arranjar soluções para os problemas inadiáveis do nosso país! Quem estiver contra dê um passo atrás!

O que parecia mais uma praxe  era afinal coisa séria, um golpe militar, que fazer? Por um lado, a política pastosa que o atirara para a tropa causava-lhe repulsa, mas e se falhassem, mal tinha feito instrução de tiro, o presídio de Elvas poderia ser o fim certo para a excursão nocturna. Ninguém deu passos atrás.

Um oficial correu entretanto a falar ao ouvido do capitão Maia:

-Está tudo em marcha, a senha foi confirmada via Romeo, tudo Oscar Kilo!

-Óptimo!- e saltando para um Chaimite,  avançou para a primeira das viaturas já alinhadas,direito à porta de armas, passava das duas da manhã, nessa noite não haveria camas à espanhola.

Um esquadrão com dez viaturas blindadas e outro com cento e sessenta homens, doze viaturas, duas ambulâncias e um jipe saía amotinado a caminho de Lisboa. Tudo era confuso mas estimulante, Artur e Passos cochichavam, no Chaimite,com sorte nessa noite ainda tomariam um copo em Lisboa.

A entrada na cidade foi pelas cinco e meia, um polícia no Campo Grande olhou a coluna mas não ligou, manobras por certo, não houvera nenhum alerta. O Passos e o esquadrão dele foram para o Banco de Portugal, Artur e o grupo do capitão Maia posicionaram-se no Terreiro do Paço, passavam já carrinhas com fruta e legumes na direcção do Cais de Sodré. Salgueiro Maia, sem grande oposição até então, contactou um misterioso Posto de Comando, dando conta da situação:

-"Informo que ocupamos Toledo (T.Paço), Bruxelas (Banco de Portugal) e Viena (Rádio Marconi). Diga se escuta!

-Afirmativo!- ecoou uma voz metalizada do outro lado.-Papa Charlie no controlo!

As coisas pareciam correr bem, sem reacção, até um comandante da PSP veio oferecer ajuda, descongestionando o trânsito. Com o amanhecer passavam os primeiros carros, o 28 para a Graça cruzara já a praça, surpreso com o aparato militar. Artur aproveitou para se dirigir ao capitão Maia:

-Meu capitão, vamos dar cabo do Marcelo e do Tomás, não vamos?

-Podes escrever, Artur, temos de pensar nos nossos filhos e em Portugal! Esta é a nossa hora!- sorriu, pondo-lhe a mão no ombro. Apesar de sereno, o ar era cansado, aparentemente nenhuma coluna mais viria para ali, doze blindados com recrutas maçaricos  contra um  Império que parecia não dar resposta.

Já chegando funcionários dos ministérios, alguns poucos oficiais afectos ao governo surgiram então a desafiar  os  homens, chegando a aquecer o ambiente com a gritaria do major  Ferrand de Almeida, em cima dum blindado, a recusa dos seus homens em atacar os camaradas de Santarém fez passar os Panhard da coluna dele para o lado destes. Artur regozijava agora, a farda verde  de que fizera chacota tornava-se agora símbolo de galhardia, verde-esperança, não mais verde-feijão.

Pelo meio-dia, à medida que notícias de outros locais da cidade chegavam, as pessoas invadiam as ruas, apesar dos apelos na rádio,com um frémito na espinha viu a Mariana a acenar de lágrimas nos olhos,perto da R. do Arsenal, o copo no Jamaica no sábado chegaria por certo mais cedo, recruta-herói em saída nocturna de quinta-feira. Um beijo soprado de longe era o selo do sucesso.

Alucinantemente os acontecimentos sucederam-se, as pessoas a sair às ruas, saudando e oferecendo cigarros, a deslocação da coluna para o  Largo do Carmo , aclamada, o abraço ao Passos e aos camaradas do esquadrão , uma florista no Rossio a oferecer-lhe um cravo, logo guardado para Mariana.

Passaram muitos anos, o orgasmo colectivo daquela quinta-feira em que falhou a instrução de tiro, mudou o país de forma avassaladora e definitiva. Ainda hoje, advogado em Castelo de Vide, não passa um dia que Artur não deixe uma flor campestre na soleira da casa onde o capitão Maia nasceu, largando uma melancólica lágrima ao lembrar da madrugada chuvosa em que um punhado de jovens recrutas saíu da caserna à pressa para um encontro marcado com a História.

 

 

 

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 02:40

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