por F. Morais Gomes

08
Mar 11

A chuva açoitava copiosamente Lisboa, no Alto de S. João, anódinos e apressados coveiros rematavam com pazadas de terra a vala onde acabavam de sepultar Maria Severa Onofriana, vitimada pela tuberculose aos vinte seis anos. Silenciosos, Severo e Ana Gertrudes, choravam a perda precoce da filha,filha da Mouraria abandonada pela sorte, cativa de ébrios e boçais, voz triste e alma conformada com a sua existência. Atrás, quebrado, Francisco assistia de longe, a sua presença no funeral da mulher de quem fora amante nunca seria bem vista. A voz triste da Mouraria calara-se ,precoce,  não mais as noites seriam iguais em Lisboa.

Perturbado, a chuva fustigando o rosto, Francisco Portugal e Castro, conde de Vimioso, recordava a noite anos antes em que conhecera a filha da Barbuda na taberna esconsa da Rua do Capelão. Peito hirto, vontade indómita, não tivera forças para resistir àquele apelo dos sentidos, rameira com alma, voz de mando, sofredora, só Lisboa pedante e hipócrita o impedira de a receber nos seus braços, relegada para um soturno fado em vielas sórdidas, enteada da vida.

Na taberna da Rosário dos óculos muito nova começara a cantar,sobrevivente e para sobreviver, não tinha poiso certo. Umas vezes no botequim do Cegueta, outras no Café da Bola, favorita era a tasca do Joaquim Silva, moço de forcados,junto à praça de touros do Campo de Santana, aí se juntavam toureiros e amantes da tourada e Maria cantava chorando para homens viris assolapados de paixão, triunfadores de cernelhas e pegas.

Francisco aparecera uma noite no Capelão, já depostas as armas por El-Rei D. Miguel que uma canalha jacobina expulsara do país. Uma saída com amigos conduzira-o àquele botequim, a voz uivante que vinha do peito daquela mulher perdida que surgira duma porta estreita marcara-o profundamente. Maria Severa, castigadora, acabou por se envolver com aquele fidalgo elegante e de cabelo encaracolado, sentou-se-lhe à mesa a um sinal do pai, e nunca mais ele deixou de frequentar a tasca, primeiro com amigos boémios, depois privativo aficionado. A Giraldinha, capciosa, tentou furtar-lhe a carteira uma vez mas a Severa deitou-lhe um olhar fulminante, a ele não, e lá teve de se entreter com outros incautos à luz da vela, vidas da Mouraria expropriadas da sorte. À noite, marinheiros  ébrios cantavam nas ruelas escuras e mal frequentadas, exibindo  bonés de oleado e jaquetas de ganga, melena sobre a testa, chorando amor, ciúme, traição, as misérias da vida. Era Lisboa mourisca e triste, onde à noite nos bordéis fidalgos e vadios cantavam, e de dia desafiadoras varinas rodopiavam com canastras de peixe gritando pregões, deixando os homens na estiva e  galegos aguadeiros matando a sede a cansados forasteiros.

Maria Severa conformava-se, nunca seria condessa de Vimioso, para sempre e para o povo apenas rainha da viela. Marujos, estivadores, ardinas, pelo esconso da R. do Capelão muitos haveriam de passar, a mãe orientava com a Giraldinha, ladra e alcoviteira, engendrando contos do vigário a nobres de farta fazenda que depois de canadas de vinho e de sentidos fados ali largavam uns bem vindos réis.

Três anos passaram neste jogo de sombras. Um dia, Vimioso, em caleche, aventurou-se a levá-la a Sintra, a filha do beco triste, abismada, por momentos descobriu aqueles bosques amplos, frescos e límpidos, lavar de vista para quem só o Tejo tinha por horizonte. Uma alegre burricada ao convento jerónimo, queijadas de leite em Ranholas, na tenda que fora da Maria Sapa, por uma vez desfrutava a luz do dia com o seu conde proibido. Na noite em que  regressaram de Sintra, deitou-se suspirando, já a mãe chamava para um caldo de carne  e novo fado no esconso. A doença dava já sinais, o cheiro podre da saliva sobre o carvão quente deixara um bacharel de medicina cliente do Severo apreensivo,recomendara alho marmelo e repolho, e à falta de dinheiro para o sanatório, que dormisse sobre folhas de pinheiro, mas o destino, irmão do fado, estava escrito, nos fins de Novembro já a tosse purulenta e contínua a prostrava na enxerga, moribunda e derrotada.

Os coveiros terminavam, largado na vala o corpo da Severa enrolado em pano crú, o caixão municipal seguia lento e inexorável para novo enterro. Francisco enfiou a cartola e fugiu do cemitério, deambulando pela cidade, a voz  da viela não tornaria a soar, ia chuvoso e triste o Dezembro de 1846.


publicado por Fernando Morais Gomes às 02:28

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