por F. Morais Gomes

22
Fev 11

Praia da Aguda, 12 de Janeiro. Um corpo fora encontrado esfaqueado no coração, sem sinal de faca ou punhal,o chão tingido de sangue. Exalava um odor forte, no ombro, uma lança tatuada, louro, mais de sessenta anos,aspecto de estrangeiro. Fernando Monteiro, inspector da Policia Judiciária contemplava o cenário, enquanto fotos eram tiradas, no local deserto apenas os agentes da GNR e a brigada dos Homicídios. Parecia ter sido torturado até à morte, sem carteira,a única pista era a lança tatuada no ombro.

Passados uns dias, a inspectora Judite, sua coordenadora, chamou-o, de urgência. Novo homicídio, desta feita um padre, na igreja de Rio de Mouro, o sacristão estava em estado de choque. Numa cura de desintoxicação alcoólica, tivera uma recaída e não resistira a beber o vinho da missa antes de fechar a igreja, quando deu com o padre tombado  sobre o altar , uma marca de punhal no coração.  No ombro, desnudado, igualmente uma lança tatuada.

-O padre é de origem belga, Janus Vertessen, e ao que parece foi ordenado aos trinta e três anos, pouco se sabe da sua vida, estava em Portugal há vinte anos- informou a inspectora, consultando as suas notas.-Não há outras testemunhas.

-E tem ligação com o crime da Praia da Aguda?

-Uma mulher do Linhó fez queixa de que um estrangeiro desapareceu sem pagar-lhe a renda  do quarto, já é uma pista!Além de que parece coisa de serial killer: duas tatuagens iguais, duas mortes com arma cortante.

-Bem, vamos ate lá.-rematou o inspector Monteiro.

A senhoria da casa informou que o tal inquilino era estrangeiro e  desaparecera há mais de dois meses, tinha sido recomendado por um amigo. Nos pertences, ainda no quarto, roupas, um relógio, e um livro de arqueologia  escrito pela vítima da Aguda ainda por identificar.Era um tal  Jasper Vertessen, de Gand, Bélgica, arqueólogo.

-Sabe onde podemos encontrar a pessoa que o recomendou?

-Sim, vive perto de Galamares,não longe de Colares.

Lá chegados, com a D.Cidália, a dona da casa, apareceu um homem de quarenta anos, grisalho.

-É o sr. João Afonso, creio? Policia Judiciária.Pode dizer-nos como conheceu o sr.Vertessen, a quem arranjou alojamento ?

-_Bem, na verdade eu não o conhecia pessoalmente. Apenas atendi ao pedido de um amigo, o António Rebocho, que é funcionário do tribunal e também sacristão na igreja de Rio de Mouro. Disse-me que o Jasper era irmão do padre que agora apareceu morto e foi ele quem o trouxe, indiquei-lhe a casa da Cidália para ficar.

-E porque não disse nada à polícia quando soube que o padre apareceu morto?

-O António disse-me que não era preciso, ele próprio diria ao padre, estava com ele todos os dias.

-Mas afinal o que aconteceu ao sr.Jasper, Afonso?- perguntou a dona da casa alugada

-Está morto.Estes senhores devem saber mais que eu, já estiveram junto ao corpo.

O sacristão, um tipo obeso e de nariz avermelhado, estava em casa, a beber, como se já esperasse a chegada dos polícias:

-_Vieram  prender-me?

_Porquê,existe algum motivo para isso?

_Não, não…

_Então diga-nos tudo o que sabe sobre o padre Vertessen e o irmão dele.

-A única coisa que sei é que a pessoa que mora nesta morada me pediu que quando vocês aparecessem lhes entregasse isto.–respondeu, sacando de um papel numa gaveta.

Era uma morada em Sintra. Lá chegados, uma velha casa no Arrabalde, encontraram a porta semiaberta e entraram, uma casa escurecida e cheia de antiguidades, parecia desabitada.

-Boa tarde, meus senhores - disse uma voz com sotaque francês, sentada numa cadeira de baloiço na penumbra - chegaram mais depressa do que eu previa, fiquem à vontade. Era um homem de uns setenta anos, cabelo branco e voz rouca, vestia um roupão de seda azul.

-Quem é o senhor? É claro que pode se reservar a falar somente no tribunal - esclareceu a inspectora.

Não se preocupem,não haverá tribunal- disse ele sentando-se de novo- estou muito velho e doente, e os meus dias estão a acabar, por isso acho melhor contar-lhes tudo, assim não morre comigo.

Servindo-se de um cognac começou a falar:

-O meu nome é George Perkins, sou americano e tal como os dois que morreram faço parte da Irmandade da Lança- e, levantando-se, sem pressas, abriu o roupão deixando à mostra uma tatuagem,  igual à do padre e do irmão, uma lança, tatuada no ombro.

- Éramos doze, como os apóstolos - continuou - Nos anos sessenta um grupo de pessoas em que eu e os Vertessen nos incluíamos, descobriu num velho antiquário em Florença a lança com que Jesus Cristo foi trespassado por um soldado na cruz . O Jasper era arqueólogo e atestou a veracidade, vestígios de sangue coalhado analisados permitiram tirar a conclusão. E o grupo, fez juramento de guardar a relíquia em segredo, tendo-a mantido em minha casa em Capri muitos anos. Mas o Jasper e o Janus traíram-nos e roubaram-na, fugindo depois.

-Estou a ver- reparou a inspectora, o velho sorvia mais um gole de cognac.

-Mas nós prometemos recuperar a lança e puni-los pelo seu acto. Só que os anos passaram, os outros foram morrendo e só restei eu.Finalmente localizei o Janus aqui em Portugal, estava em Itália quando o vi na televisão atrás do Papa quando ele  cá veio  o ano passado. Janus tornara-se padre entretanto, o safardana, e o Jasper, depois de enviuvar veio para cá  para estar mais perto do irmão. O resto já os senhores sabem, uma lança fez o seu trabalho! -rematou, terminando a bebida.

-E o sacristão, tem alguma ligação com o caso?- sondou a inspectora Judite.

-Não, é um pobre diabo, pedi-lhe apenas para vos entregar a morada a troco duma caixa de vinho alentejano, é tudo.

-Então e já agora,a lança, foi recuperada?- questionou Monteiro.

Winny fez silêncio uns segundos, sorriso enigmático e encolher de ombros. Levado sob detenção, o seu estado de saúde levou o juiz a mantê-lo em prisão domiciliária. Como ele previra, não chegou a haver julgamento, um mês mais tarde um tumor maligno no fígado ceifava o último sobrevivente da Irmandade da Lança.

Enquanto isso, em Boston, Massachussets….

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:12

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