por F. Morais Gomes

12
Mar 11

O tenente Milhazes não sabia o que pensar, chamado a averiguar o roubo dum carro no Chalé Biester na estrada da Pena,uma busca na adega conduzira ao baú com a reluzente peça de ourivesaria, a PJ fora chamada ao local. O inspector Caldeira, da Unidade de Cooperação Internacional pasmava, especialista em furtos de arte reconhecia ali um tesouro raro e precioso:

-Então, inspector, que me diz?- sondou o tenente, curioso.

-Ou me engano muito ou há aqui coisa grossa, tenente- discorria, observando a peça- nada mais nada menos que um dos famosos ovos Fabergé!

O chalé, construído em 1890 por Ernesto Biester, comerciante de origem alemã radicado em Portugal estava há tempos encerrado, o tenente Milhazes apenas recordava a vez em que a GNR fora solicitada para regular o trânsito no local quando Roman Polanski ali rodara cenas de “A nona porta", normalmente os donos estavam fora.

-Os Ovos Fabergé são obras-primas da joalharia, criados para os czares da Rússia. Veja, tem uma combinação de esmalte, metais e pedras preciosas, normalmente escondiam surpresas e miniaturas  oferecidas na Páscoa entre os membros da família imperial. Valem uma fortuna!- o ovo era efectivamente deslumbrante, peça única.

-E como terá vindo aqui parar? Já contactámos o representante do proprietário, desconhecia a existência deste baú, deve ter sido posto ali recentemente.

-Ou guardado à espera de quem o viesse buscar…- discorria o inspector, congeminando pistas prováveis.

Levado para Lisboa, o deslumbrante ovo foi examinado por um perito em ourivesaria. Agatão Prazeres, da Fundação Gulbenkian, chamado a analisar a obra escancarou os olhos à vista da raridade:

-Inspector, tem aqui um tesouro! É efectivamente um Fabergé! E passou a explicar:

-Fabergé e os seus ourives desenharam e construíram o primeiro ovo em 1885 para o czar Alexandre III como presente de Páscoa para a czarina Maria Feodorovna. Por fora parecia um simples ovo de ouro esmaltado, mas ao abri-lo, revelava uma gema de ouro,  possuía uma galinha dentro, que por sua vez continha um pingente de rubi e uma réplica em diamante da coroa imperial, como uma matrioska, está ver...-explicava, entusiasmado, analisando a peça com uma lupa. A czarina ficou tão impressionada que Alexandre passou a encomendar um ovo todos os anos,na condição de ser sempre único e contivesse uma surpresa. Cinquenta ovos imperiais foram produzidos para os czares Alexandre III e Nicolau II e membros da nobreza russa.

-E este é autêntico?

-Puríssimo, veja, prata, ouro, platina, combinados em proporções variadas a fim de produzirem diversas cores. Além de usar uma técnica de esmaltagem plique-à-jour  assim como pedras preciosas. Só existem  cinquenta e sete, mas há oito desaparecidos e desses só há  fotos de dois. Depois da revolução russa a casa Fabergé foi nacionalizada pelos bolcheviques,os palácios saqueados e os tesouros removidos por ordem de Lenine . Estaline mais tarde vendeu vários, no tempo da guerra.Pensa-se que catorze ovos Imperiais deixaram a Rússia nessa altura. Uns terão sido comprados por Armand Hammer, um comunista milionário americano que foi amigo pessoal de Lenine e outros por Emanuel Snowman, um antiquário de Londres, mas não é seguro!.

Contactada a Interpol, e trocadas fotos, efectivamente confirmava-se a falta de oito ovos, este de Sintra porventura um deles, e sem foto. Mas o FBI informava que o ficheiro de Armand Hammer  referenciava a sua passagem por Portugal em 1942,e ficara alojado em Sintra, vigiado pela PIDE portuguesa, a inédita amizade com os russos aconselhava cuidados.

Vasculhado outra vez o baú , Caldeira detectou uma pequena inscrição em cirílico, na base. Contudo como teria  ido o ovo ali parar? O caseiro garantia que um mês antes não estava nada nesse local,só lá iam os homens da imobiliária para mostrar o chalé, à venda há anos. O ovo, entretanto, ficara apreendido, a embaixada russa sabedora do achado arrogava já direitos sobre o espólio mas Gabriela Canavilhas alegava serem precisas averiguações mais profundas.

O inspector matutou vários dias no caso, e chamou o homem da imobiliária ao local, para  informar quem tinham sido os interessados na compra da quinta:

-Vieram uns árabes, que gostaram, mas acharam pequeno, queriam salões maiores, o André Jordan,e…ah! já esquecia, esteve cá o José Mourinho com uns tipos barbudos-  Nuno Duarte , mediador da Relux, agência especializada em casas de gama alta tinha a venda do  Biester a seu cargo -Para aí há um mês. Eram dois, até pediram para meter o carro cá dentro, um Ferrari amarelo, lembro bem.

-E eles estiveram sempre consigo?

-Sim, sim…não, espere, houve um que pediu para usar a casa de banho,demorou um pouco, mas só isso.

-E mostraram interesse pela casa?

-Acharam  muito húmida, disse um deles ao Mourinho, mas disseram que tinham um amigo que gostava muito de Sintra e que viria daí a um mês, tinha negócios cá em Portugal. Aliás, agora que fala lembro que lá na agência marcaram uma visita para a semana, um momento!- pegou no telemóvel e ligou para o escritório - Exacto! Sergei Borosov, vive em Londres habitualmente.

-Fazemos o seguinte: quando ele vier eu venho também, como se fosse da agência, ok?

Nuno encolheu os ombros, que fosse, o negócio dele era outro.

No dia aprazado lá surgiram dois russos,carro de vidros foscos,mini bar lá dentro, Nuno e o inspector mostravam os interiores, obra de Manini, o mesmo da Regaleira. Borosov estava interessado, uma off-shore das ilhas Caimão compraria. O que guiava o carro pediu para ver a adega, Caldeira aguçou os ouvidos.A adega estava vazia e  despejada, os russos entreolhavam-se, perguntando pela garrafeira, um quanto alterados já. O telemóvel de Caldeira tocava entretanto, da central chegavam informações recentes:

-Sim…sim…óptimo!Obrigado, Sandra, hoje pago eu o almoço!

Terminada a chamada segredou a Nuno que fechasse o portão, discretamente, e dirigiu-se aos russos que discutiam na adega:

-Polícia Portuguesa! Estão presos, façam o favor de me acompanhar! - explicou em inglês, arma  sacada do coldre, dissimulado atrás das calças.

Os russos, surpreendidos, olharam um para o outro e ensaiaram uma fuga,um disparo para o ar arrefeceu as intenções, Nuno travara-lhes o carro com o dele, ao fechar o portão:

-Então, inspector, que descobriu?-o agente imobiliário exultava a brincar aos detectives.

-O russo que veio ver a casa com o Mourinho é neto dum agente do KGB, que nos anos quarenta entregou a Armand Hammer o ovo Fabergé que Estaline secretamente lhe vendeu. Por azar, ainda em vida Hammer confidenciou-lhe ter o ovo escondido em Portugal,em local seguro, e identificou o sítio. O tipo que veio com o Mourinho tem dinheiro no Real Madrid e seguiu as indicações do avô, que lera o conteúdo da carta para Estaline, e descobriu o  ovo numa prateleira secreta da adega, no sítio referido na carta de Hammer, mas não teve tempo de o levar na altura em que pediu para usar a casa de banho, originaria suspeitas. Mandou então este amigo fazer a recolha, a título de interessado na compra. do chalé. Daí só ali estar há poucos dias, pronta para levar.

Presos os ladrões, caso encerrado: o ovo foi entregue à Federação Russa, que o entregou ao Hermitage  para exposição, e grata prometeu um generoso donativo para apoio a associações culturais de Sintra,rara ocasião em que se podia contar com o ovo.... 


                                                              

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:30

Mais uma magnífica história, cheia de detalhes reais para lhe darem o devido condimento.
Que imaginação prodigiosa.
Para quando um livro mais completo?
Zé Maria a 13 de Março de 2011 às 11:59

Bom dia Zé, obrigado pelo comentário.Talvez lá para o Outono...

Esta está mesmo muito boa! Vou partilhar.
Daniela Colaço a 27 de Março de 2011 às 11:57

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