por F. Morais Gomes

18
Mar 11

Grande negócio, comentara Guedes do Amaral com o Gregório das queijadas, a sua produção de conservas fora toda comprada por uns industriais de Lisboa, dinheiro vivo e na hora, coisa rara. As coisas em Sintra em 1925 corriam tranquilas, Guedes do Amaral podia agora expandir o negócio em Albarraque, duns toscos pavilhões agrícolas fizera uma unidade industrial de vulto, setenta operárias, a somar ao contrato de fornecimento para o Brasil podia tranquilamente lançar-se em novos negócios, os terrenos do Antunes dos Santos na Portela estavam debaixo de olho. Alfredo Pinto, director do “Semana de Sintra” juntava-se agora ao grupo na mesa da Piriquita, vindo da Estefânea.

-Então quer dizer que é coisa que se veja? -sondava o Júlio Amaro, o dono da pastelaria, servindo uma ginjinha com elas, os travesseiros viriam a seguir, quentinhos.

-Foi um achado, amigo Júlio. Recebi um estafeta lá no escritório, da parte duns engenheiros de Lisboa, queriam uma reunião comigo. Estranhei, nunca ouvi falar neles, mas negócio é negócio e lá fui, olhe aquele palacete do Menino de Ouro, em Lisboa, está a ver? Foi aí a reunião!

-Mas quem são os tipos afinal? -sondava o Gregório, até poderia ter interesse para ele.

-Um estrangeiro que estava lá recebeu-me em nome do grupo dos tais capitalistas, olhe, até tenho aqui um cartão - foi contando, puxando dum cartão de visita - Marang…. Karel Marang, é isso, holandês, parece.

-Quer dizer que está em maré de sorte, amigo Guedes - Alfredo Pinto passava os olhos pelo “Século”, o governo do António Maria da Silva estava em apuros, o costume, outro governo se adivinhava no horizonte.

-Pois o tal Marang fez uma encomenda grande, e até propôs a compra da fábrica, acho que representa um grupo estrangeiro interessado em investir cá, já adquiriram várias propriedades e parece que grande parte dos táxis de Lisboa lhes pertence. E pagou à cabeça, tudo em notas de quinhentos escudos! - Guedes sorria por dentro, não revelava quanto, mas  quarenta contos a pronto numa mala já lá cantavam, tudo em notas vivas de quinhentos escudos, até lhe iam saltando os olhos ao ver tanto dinheiro, felizmente estava guardado no sótão da casa, na R. da Pendôa.

-E foi muito…? -Alfredo tentava saber mais do agiota, este porém não se descosia:

-Para um almocinho há-de dar, amigo Pinto! Comidos os travesseiros, foram à sua vida, ia almoçar com o José Antunes dos Santos no Hotel Nunes, um naco de vitela como só o Saraiva sabia cozinhar.

Alfredo Pinto entretanto seguiu para Lisboa, o jornal em Sintra estava com pouca saída e uns tipos do “Diário de Notícias” haviam prometido arranjar investidores, o almoço seria no Grémio, pagava o Sousa Lopes, da redacção. Atrasado, chegou de táxi, com a edição da manhã debaixo do braço, tinha reportagem para a tarde:

-Desculpa o atraso, Alfredo, mas nem queiras saber, está uma bronca das grossas para rebentar! -disparou, ainda mal tirara a gabardine, que um criado do Grémio Literário segurou, fleumático

-Então? O Bernardino Machado já despachou o António Maria da Silva?

-Não, nada de política. Pior ainda. Já ouviste falar num tal Alves dos Reis?

-Não, nunca, tem coisas lá para Sintra?

-Esse tipo andou a comprar acções do Banco de Portugal, mais de dez mil, parece, com 45 mil acções já lhe daria para controlar o banco. Nunca ouviste falar dum banco que apareceu aí em Junho, o Angola e Metrópole? Pois ele é um dos donos. É um vivaço que ganhou dinheiro em Angola, até já tentou comprar o Diário de Notícias! - o Lopes pedia o vinho, a história prometia não ficar por ali - Consta que a mulher está carregada de jóias que ele lhe comprou em Paris, uma fortuna repentina feita em África…

-Sim, mas o que é que isso tem de anormal? –Pinto pensava ser mais de política o assunto, o novo hospital de Sintra, que não andava preocupava-o mais.

-Pois parece que está metido numa tramóia e das grandes! Descobriu-se   que esse tal Alves dos Reis arranjou um contrato fictício reconhecido no notário e falsificou as assinaturas dos administradores do Banco de Portugal. Com uns cúmplices estrangeiros dirigiu-se à Waterlow & Sons Limited, a casa impressora do Banco de Portugal, que na posse dum documento de encomenda falsificado lhe imprimiu 200 mil notas com o valor nominal de 500 escudos, aquelas com a efígie do Vasco da Gama,sabes, uma coisa do camano, é preciso ter lata!

-Então mas o que é que ele fez ao dinheiro?

-Parece que anda por aí em circulação desde Fevereiro, dizem até que terá sido com ele que abriu o banco. Olha tenho aqui o nome dos cúmplices dele na tramóia: um José Bandeira, irmão do nosso embaixador na Holanda, um alemão, Adolph Hennies , Karel Marang, holandês….

-Espera aí! - atalhou o Pinto - Karel quê?

-Marang. Porquê, conheces? - Sousa Lopes parecia surpreso por o Pinto reconhecer o nome.

A conversa da manhã na Piriquita e a história da mala com notas de quinhentos do Guedes surgiu-lhe de repente, agora interessadíssimo em escutar o resto:

-Não, não, continua… Lopes já pedindo café rematava a história:

-Aliás, como era possível o Banco de Angola e Metrópole conceder empréstimos a taxas de juro baixas, sem precisar de receber depósitos? Chegou-se a pensar que era uma táctica dos alemães para obterem vantagens em Angola. Parece que o nosso colega Vasconcelos, do “Século” descobriu uma nota falsificada e com o mesmo número de série na delegação do banco no Porto, e consta que há mais, é em grande escala a operação, estás a ver, se andarem por aí as duzentas mil!

A edição de 7 de Dezembro prometia. Um telefonema para Lopes interrompia o almoço, aliás quase concluído, a conversa sobre os patrocinadores para o jornal ficara adiada:

-Tenho de ir, é da redacção! Parece que prenderam o Alves dos Reis a bordo do "Adolph Woerman"! -Chapéu e gabardina e o Lopes voava para o Governo Civil, onde o detido aguardava, era perto, o “furo” estava garantido.

De volta a Sintra, Alfredo Pinto ainda incrédulo com o desplante dos burlões procurou Guedes do Amaral em casa, pondo-o ao corrente dos acontecimentos, poderia ter caído num conto do vigário. Apavorado, este correu para o sótão da casa e verificou as notas que Marang lhe dera dentro duma mala cartonada, o negócio chorudo ficava agora em causa, quarenta belos contos. Raciocinando rápido, chamou um carro de praça correu ao encontro de Antunes dos Santos e propôs-lhe a compra a pronto de todos os terrenos na Portela de Sintra que este possuía, quarenta contos, pegar ou largar, estava bem disposto. Surpreso, o outro hesitou, mas à vista das notas de quinhentos aceitou por impulso, Guedes do Amaral, expectante, suspirou de alívio, não se perdera tudo.

Pela tarde de 6 de Dezembro o Banco de Portugal ordenou a retirada de circulação de todas as notas de 500 escudos e no dia seguinte “O Século” fazia manchete com a burla monumental. Alfredo Pinto, sorridente e com o jornal debaixo do braço, depois dum café na Piriquita foi visitar o Guedes do Amaral na R. da Pendôa, a preciosa informação valeria bem um generoso patrocínio para o “ Semana de Sintra”…


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:29

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