por F. Morais Gomes

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Mar 11

Avelino Silva nunca saíra de Montelavar, livre e feliz entre as vacas e as hortaliças do pai, diariamente levadas à Malveira, aquela chamada à tropa ainda mal fizera dezanove anos deixava os velhos pais em aflição, a mãe já acendera uma vela em S. João pelo seu cachopo. Em 1916 Portugal entrara na Grande Guerra, depois de uma recruta apressada em Tancos, mancebo ainda, era chamado ao Corpo Expedicionário, integrando o CAPI, Corpo de Artilharia Pesada Independente, composto por três grupos mistos de baterias de artilharia pesada com canhões ferroviários de 320 mm e peças de 190 mm ou 240 mm.

Em Janeiro de 1917, lá embarcou para França desembarcando em Brest em Fevereiro, em fins de Abril e com mais camaradas chegou às trincheiras, estranhas e frias, até Setembro poucas escaramuças ocorreram. Aquela guerra não entendia, só sabia que como os demais detestava a ração inglesa e os vinte graus negativos do Inverno, que contrastavam muito com a brisa temperada de Montelavar. O tempo foi passando, sempre com o matraquear ao longe da artilharia alemã, os ingleses davam as ordens, nunca pusera os pés nas vilas onde as tropas estacionavam, Avelino matava o tempo esculpindo varinhas de cedro com uma navalha nas longas tardes de vigília. Já com  um ano na linha da frente, nunca tivera um dia de licença ou escrevera à família, analfabeto, em casa a  mãe Anacleta temia pela sua morte, um ataque com gás pimenta seria fatal, agoirava o Zé Bretiando, regedor da freguesia.

Naquele ano de guerra vira já em sua volta tombar muitos camaradas, ao Gervásio Brites, da sua brigada, que morrera ao seu lado, ficara mesmo com um relógio de bolso para entregar ao filho em Santarém, pedira ele à hora da morte, ele próprio ignorando se viveria o suficiente para o entregar. O general Tamagnini pouco deixava transparecer sobre o curso das operações, mas sentia-se que as coisas estavam mal para o lado dos portugueses, Haking, o general inglês mandara tomar novas posições à 2º Divisão do CAPI, onde a brigada do soldado  Avelino se incluía.

Conformado, rude, bigode torcido e pele tostada pelo trabalho no campo, nos poucos momentos de lazer cozinhava para os companheiros, aquela vida até nem o atormentava, desde que chegasse vivo à terra e finalmente assentasse, já catrapiscara a filha do ti Zeferino de Bolembre no baile da Açafora antes de ir para Tancos.

A sua brigada tinha como missão guarnecer três linhas de trincheiras e outra linha de defesa baseada em baluartes estabelecidos em vilas, ao longo de 40 quilómetros, ao norte da posição dos portugueses estava a 40ªDivisão de Infantaria britânica, a Sul a 55ª.

Pelas quatro da manhã daquele 9 de Abril de 1918, estava a brigada de Avelino estacionada junto à ribeira de La Lys, entre Gravelle e Armentières na região belga da Flandres, os alemães desencadearam uma violenta barragem de artilharia com mais de duas horas de duração, do lado português mais de quinze mil homens viram-se subitamente envolvidos em combate, subordinados ao Corpo Britânico, Gomes da Costa comandava as tropas.  Oito divisões do 6º Exército Alemão, com cerca de 55 000 homens comandados pelo general  von Quast de surpresa lançavam a ofensiva "Georgette" visando a tomada de Calais e Boulogne-sur-Mer. Desmoralizados e desorganizados, em apenas quatro horas perderam-se  7500 homens, mais de um terço dos efectivos, entre eles 327 oficiais. Os alemães, também já em desespero, queriam abrir um flanco, o sector dos portugueses era o sítio adequado.Avelino, possesso na sua trincheira e sob fogo cruzado rangia os dentes e fazia fogo com a Lewis, a Luísa, como carinhosamente os soldados chamavam à metralhadora, parecia dia de círio da Senhora do Cabo, as balas assassinas cruzavam os ares, alucinantes e perigosas. A dado momento, a seu lado, o cabo Ramires e três soldados tombaram mortos, o Tomé, polidor em Loures gritava, agarrado ao olho direito, atingido por uma bala perdida, ao fim de uma hora de foguetório só ele restava vivo na trincheira. Sem oficial a mandar, deambulou sozinho por entre as arvores, recolhendo no caminho cunhetes de balas que foi tirando de camaradas mortos, a carnificina era total em redor do campo de batalha. Só pela noite, extenuado e ferido conseguiu reunir-se a alguns camaradas do 8º Batalhão, desmoralizados e sem chefia, o seu comandante fora feito prisioneiro, depois de ter ficado cego duma vista. Arrastando-se, conseguiram chegar pelo seu pé ao hospital de Saint Venant, pejado de moribundos e feridos, e aí, enrolado num cobertor que pronto lhe deram deitou-se no chão, ardendo em febre, um raspão na perna não inspirava cuidados de maior. Ao passar por uma sala de tratamentos, uma voz chamou o seu nome, em português:

-Avelino!

Olhou, espantado, algum camarada da 2º Divisão, por certo. Um jovem franzino, deitado numa maca e com um braço esfacelado esperava por uma operação, o ar sério do médico prenunciava amputação. Era o Sebastião Trina, de Lourel, companheiro de cavalhadas lá na terra, ignorava que também estivesse na Flandres.

-Sebastião. Que te aconteceu, homem!- Avelino , surpreso, apesar de ferido  e a arrastar a perna correu a abraçá-lo, o ar conformado do amigo, jovem e ruço, pinga-amor de Sintra, antevia o maneta estropiado que dali sairia, sorvido por uma guerra que não entendia, perseguido por alemães que não lhe haviam feito mal e a quem mandaram matar enfiado num barranco atrás de sacos de areia. O destino tecia a sua sorte nos campos da Flandres, nas margens da ribeira de La Lys marcara encontro nesse dia

No terreno, a seriedade da situação levou o General Haking a chamar reservistas para ajudar a 3ª Brigada portuguesa a conter a penetração alemã. O 1º Batalhão do King Edward's Horse e o 11º Batalhão de Ciclistas foram enviados à área de Lacouture onde se uniram aos portugueses dos 13º e 15º Batalhões para defender a vila. Lacouture resistiu 26 horas sob intenso ataque alemão, mas por fim caiu às 11:45 h de 10 de Abril tendo os alemães capturado 168 portugueses e 77 britânicos.

 Nesse dia infausto e negro, os portugueses sofreram sete mil e quinhentas baixas, entre oficiais e soldados, 398 tombaram, mais de seis mil foram aprisionados, os alemães, apesar de estarem em perda na drôle de guerre ainda conseguiam abrir uma brecha de cinco  quilómetros de largura na linha aliada.

Desmoralizadas, a 13 de Abril, as 1ª e 2ª Brigadas de Infantaria portuguesas retiraram-se para nova linha de defesa entre Lilliers e Stennberg. O comando britânico enviou elementos das divisões 50(Northumbrian) e 51ª (Highland) para fechar a linha aliada, mas, para os portugueses, aquela  batalha estava praticamente  terminada.

Avelino e Sebastião foram evacuados de barco para Portugal na semana seguinte, Sebastião sem braço, o choro convulsivo da mãe no regresso a casa, para Avelino felizmente só uns arranhões e uma cicatriz para lembrar aqueles quinze meses passados na Flandres. Um mês depois, já recuperado, foi até Santarém. Num casebre junto à vila, uma mulher do campo e um rapazote de calções miravam-no, inquietos com aquele estranho que os visitava. Sem corda, parado no tempo, o relógio do soldado Gervásio, português tombado nas trincheiras, voltava para as mãos dum descorçoado mas orgulhoso órfão, agora sabendo ser filho do herói duma guerra pela qual dera a vida que nunca chegou a viver.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:31

...e desde então Montelavar nunca foi o mesmo...
António Oliveira a 15 de Março de 2011 às 14:06

Textos assim é que deveriam ser dados a ler aos alunos do secundario, por exemplo. é uma boa maneira de aprender Historia. Uma vez mais, parabéns pelo texto.
D. Colaço a 29 de Março de 2011 às 16:24

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