por F. Morais Gomes

03
Mar 11

Manhã cedo, o sol brilhava forte e tudo fazia crer que seria um dia quente. João abriu os olhos, assustado, o polícia mandava atravessar, o semáforo estava verde.

- Vamos a circular! - já os condutores atrás levantavam os braços, sem paciência, ao volante sempre justiceiros implacáveis. A noite nas Docas fora em cheio, oito da manhã e ainda não fora à cama, a correr as capelas e coleccionar shots de bar em bar, a manhã parecia estranha,com  a boca a saber a papéis de música. O carro ficara junto ao BBC e depois de várias incursões com os amigos noite fora, voltava a buscá-lo para logo de seguida cair numa providencial  cama até lá para as cinco da tarde. Sexta-feira seguinte, outras histórias, mais uma volta, mais um tirinho, pensava.

Caminhava lentamente pelo passeio onde ainda horas antes tropeçara bêbado, mal se lembrava já do que fizera essa noite,quando os pés tocaram num objecto meio disfarçado na relva. Abaixou-se e pegou. Era uma carteira de mulher, dentro alguns cartões de crédito e um maço de notas de cinquenta euros. A primeira tentação foi ficar com a carteira, deveriam estar ali mais de trezentos euros, alguma “tia”que saíra a divertir-se, tinha cartões de centros de massagem e fitness, um convite para a Moda Lisboa ainda dobrado.

Desempregado, quatrocentos euros do Centro de Emprego, os dias entre o café ou em casa,as sextas-feiras eram o  dia da evasão, uns copos em bares onde porteiros amigos facilitavam o ingresso, o resto da semana a contar os cêntimos, tardes no café com uma bica na mesa para que não se dissesse que não consumia, aqueles trezentos euros quase duplicariam o mês. Porém, um rebate de consciência fê-lo mudar de ideias. Havia um endereço na carteira, e até não era muito longe a pé, subindo a Infante Santo ainda antes de voltar para casa entregaria a carteira à dona.

O local era um prédio de oito andares, já a caminho da Calçada da Estrela, muito classe média, dois elevadores, tocando à porta uma mulher magra para aí de quarenta anos e com um avental um quanto sujo veio atender, ainda não eram nove da manhã, a barba por fazer de João aconselhava prudência.

_ O que é que deseja?- perguntou a mulher, uma empregada, presumiu .

-Chamo-me João Subtil, a D. Liliana Candeias está?- esse era o nome que depreendera dos cartões de crédito, um Gold dum banco inglês sugeria conforto financeiro.

-A D.Lili está ocupada, o senhor engenheiro acabou de chegar do estrangeiro, qual é o assunto?

-É que tenho uma coisa para lhe entregar que deve estar a fazer-lhe muita falta - e dizendo isso, sacou da carteira do bolso de trás das calças.

_ Está bem, dê cá que eu entrego.

- Desculpe, mas só entrego em mão própria.

A mulher olhou-o com ar indignado, e refilou com ele:

-Está com medo que eu não entregue à senhora? Quem julga que eu sou?

-Desculpe, mas tenho de me certificar se a pessoa confere com os dados da carteira, é o mínimo não acha?

A empregada meteu um ar empertigado e fechou a porta. Passados minutos, uma mulher, para cima de trinta e cinco anos, roupão de cetim e toalha enrolada na cabeça atendia o voluntarioso rapaz. Era uma mulher produzida, perfume de marca,morena, coxas bem esculpidas, por certo acabara de se levantar, directa para ele e ainda ali, armado em bom samaritano.Ao vê-la,pareceu-lhe detectar no rosto algum desconforto:

-Bom dia, a minha empregada disse-me que o senhor queria falar comigo, eu perdi a minha carteira ontem, não sei onde, espero que me traga boas notícias!- o ar felino deixou-o interessado, ricaça por certo, mas com tudo no sítio, apetitosa. Retirou a carteira de novo e explicou-se:

-Sabe, encontrei esta carteira perto do meu carro, na zona das Docas, e pelos dados que aí vi suponho que seja sua, é a D. Liliana Candeias, certo?

-É minha sim, já tinha dado por falta dela. Nem imagino como foi parar às Docas! -respondeu, ar subitamente preocupado, mas sem desarmar, olhar evasivo.

Aquela cara pareceu familiar a João, não lembrava de onde, o perfume intenso  evocava-lhe algum local onde estivera recentemente, enfim, ainda era manhã e por certo os cheiros dos bares da madrugada ainda lhe estavam impregnados na roupa, deveria ser isso.

-Não a conheço de algum lado? - João sentia-se intrigado, mas podia ser engano, conhece-se tanta gente parecida.

 Uma voz de homem, lá de dentro, chamava por ela:

-Quem está aí, Lili?

- Ninguém querido, já vou! E dirigindo-se novamente a João rematou:

 - Olhe, como pode ver, estou com pressa. Certamente foi só impressão sua, nunca o vi mais gordo.

- Mas eu quase tenho certeza que….

Saia daqui, pelo amor de Deus! -e já com a carteira na mão, retirou o maço de notas da carteira e deu-lhos, nervosa:

- Tome, o dinheiro é seu, adeus!- e num ápice fechou a porta,  levando consigo o cheiro a perfume, forte e sensual. Apesar de tudo valera a pena, trezentos euros bem valeram subir a Infante Santo. Já perto do carro, e a ressaca a passar, um clique de memória e logo recordou a estranha morena que engatara num bar nas Docas e com quem se divertira dentro do carro, no breu daquele estacionamento, nem lhe perguntara o nome, aventura da noite, entorpecida pelos shots ,mais uma, o perfume sensual era identidade suficiente.


publicado por Fernando Morais Gomes às 03:31

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