por F. Morais Gomes

27
Fev 11

Na escarpa da Ulgueira, paredes meias com a Azóia, ululante em noite de Inverno, António e Mafalda Barroso acendiam a lareira a aconchegar a sala do “Promontório”, seu pequeno hotel no litoral , atlântico e fustigante, as luzes do farol da Roca pestanejando ao longe. A televisão anunciava o assassínio essa tarde, em Colares, de Mário Esteves, funcionário dos Correios, o criminoso estava a monte, a polícia montara caça ao homem. Apesar de ser época baixa, quatro hóspedes acolhiam-se na crepitante lareira, um licor de poejo reconfortava António  no salão aquecido. A noite prometia borrasca, chuva e ondas de sete metros, o vento de nortada aconselhando uma bebida junto ao lume e uma fatia do bolo de chocolate que Mafalda tão bem fazia. Os clientes, chegados essa tarde, já o mau tempo se aproximava, eram um coronel  solteirão, Castro Gonzaga,  em busca de sossego, Jorge,finalista de Arquitectura, e a doutora Áurea Soveral, uma juíza aposentada, atraída pela beleza das arribas alcantiladas. O boletim meteorológico aconselhava precauções, ventos ciclónicos para a noite, o jantar seria às oito, para que querendo, recolhessem cedo, Áurea desafiava o coronel para um bridge depois, acompanhado por uma reconfortante bebida.

A noite era pois para um serão de província, cinco numa casa, quase isolada, vinho e cartas no remanso, escutando as bátegas enfurecidas.Passava já das onze quando inesperada, em noite de temporal, a campainha tocou, um indivíduo de gabardina, encharcado, pedia para falar com os donos da pensão, coisa urgente.Era o inspector Toscano, da Polícia Judiciária, trazia notícias preocupantes: o  assassino de Mário Esteves, o tal que a  televisão noticiara , andava a monte na zona, era preciso atalhar que não se escondesse ali ou molestasse algum hóspede, um bloco notas no local do crime mencionava o nome “Promontório”.O inspector bebeu uma poncha quente, que António lhe ofereceu, e acolheu-se por momentos à lareira, a secar, os demais jogavam cartas e só Jorge , alheado, lia um romance, sentado  numa cadeira de baloiço, não se apercebendo da conversa, tirara uns dias para ler e descansar, o médico sugerira.

Um relâmpago , logo um trovão tonitruante, e a luz eléctrica faltou na casa batida pela chuva. Dez minutos levou ainda António a acender as velas de um candelabro, a partida de bridge entretanto interrompida. Só minutos depois a luz foi reposta, mortiça, com a trovoada cada vez mais próxima no breu da Ulgueira. António serviu  Porto, para acalmar, mas logo um grito de Mafalda denunciou o corpo estendido no chão de Áurea Soveral ,os gritos quase abafando o trovão seguinte, que com a força abriu uma janela, fazendo voar o baralho de cartas e quebrando um copo em cima da  mesa. O inspector ,que  se prestava a interrogar os presentes antes da luz falhar,tomou conta da ocorrência e examinou a falecida. Estrangulada, apurou. O assassino estava entre eles, e fora rápido.Toscano recolheu indícios, tentou comunicar com a Polícia mas a rede estava em baixo, em noite de tempestade, estavam isolados e, pior, em perigo.O coronel Gonzaga, intrigado, interpelou o inspector:

-Diga-me, senhor inspector,  porque motivo o assassino desse tal Mário Esteves haveria de vir para aqui?

-Lembra-se de um caso há uns anos, em Sintra, um rapaz que foi violado pelo pai e irmão adoptivo, veio nos jornais? O Mário era o pai adoptivo, temos razão para crer que o assassino seja o rapaz, um tal José Pimentel,e ande atrás das pessoas  ligadas à sua adopção para lhes fazer o mesmo que já fez ao pai. Vingança, sabe…

-Então, mas o que é que a dra Áurea tem a ver com isto?- atalhou o coronel.

-Ela foi a juíza que na altura entregou o jovem ao Mário e à mulher. Daí a referência ao Promontório no  bloco notas, o assassino sabia que ela estaria cá estes dias.

-Então se o móbil para a morte da doutora foi esse, é porque um dos presentes é o assassino,o rapaz que foi violentado!- deduziu o até ali silencioso Jorge, apreensivo, ar doente,a notícia da morte de Mário Esteves que escutava pela primeira vez, deixara-o transtornado.António, enquanto Jorge falava, reconhecia entretanto o jovem, já o havia visto em em cafés de Sintra,bem lhe parecia ser aquela cara familiar:

-Você não é parente do Mário Esteves, Jorge?E pela idade, poderia até ser esse filho adoptivo...-lançou, desconfiado.

Jorge ficou surpreendido pela ligação, e  um pouco assustado:

-Não, António, sou efectivamente  filho do Mário Esteves, o meu nome é Jorge, Jorge Esteves, mas sou  seu filho biológico Era  adolescente quando ocorreu esse caso,para mais de dez anos, se soubessem como estou arrependido, dessa insanidade. Tive um internamento psiquiátrico, inclusive. O meu pai era alcoólico, saiu tudo fora do controle emocional, e  agora está morto! E virando-se para Toscano, que ouvia atento cada palavra, sondou-o:

-Acha que o assassino é um dos presentes, inspector?

-É, tenho a certeza agora!- respondeu o inspector Toscano, puxando duma arma e apontando-a para Jorge -estás a olhar para ele, canalha! Não te lembras de mim, maninho?O pobre órfão que adoptaram para saciar a vossa lascívia nojenta?

O polícia era afinal o rapaz violado anos antes, a juíza negligente e o padrasto alcoólico já estavam, faltava o irmão, há muitos anos o não via, acabava de se denunciar. O estratagema de se passar por polícia pegara, a providencial falta da luz um momento precioso para, depois do velho tarado,se livrar da negligente juíza que o entregara a pais sem estofo moral.

Lá fora os relâmpagos não paravam, no chão da sala ao corpo inerte da velha juíza juntar-se-ia agora nova vítima, a justiça em funcionamento. O tempo passara, mas não esquecera, marcado no corpo.Mafalda,  em pânico escondeu-se atrás do aparador, Jorge, descoberto,ficou branco como a cal da parede a olhar o falso inspector. Já a arma ia fazer nova vítima, quando José Pimentel sentiu atrás da nuca um objecto frio encostado. Toscano virou-se e deparou,surpreso, com  o coronel Gonzaga, que armado com uma pistola, o  mandava  pousar a arma:

-Tenha calma, José. Compreendo a sua raiva, mas não acha que duas mortes já são demais?- e sacando da carteira, identificou-se -Baltazar Martins, Policia Judiciária. Mafalda julgava endoidecer, o polícia não era da polícia, o coronel também não era coronel.

Duas horas mais tarde, já a tempestade amainara, a polícia finalmente chegou, a retirar o corpo e levar o assassino, entretanto mantido em vigilância. Jorge, ao cruzar-se na porta com o traumatizado irmão ainda balbuciou um pedido de perdão, ele olhou-o em silêncio, o desprezo fulminante chispando dos olhos. António e Mafalda, extenuados, finalmente iriam dormir, depois da molhada noite na pachorrenta Ulgueira,o  Promontório sossegava, depois da tempestade,silencioso e sem clientes para o brandy.Mafalda, extenuada e  junto à lareira,guardando o baralho de cartas, ainda confusa,interrogou o marido, que reacendia o lume:

-António, diz-me uma coisa. Tu chamas-te mesmo António, não chamas?


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:16

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