por F. Morais Gomes

01
Mar 11

O segurança fechou as luzes, apenas ficando as de presença, sexta-feira, quase todos já tinham saído da Faculdade de Medicina, em Lisboa. O doutor Pignatelli, do gabinete de frenologia acabada a dissertação que faria sobre o cérebro e o crime na semana seguinte saía também, o dia fora cansativo.

Pouco passava da meia-noite, o segurança dormitava já, e uma lanterna mortiça e silenciosa focava as prateleiras do velho teatro anatómico. Crânios, pés, corações, fetos de gémeos em frascos de vidro, o vulto procurava algo específico, que finalmente encontrou: o tal frasco, o valioso frasco contendo a cabeça decepada do criminoso Diogo Alves, conservada em formol, um médico que quisera ficar no anonimato pagara ao Quim dez mil euros para que roubassem e lhe levassem o frasco com a cabeça a uma casa perto de Sintra. Artur não via que interesse poderia ter objecto mais macabro mas era uma boa grana, os acessos à faculdade não foram difíceis, entrara com o pessoal da limpeza, discretamente. Agarrada o frasco, meteu-o no balde da esfregona e com pezinhos de lã escapuliu-se para Sintra, ao encontro do Quim.

Diogo Alves fora um conhecido criminoso do século dezanove. De origem espanhola, nos anos trinta desse século, com a ajuda da sua companheira, a Parreirinha, cometera inúmeros crimes, os mais conhecidos dos quais os homicídios e lançamento das vítimas do alto do Aqueduto das Águas Livres, depois de as roubar. Apanhado depois de assassinar a  família de um médico, foi enforcado em 1841, tendo na altura cientistas da Escola Médica decepado a cabeça e ficado com ela para estudo, até ao presente. Apesar do aspecto tranquilo, uma mente perversa estaria por trás daquela personalidade.

Sampaio de Moura, 67 anos, médico já uma vez admoestado pela Ordem por experiências deontologicamente reprováveis, fora o mandante do roubo, e contra a entrega do dinheiro, em notas, com regozijo recebeu o perturbante frasco na sua casa em Chão de Meninos, anoitecia já, a Natália em frente recolhia a esplanada depois de mais uma tarde primaveril.

Moura acreditava que o ncérebro de Diogo Alves  encontraria explicação para os comportamentos criminogéneos , a protuberância física como determinante, e propusera-se secretamente fazer uma experiência: aproveitar a operação  a um paciente traumatizado, para discretamente lhe fazer um implante, operação arriscada, a Helga, dedicada enfermeira colaboraria com discrição, e com isso monitorizaria a experiência que há muito vinha matutando. Ao invés de colegas seus, adeptos da craniometria, que associava o tamanho peso e forma do crânio a comportamentos desviantes, ele ,frenólogo militante ,sempre achara fundamento científco nas ideias de Franz Gall, o cérebro como lar de toda a actividade mental, o nível de organização do mesmo a determinar a personalidade, independente da moral ou da razão, a experiência mostraria se tinha razão ou não.

Duas semanas depois, na cirurgia do Amadora-Sintra, Alberto Santiago avançava já anestesiado para a sala de operações, a queda de uma grua deixara-o com lesões cerebrais, só uma operação poderia resolver. Sampaio de Moura, já com tecidos da cabeça de Diogo Alves preparados, raspou-lhe o couro  cabeludo ,fez uma incisão e, em seguida, uma perfuração no crânio do sinistro para a parte com problema ser exposta,usando lentes de aumentação por forma a  não causar danos no tecido encefálico. Depois de retirar um coágulo de um vaso sanguíneo  implantou tecidos extraídos da cabeça de Diogo Alves e voltou a colocar o osso craniano. A experiência estava em curso, pensava sorrindo para si mesmo, outro Alberto seguiria agora para a enfermaria, entorpecido.

Só na tarde seguinte o paciente despertou, com sede, pedia água, sentia a cabeça a andar à roda, normal, dizia a Helga.  Sampaio, atento, tirava notas, os dias seguintes seriam determinantes.

Uma semana depois teve alta, iria convalescer em casa, na Tapada das Mercês, um sétimo andar perto da estação. Sampaio recomendara que viesse à consulta todas as tardes, para acompanhar a recuperação, comportamentos anormais seriam para ele relevantes, a enriquecer as suas ideias que recolocariam as teses de Gall no centro da neurologia moderna. Egas Moniz e suas bárbaras lobotomias depressa estariam no caixote da Ciência, quiçá um dia  para ele o Nobel  a premiar as teses de Sampaio, sonhava já em voz alta.

Na Tapada das Mercês, entretanto, Alberto passava os dias a ver televisão, frequentemente atacado por  encefalias, sequelas ainda o acidente, pensava. Uma tarde, antes de sair a encontrar-se com o médico duas testemunhas de Jeová  bateram à porta a doutrinar, missionárias. A dor de cabeça e a hora eram inoportunas, arengou, tinha de sair para ir ao médico. As senhoras, livro na mão, eram insistentes, e continuavam a falar da salvação. Alberto, ouvia-as com um eco a zurzir na sua cabeça, ficou alienado e sem noção do que fazia agarrou uma delas e lançou-a do sétimo andar pela varanda aberta do corredor, logo em baixo se juntando uma multidão perto do Floresta Center, enquanto a outra fugia, o Deus que salva talvez não a salvasse naquela situação. Alberto ficou em pânico, quando se apercebeu do que fizera,e correu a fechar-se em casa, já a sirene da polícia vinha a caminho, a cabeça a latejar. Em desespero, telefonou ao doutor Sampaio, precisava vê-lo urgente,um polícia arrombava a porta a pontapé. Escondendo-se na parte de fora da varanda, mal o incauto agente  ali foi à sua procura, um empurrão com um só safanão e  o polícia jazia também lá em baixo,no passeio do prédio, choviam pessoas daquele prédio, pensou um bêbedo observando a cena do quiosque da estação.

Sampaio chegou acelerado, o burburinho à porta do prédio em torno dos corpos antecipou-lhe que o pior tinha acontecido, trepou os sete andares a pé e deu com Alberto prostrado no chão da sala e agarrado à cabeça, os olhos fora das órbitas. Da varanda aberta vinha agora um vento desagradável, correu a fechá-la. Ainda mal tocava uma das portas quando por trás sentiu um empurrão seco e desamparado e se viu janela fora, rumo à eternidade,  não exactamente aquela com que sonhara.

Para Alberto Santiago, como para Diogo Alves cento e setenta anos antes, os problemas eram todos com as alturas...


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:41

Anónimo a 1 de Março de 2011 às 10:12

Este, hoje, é macabro :-)
A foto é mesmo verdadeira? Aquilo existe?
Zé Maria a 1 de Março de 2011 às 10:16

A cabeça é real, do Diogo Alves, e está na Faculdade de Medicina em Lisboa.

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