por F. Morais Gomes

16
Mar 11

Acordou com o barulho da chuva, pingos gelados e grossos castigavam-lhe o rosto e o corpo. Apalpou em redor, terra molhada ficou-lhe agarrada aos dedos, um raio iluminou uma carrinha capotada alguns metros à frente, enterrada num matagal. Tentou levantar-se, mas sentia-se trôpego. Foi quando tentou abrir os braços que notou que algo os prendia, umas algemas. Devagar e cautelosamente sentou-se. O martelar da chuva batia inclemente no corpo dorido, respirou fundo a tentar achar forças dentro de si.Com dificuldade, conseguiu levantar-se e caminhar em direcção à carrinha. Ao volante, o condutor, um polícia, pendia de cabeça para baixo, morto, a cabeça rachada. Na parte traseira viu o corpo de um homem estendido no chão. Ficou parado durante algum tempo, pensando no que fazer. Entrou na carrinha, apalpou o polícia morto até encontrar umas chaves, retirou-lhas e livrou-se das algemas. A poucos metros dali tropeçou no corpo de outro homem, deitado de costas, mistura disforme de terra e sangue. Caminhando com dificuldade, a cabeça dorida,  afastou-se da cena do acidente. Ao longe viu luzes, parecia uma casa, foi na direcção dela, a cabeça latejava rasgada e com dores.

Vestindo apenas um roupão rosa, lá dentro, Simone terminava um duche, foi à sala e abriu a janela, a chuva havia parado. Na televisão, o   programa do Malato, no intervalo um noticiário especial foi emitido, um locutor relatava que um perigoso assassino  tinha fugido e estava à solta, o carro celular que o levava do Linhó para Vale de Judeus  sofrera um grave acidente e fora encontrado destroçado num descampado à saída da CREL.”“Foram encontrados os corpos do condutor e de dois polícias à civil. Perto da carrinha também foram encontradas umas chaves e um par de algemas. A polícia acredita que Reinaldo Pires, o foragido, também conhecido pelo “Duas Tesouras” abriu as algemas e evadiu-se. Um grupo de busca, auxiliados por cães foi activado para caçar o fugitivo”, relatava, mostrando imagens do local do acidente. Assustada e sozinha em casa fechou a porta à chave. Quando já ia para o quarto, estancou, a janela estava aberta. Podia jurar que a tinha deixado fechada, mas as cortinas ondulavam com o vento. Foi à janela e fechou-a, pôs o telemóvel no carregador e deitou-se na cama, por cima do edredon, a fazer zapping. Nesse instante, à porta surgiu o ofegante ferido, molhado, envolto em lama e sangue. O grito de medo dela teve o efeito de lhe aumentar a dor de cabeça e o tirar do torpor, avançou subitamente para ela e agarrou-a pela cabeça, tapando-lhe a boca com a mão:

 -Fique calada! Não grite! -ordenou com a voz trémula. - Fique quieta!
Ela ficou paralisada pelo medo, o corpo dele bem próximo do seu. “Ele vai-me matar”, pensou apavorada “ele vai-me matar”, “ele vai-me matar”...- era tudo o que conseguia pensar

-Não grite. Não vou fazer-lhe mal - prometeu.

 -O que quer comigo? – Simone, branca e aterrada, ensaiava umas palavras.

 -Eu... Estou perdido - respondeu com a expressão atordoada,

 -Como conseguiu entrar?

 -A janela estava aberta. Não foi preciso forçar, apenas empurrei. Você sabe quem sou eu?

 - Não. Você veio de onde ?Não ouvi nenhum carro!

 -Vim da estrada, lá em baixo – apontou, para o lado da janela, quase trezentos metros afastado do local do acidente, na curva. -O carro teve um acidente e capotou. Morreram todos menos eu. Acordei no meio dos destroços e vi que estava algemado. Sinceramente, não sei porque estava lá...

Ele não sabia quem era! Uma onda de compaixão e instinto de piedade apossou-se de Simone, já mais calma, e olhando as feridas expostas:

 -Você está muito mal, tem de ir a um médico.

-Não posso, sou um foragido, eu estava algemado, não percebe?

Coisa inexplicável, ela de repente já não sentia medo, ele não lhe parecia agora bom nem mau, apenas uma pessoa desorientada, nem sequer estava armado.

Na televisão, a voz grave de José Rodrigues dos Santos voltou a emergir: “ Um assassino continua à solta na zona de Sintra, depois de se ter evadido do carro celular que o transportava e que capotou”,as informações  novamente repetidas, ele ficou estarrecido a olhar a televisão, no local imagens eram agora captadas.

 -Então é isso. Sou um assassino! - ficou em pânico, sabia que estava preso, mas não lembrava o motivo - Quem foi que eu matei?

Ela olhou-o intrigada, seria possível que não se lembrasse de nada? Um sequestro, seguido de violação e morte, todos os telejornais falaram no caso  antes, uma moça de 23 anos em Cascais,  tinha cadastro.

 -Vamos, responda! Quem foi que eu matei? - insistiu ele.

 -Eu... eu... não sei.

 -Eu preciso saber a verdade, não percebe? Eu preciso de me lembrar! Por que tem medo de mim?

Deu meia volta, foi para o quarto, depois para a cozinha, ela ficou a observá-lo a andar de um lado para outro, a enorme ferida na cabeça metia cuidados. De repente ele veio na sua direcção e agarrou-a pelos ombros:

- Vá para o quarto e vista-se! Rápido!

Simone foi e retornou pouco depois, rosto pálido, ele meio empurrando meio puxando, conduziu-a à garagem e sentou-se no banco do carro dela:

-Guie! Vamos para  a esquadra!

 -Mas você é um foragido. Assim que puser lá os pés vai ser preso!

 -Não sei nem quem sou! Não tenho como fugir. Aliás, nem sei como me poderão julgar se não me lembro de nada. A minha mente é uma folha em branco!

Na esquadra, noite calma, a chuva parara já, o agente Dionísio estava acomodado na cadeira folheando uns papéis e vendo os Simpsons na tv, os seus favoritos, a noite era calma, com a chuva pouco movimento houvera, só o trágico acidente na CREL, o Corpo de Intervenção já estava no terreno, passara a pasta aos colegas.

- Boa noite! Vim entregar-me! -disse com dificuldade.  A polícia não está atrás de um assassino que fugiu dum carro celular? Sou eu!

 O agente Dionísio olhou os dois e de repente levantou-se, boquiaberto:

-Gonçalves! O que se passou contigo, homem? Estás vivo!

Ele e Simone pasmavam, tinha nome e pelos vistos era conhecido, e não parecia que fosse por crimes.

-Você sabe quem eu sou?

-Então o que se passa amigo? Ias no carro celular com o Freitas  levar o Duas Tesouras para Vale de Judeus, estávamos preocupados, o teu puto está em polvorosa, já te fazia morto!

-Quer dizer que ele é  da polícia? - pasmou Simone - então e o criminoso foragido? Ele não se lembra de quem é, a pancada deve ter sido forte, foi ter a minha casa e acha-se o criminoso, a televisão….

-Nada disso, deve ser amnésia temporária - esclareceu o agente Dionísio. O Reinaldo efectivamente tentou fugir depois do acidente, tirou as algemas dele e colocou-as pelos vistos em ti. Mas como também ficou bastante ferido, não andou mais que uns metros e morreu. Ele e os nossos colegas, o Freitas, coitado, também…

-Mas a televisão…

-Efectivamente na primeira impressão deu a ideia que ele teria fugido, por isso se deu o alerta, mas as impressões digitais confirmaram ser ele o morto a metros da carrinha. Já mandámos um desmentido para as televisões. Agora eras tu a nossa preocupação, companheiro! - Dionísio agarrava o colega, meio emocionado, com a dor gemeu um pouco ao toque no ombro.

  -Por favor, senhor agente, ele precisa de tratamento urgente! - interrompeu Simone  preocupada.

 José Gonçalves começou a perder os sentidos, o rosto de Simone  iluminando o recinto foi a última coisa que viu antes de desmaiar. E foi a primeira imagem que viu a seu lado quando acordou no hospital dois dias depois. Viúvo recente, o filho de 10 anos e uma promissora Simone guardavam agora a sua cabeceira.


publicado por Fernando Morais Gomes às 15:01

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