por F. Morais Gomes

13
Mar 11

Adelino tivera a ideia, o desafogo no restaurante até permitia. Por ocasião dos seus vinte e cinco anos de casado levaria Margarida num cruzeiro, a Companhia Nacional de Navegação tinha um programa para   Caraíbas e América em Janeiro, estava decidido, as bodas de prata seriam a bordo do Santa Maria. Para ela, a primeira viagem de barco, mandara inclusive fazer vestidos novos, a bordo a vida social era intensa, diziam e teria de mudar de roupa várias vezes por dia.

Malas feitas e vacinas tomadas, lá embarcaram a 9 de Janeiro, o irmão de Adelino tomaria conta do restaurante. Seriam doze dias, já mereciam que diabo, o filho casado e no banco, as coisas a andar bem, havia que gozar a vida um bocado. Cabine interior, no terceiro deck, não se podia ter tudo, endinheirados industriais do norte com esposas pindéricas e toscas pululavam pelo navio. Margarida ao segundo dia foi atacada de enjoos, a  Miquelina do segundo esquerdo bem avisara, fora uma vez às Berlengas e sabia bem o que isso era. De resto, tudo corria a preceito, festas à noite, toilette de gala e a condizer, banhos de sol no convés, a amizade com  os Saraivas de Alcobaça,  no ramo do calçado, apesar da ameaça  inicial o mar até amainou a partir do quarto dia.

A 20 de Janeiro, com mais de uma semana de boa vida, aportaram em La Guaira, Venezuela. Sob um calor tropical e húmido, novos passageiros foram embarcados, Adelino, entretido no bar do convés, não chegou a ir a terra. No corredor do seu deck, um turista dos embarcados, já entrado na idade, chocou contra ele, absorto nos pensamentos, mas nem pediu desculpa e seguiu para o camarote. Um  venezuelano, mal educado, pensou Adelino, já de calções e a caminho da piscina, Margarida e os Saraivas, menos dadas à água, jogavam cartas no salão interior. No dia seguinte, paragem em Curaçao, mais passageiros entraram aí, sobretudo com destino a Miami, o navio era também usado como transporte, um industrial da Trofa já havia manifestado preferência pelo Príncipe Perfeito, paquete mais moderno e elegante.

Na noite de 22, o comandante presidiu ao jantar, traje de gala, orquestra flamejante, o vento quente das Caraíbas bafejava o serão dos passageiros, navegando para Port Everglades, na Florida. Pouco depois da uma da manhã Margarida, com dor de cabeça, recolheu, Adelino ainda ficou a fumar um cigarro no convés absorvendo o vento cálido da noite. Na ponte de comando, contudo, notou que alguém discutia, vozes alteradas, de súbito interrompidas por um tiro. Instintivamente correu para o local, com o vento e a música alta do salão de baile poucos teriam escutado, mas algo se passava. Transposta a porta, vários indivíduos uniformizados apontavam armas ao comandante e um piloto jazia morto no chão, ensanguentado. Um dos homens armados, já velho, aparentemente o chefe, interpelou Adelino apontando-lhe uma arma:

-Não se mexa ou é pior para si!

Adelino reconheceu o tipo que lhe dera um encontrão na véspera, no corredor, agora inesperado assaltante do navio, que o mandou entrar e sentar e explicou-se:

-Não tenha receio! Sou o comandante Henrique Galvão e tomámos conta deste navio para acabar com o regime vigente em Portugal. É para o bem de todos, acreditem,não somos bandidos, nenhum passageiro será molestado!

-E o meu piloto, morto, também não era para ser molestado, comandante? -furibundo, o capitão do Santa Maria, Mário Simões da Maia estava estupefacto com o acto de pirataria num navio de cruzeiro - posso saber quais são os vossos intentos?

-Eu e os meus homens representamos o Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, que visa libertar Portugal e Espanha das ditaduras, o capitão Sottomayor aqui ao lado representa os resistentes do país irmão. Lamentamos profundamente a morte do seu piloto, comandante, foi um acidente!

Sottomayor e mais vinte homens armados, portugueses e espanhóis ,dominavam agora a ponte e a sala das comunicações, no salão ninguém suspeitava do que ocorria em cima .Adelino, atónito, pasmava com este episódio nas suas bodas de prata, via-se num filme de Errol Flynn.

-Comandante - ordenou Galvão – mande alterar a rota e encaminhe o navio na direcção da ilha de Fernando Pó!

Pouco depois, o Santa Maria, sem que os passageiros dormindo o percebessem, guinava para leste, procurando chegar rapidamente a águas do Atlântico. Adelino foi mandado para a cabina, mas excitado acordou os passageiros do deck e rápido espalhou a notícia da captura do navio por piratas. Galvão e os insurrectos entretanto mantinham contactos rádio com o Brasil e a Venezuela, pelo tom da voz o comandante do Santa Maria percebia que nem tudo correria nos conformes. A 23 de Janeiro, o navio aportou em Santa Lúcia e Galvão mandou desembarcar discretamente dois feridos graves, a divulgação do sequestro do paquete  já relatada nos jornais comprometia entretanto a possibilidade de atingir a costa de África sem ser detectado, como pretendido. No dia 25 cruzou-se com um cargueiro dinamarquês que  reportou a sua localização e permitiu a um avião americano  sobrevoar o Santa Maria horas depois, os passageiros exasperavam, receosos pela vida. Em Lisboa, Salazar apontava o dedo a terroristas, Galvão sempre tivera um feitio difícil mas nunca pensou que se atrevesse a tanto.

Adelino, com as férias estragadas, mantinha-se fechado na cabine, onde  Margarida acossada por suores frios e vómitos tremia por todos os lados, maldizendo a hora em que havia saído de Lisboa. O apoio do presidente eleito do Brasil e de Kennedy aos democratas portugueses desaconselhavam uma acção militar, além de que não se podia deixar perigar a vida dos seiscentos passageiros e mais de trezentos tripulantes. Galvão, via rádio, vociferava, Adelino bem o via de longe. Malditos comunistas, pensava, Henrique Galvão até fora homem de confiança de Salazar, director da Emissora Nacional, e agora isto, o homem devia ter enlouquecido..

A bordo do navio, que os assaltantes rebaptizaram de Santa Liberdade, o clima era de cortar à faca. Silenciada a orquestra, canceladas as idas a terra, ali estavam centenas de pessoas prisioneiras de piratas modernos, constava mesmo entre alguns passageiros que queriam matar os reféns e levar o Santa Maria para Angola e dali organizar o ataque ao regime de Salazar.

Discussões entre Galvão e Sottomayor sobre as acções a desencadear e um telefonema do presidente eleito do Brasil, Jânio Quadros conduziram finalmente no dia 2 de Fevereiro de 1961 o Santa Maria ao Recife. Inexplicavelmente, os passageiros depois de horas parados no alto mar, receberam ordem de desembarque, Adelino e Margarida à saída, sem nada saberem do que lhes iria suceder ainda se cruzaram com Henrique Galvão, que os cumprimentou, seco e altivo:

-Meus senhores, desculpem ter-lhes estragado as férias, mas a vida tem imperativos que nem sempre se podem contornar! –saudou com uma continência, o casal assustado nada disse e seguiu, não sabendo para onde, na pressa os chapéus comprados por Margarida para o cruzeiro ficaram esquecidos na cabine.

No Recife, segundo perceberam, Jânio Quadros terá prometido asilo político aos insurrectos em troca da libertação do Santa Maria. Galvão e os demais vinte e três  ficariam  no Brasil, gorada a possibilidade de seguirem para Angola, mas o golpe publicitário contra o regime de Lisboa  criado pela designada Operação Dulcineia surtira efeito, de qualquer forma, todos os jornais falavam de Portugal e desses piratas defensores da democracia, alguns portugueses a bordo até mostraram apoio à causa.

 Os passageiros foram entretanto todos embarcados no Vera Cruz, que saiu do Recife a 5 de Fevereiro, chegando a Lisboa a 14, após escalas em Tenerife, Funchal e Vigo. Adelino , Margarida, os Saraivas e os demais depois de uma aventura inusitada chegavam finalmente a casa e a chão firme, afogueada e já em casa  Margarida jurava à Miquelina que de barco nunca mais, nem a Cacilhas.O Santa Maria, depois de todas as peripécias, largou do Recife a 7 de Fevereiro, chegando embandeirado em arco a Alcântara no dia 16, onde o aguardavam exaltados populares gratos a Salazar pela firmeza com que lidara com os terroristas, que se teriam posto em fuga, como ratos, segundo constava. Via rádio, enaltecendo o feito, Salazar recepcionava o reconquistado barco:-Portugueses! Já temos o Santa Maria connosco! Obrigado, Portugueses!- discursara, providencial.

Adelino, já em casa há dois dias depois daquelas bolandas marítimas , escutava e gesticulava agitado, mostrando aos clientes do restaurante fotos dos assaltantes armados e do barco refém, e francamente, apesar de tudo,até ficara com saudades dos cocktails tropicais no bar do convés. Mas por via das dúvidas, no  passeio seguinte  ficar-se-ia pela Foz do Arelho.      

   

publicado por Fernando Morais Gomes às 21:58

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