por F. Morais Gomes

05
Mar 11

Holmes descansava debaixo da grande sequóia em Monserrate,na cozinha  Francis Cook providenciava o almoço, convidara o famoso detective para uns dias de  merecido descanso no seu  estival refúgio de Sintra. Watson viajara para Brighton, a banhos, Londres ficara deserta, uns tempos longe de Baker Street e Charing Cross vinham mesmo a calhar. Recarregado o cachimbo, aproveitava para exercitar o violino, absorvendo  a fragrância do verde inóspito domesticado por Cook em pujantes feteiras e  magníficos jardins adornados por túmulos etruscos. Cook,que conhecera em Doughty House, no Surrey,agora visconde de Monserrate, chegava entretanto com um visitante inesperado, um inspector da polícia portuguesa que lhe queria falar.

- Sherlock, aqui o inspector Carvalho da polícia local gostava de lhe dar uma palavra.

Holmes, sobranceiro, olhou–o e cumprimentou com o olhar, dando uma baforada no cachimbo, sem largar as mãos do violino.

-Sr. Sherlock Holmes? Sua Majestade, El-Rei D. Fernando gostaria de lhe falar. Poderia acompanhar-me ao Palácio?

Holmes anuiu, sempre quisera conhecer o rei-artista, o almoço ficaria para depois. D.Fernando estava no chalé da Pena, a condessa d’Edla fora a Lisboa nesse dia, recebeu-o na sala da música. Afável, mas preocupado, acompanhado pelo conde de Sucena e pelo marquês de Soveral, explicou os motivos por que o havia chamado:

-Bem vindo a Portugal, caro senhor Holmes. Desculpe interromper as suas férias, mas aconteceu uma terrível tragédia que creio só uma pessoa da sua craveira poderá esclarecer! – foi logo explicando, oferecendo um chá, que Holmes e os outros aceitaram -Um grande amigo meu, o marquês de Niza morreu na sua casa, aqui em Sintra, suicídio, diz a polícia, mas acho muito estranho,nada fazia prever uma situação destas, estranhei quando ontem faltou ao baile aqui na Pena. O seu contributo pode ser importante para deslindar o caso, aqui o inspector Carvalho estará à sua disposição para os procedimentos que ache necessários.

Magro e aquilino, de olhos penetrantes, Holmes era além de mestre da dedução, cirurgião de caracteres, a grande razão do seu sucesso a deslindar casos intrincados. Anuiu, fleumático, e de imediato pediu para visitar o local onde ocorrera o suicídio, saindo para lá sem delongas, antes que  pistas  importantes  fossem apagadas:

-Será uma honra, Majestade. A maioria das pessoas vêem, mas eu faço diferente, observo, aí reside o mérito da  investigação!

A casa do marquês não ficava muito longe, um chalé na rampa de acesso à Pena, a viúva, transtornada, recebeu o detective a pedido do rei. Holmes examinou a casa, ricamente decorada, dois criados silenciosos, a marquesa, aspecto de trinta anos, era mais nova uns anos que o finado marido, segundo lhe foi adiantando o inspector Carvalho.

-Senhora marquesa, que motivos teria o seu marido para pôr termo à vida? - foi perguntando, recusada que fora uma chávena de chá.

-Ignoro, senhor Holmes, mas sei que alguém o terá procurado esta semana a intrigar sobre mim e sobre a minha lealdade como esposa para com ele, andava um pouco estranho há dois dias.

-Importa-se que visite o local onde o senhor marquês pôs termo à vida?

 -Claro, o inspector Carvalho já lá esteve, acompanhe-me, por favor!

Na biblioteca, com vista para a Vila Velha, uma mancha de sangue no tapete denunciava o local onde caíra, um tiro na nuca, o corpo já retirado e preparado para o funeral, num quarto superior. Holmes pediu para ver o corpo, a cabeça estava desfigurada e enrolada num pano branco, o tiro fora na testa, central, o ângulo da arma deixou Holmes desconfiado, examinando com uma lupa. Pediu para falar com a pessoa que tinha limpo a biblioteca depois do incidente, a velha Gracinda foi então chamada a explicar:

-Minha senhora, o que lhe vou perguntar é muito importante. Viu na sala alguma coisa anormal, um móvel fora do sítio ou uma mancha….

-Ainda não estou em mim, caro senhor, que tragédia! - a velha empregada que descobrira o corpo ainda estava em choque - Não, estava tudo como de costume, o senhor marquês estava em casa sozinho, ontem de manhã, a escrever na secretária, quando vim da Vila vim ver se precisava de alguma coisa e ali estava ele, morto, no chão, com a pistola ao lado. Reparei contudo que na mão direita tinha um botão vermelho.

-Um botão? E pertencia a alguma roupa do marquês?

-Não, que eu saiba, e não sei a quem pertence.

Holmes, raciocinando, perguntou onde poderia encontrar um alfaiate, havia um na R. da Pendoa, na Vila, o velho Queiroga, El-Rei também a ele recorria quando estava em Sintra. Holmes e o inspector foram ao seu encontro:

-Sr .Queiroga, aqui este senhor inglês precisa de saber que tipo de botão é este- esclareceu o inspector, mostrando o botão, vermelho e debruado com cetim dourado.

-É um belo botão, sim senhor, ainda há uma semana fiz uma casaca com botões desses, vermelha , foi uma encomenda do sr. Conde de Sucena  para um baile na Pena que teve lugar ontem à noite!

Holmes taciturno pediu para ficar a sós, tinha voltas a dar, e no dia seguinte fez-se apresentar na casa do Conde de Sucena, em Seteais. O conde, ainda em roupão, estranhou a visita do inglês, mas mandou entrar.

-Senhor conde, creio ter descoberto o que sucedeu com o marquês de Niza. Parece que alguém o andou a intrigar contra a marquesa, para o perder junto do rei, ameaçando mesmo com escândalo nos jornais. Ora essa pessoa devia ser uma pessoa conhecida, pois só assim teria tido a possibilidade de estar a sós em casa do marquês. Creio que essa pessoa terá entrado em confronto físico com ele, acabando por o matar, numa altura em que não estava ninguém em casa. Só que na luta corpo a corpo, o marquês de Niza terá arrancado um botão da casaca do agressor, que depois de disparar deixou a arma junto a ele, para simular suicídio.

-Muito interessante sr. Holmes, vejo que são verdadeiros os créditos que lhe dão como grande investigador, Sua Majestade há-de ficar satisfeito.

-Reconhece este botão sr. Conde?- ripostou o detective, exibindo o botão dourado.

-Não, porquê, deveria?

-É que este botão é do seu casaco e estava na mão do marquês na altura em que encontraram o corpo.

-Ridículo, tenho de retirar o elogio que acabei de lhe fazer, isso é um ultraje! Os botões são todos iguais!

Holmes pegou numa foto que trazia na casaca e mostrou-a ao incomodado conde:

-Esta fotografia foi tirada ao grupo de S. Majestade durante o baile na Pena ontem à noite. Repare na sua casaca. Falta um botão, não falta? Igual a este!- Depois de deixar o alfaiate, Holmes fora procurar por registos do baile, o Granja, fotógrafo da Corte tinha feito uns daguerreótipos para o Correio de Cintra.

O conde ia reagir, alterado, quando da sala contígua surgiu D. Fernando II, em pessoa, acompanhado do inspector Carvalho. Sucena empalideceu, vendo-se denunciado:

-Porquê Sucena? –desabafou, desiludido, ouvira tudo, a corte portuguesa estava cheia de bajuladores e intriguistas, mas a ponto de matar…

O inspector deu voz de prisão ao conde e mandou chamar um corpo de polícia, que levou o conde para o presídio. O Rei ficou ainda a falar com Sherlock Holmes:

-Obrigado pelo seu contributo, senhor Holmes, espero que agora continue as suas férias em Monserrate, o Francis é um esplêndido anfitrião. E venha jantar comigo e com Elise na próxima semana, será um prazer.

Tocando o violino e retomando as baforadas no cachimbo, Holmes retornou ao sossego de Monserrate, onde o visconde organizaria entretanto um jantar de amigos para o conhecerem, um diplomata e escritor, o Eça de Queirós, estaria presente, perito em palhetos e bem disposto, Holmes iria gostar dele, já uma vez desvendara um mistério na estrada de Sintra.

-Diga-me Sherlock, como é que descobriu tudo tão rápido? Você é um génio, homem!

Sem se perturbar, o inglês continuou no seu exercício musical, com a Pena ao fundo:

-Elementar, meu caro Cook!

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 02:20

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