por F. Morais Gomes

17
Mar 11

Fora em 1537 e com vinte e seis anos que Fernão Mendes se lançara numa longa e atribulada peregrinação por terras e mares do extremo Oriente, umas vezes mercador, outras pirata, sempre vagabundo ou pedindo pelos caminhos, escravo por vezes também. Naquele Maio de 1543, vindo de Malaca e  passada Quangeparu(*1), cidade de quinze mil vizinhos na costa da China, quase sempre  assaltada por juncos malaios, Fernão e  outros  portugueses a bordo dum navio em mau estado, cruzaram-se com dois juncos de Samipochaca, corsário chinês que fugiam dos homens do aitau de Chinchéu(*2), estes já lhe  haviam destruído outros vinte e seis barcos. Entabuladas conversas, logo  se passaram para o junco do corsário, assim navegando na costa do Lamau durante  23 dias, quase todos com temporais de vento esgarrão, até que uma tarde se lhes deparou aquela  ilha enevoada e desconhecida. Terras de Japão, dizia  Samipochaca, conhecedor dos mares.

Lá chegados os  dois juncos com os chins (*3)e  oito portugueses, veio-lhes ao caminho uma barca na qual se transportava o nautoquim de Tanimuxá(*4), assim se chamava a ilha, a ver quem eram e a exigir o pagamento de direitos de entrada. Noutra barca, homens  em vestes estranhas traziam frutas e refrescos, amáveis e calorosos,protegidos por chapéus de sol . Fernão, já conhecedor de muitas  e exóticas partidas observava curioso o diálogo entre o  corsário chinês e o japonês, de nome Hyascarão Goxo, uma mulher  de origem léquia traduzia. Uma angra de água doce para acostar o junco e retemperar forças por uns dias, era tudo o que pedia Samipochaca. Os esquisitos  portugueses a bordo causaram estranheza ao dignitário ,pelos narizes compridos e feições esguias, perguntando  por quem eram, daquelas paragens não pareciam. -São Chenchicoguis(*5), de Malaca, o seu junco perdeu-se com o mau tempo,venerável senhor!-esclareceu Samipochaca. O japonês mostrou-se surpreendido, querendo saber mais:

-Sois pois gentes desse Império poderoso cujas naus voam por cima das águas? Dizem ser  governado por um rei  com mais de duas mil casas cobertas de ouro, é verdade o que me narraram?- questionou, embasbacado.

Fernão Mendes, desejoso de causar boa impressão e com isso tirar proveito acenou que sim, em tudo exagerando a grandeza do rei de Portugal, senhor de riquezas indescritíveis, dono do grande Mar Oceano.

Impressionado e feitas as cortesias, mandou distribuir a todos paraus com  frutas e alimentos ao  que  Samipochaca, necodá do junco mandou também ofertar fazendas várias, pedindo para se deter doze dias para descanso e abastecimento de víveres, o que foi  gentilmente concedido.

Durante esse tempo despendido em Tanimuxá, Fernão Mendes Pinto e companheiros,sem nada para trocar, entretinham  o tempo conhecendo as paragens,caçando e escrevendo notas sobre a cultura daquelas desvairadas terras com ricos pagodes onde idosos bonzos aconselhavam os nativos na sua religião pagã .Desde Marco Pólo que se sabia da existência daquela Cipango, aparecia nas cartas como uma grande ilha defronte da China, havia sido representada por Fra Mauro em 1448 e em vão Colombo a procurara já ,porém ,não constava que português algum ali houvesse antes feito comércio ou erguido feitoria.

Diogo Zeimoto, amigo de Fernão, possuía uma espingarda com que se entretinha a caçar, certo dia acompanhado de chins porfiou mesmo apanhar mais de 26 galinhas, com que chegaram a Miaygimá, a principal cidade da ilha. O barulho tonitruante daquela inesperada pólvora seca  admirou os locais, o nautoquim surpreso e assustado logo chamou por ele, que lhe  mostrou e explicou o mecanismo da arma,desconhecida naquelas paragens. Satisfeito como uma criança, o nautoquim instruído por Diogo e Fernão ,meio receoso disparou, experimentando, logo apanhando uma perdiz, os bonzos pasmavam. Eufórico com o feito , logo ofereceu mil taéis de prata para ficar com ela e para o ensinarem a usá-la e preparar a pólvora.

Alguns dias passados, chegou à ilha uma nau trazendo um mensageiro do rei de Bungo,(*6) tio do nautoquim, que sabedor da presença dos chenchicogins os queria conhecer e saber coisas do seu poderoso reino. Solícitos, Fernão e os demais concordaram em ir, embarcando dias depois num funce com um tal Fingeindono e atravessando a angra de Hiamangó e Tanorá de modo  a chegar com bonança à fortaleza do rei de Bungo.

Duas noites de viagem calma eram decorridas já quando a terra estremeceu como arbusto seco sacudido pelo vento e bátegas de água com mais de três metros invadiram o convés, fazendo temer o pior. Fernão Mendes entreolhou Diogo Zeimoto, nunca tal abanão havia sentido, nem mesmo nas mais agitadas viagens  em mares da Taprobana(*7), o dignitário de Bungo, habituado, manteve-se impávido, as tremuras de terra eram frequentes naquelas ilhas, bem como fortes e grandiosas  as vagas. Assim era Cipango, os sábios bonzos nos pagodes tratariam de acalmar as divindades,mais vezes nesses quadrantes sentiriam os lusos a terra a sumir debaixo dos pés mas a serenidade dos locais acabaria por os  habituar, sempre sorrindo, guerreiros mas dóceis e sábios.

1-Kuang-Yen, China  2-Zhanzhou, China  3-chineses  4-Tanegashima, Japão  5-portugueses  6-Oita, Japão  7-Sri Lanka


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:55

Prémio Literário Orlando Gonçalves 2011 - Modalidade de ficção narrativa - C. M. Amadora
O prémio, de cerca de 5 mil euros será entregue em cerimónia pública, no dia 13 de Outubro, sendo que os trabalhos derão ser entregues até ao próximo dia 26 de Junho.

Anónimo a 17 de Março de 2011 às 15:35

Continua assim Fernando das mais a conhecer que um professor de historia :p
Anónimo a 17 de Março de 2011 às 15:42

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