por F. Morais Gomes

21
Mar 11

O inspector Lacerda chegou à cena do crime pouco tempo depois de o Meireles da brigada de homicídios ter ligado para ele, ainda terminava a meia de leite no café do Jacinto.

-Vem para Colares, depressa, um tipo foi encontrado morto, assassínio!

Aquele crime iria dar muito que falar, antevia. No local, uma moradia no Banzão, em cima da cama, estava morto e seminu um homem moreno, cerca de trinta anos, sangue escorrendo da testa para cima de um lençol branco, um tiro de pistola na nuca, parecia, à primeira impressão

-Há algum relatório?

-Dra Helena! -gritou o Meireles – traga a papelada para o inspector, por favor!

Uma jovem médica legista trouxe um relatório preliminar e entregou-o ao polícia que se deteve um pouco apreciando os olhos verdes da jovem, ainda estagiária, nunca a vira lá na sede.

-Filipe Rabaçal . –Lacerda  parou um minuto e olhou para Meireles – não  é aquele antigo futebolista que  agora escrevia para o “Record”? – refrescando a memória lembrava agora a figura do falecido, fazia comentários por vezes para a Sport TV - Não foi ele que andou aí nos jornais por causa de um divórcio  complicado?

-Foi sim, era casado com uma top model, uma Sofia …. –Meireles tentava juntar os dados disponíveis.

-Sofia Leão Bandeira –adiantou Helena, bem informada –ainda recentemente desfilou na Moda Lisboa.

Os policias olharam para a médica legista, admirados, ela foi  explicando:

-Eles eram casados já há algum tempo, mas andavam meio brigados, ela ameaçava dar uma entrevista onde ia revelar que ele era homossexual e lavar um pouco a roupa suja, sabe como são estes meios…

Lacerda ficou olhando para a médica, alem de vistosa era observadora:

-Meireles manda sair toda a gente quero ver bem a cena do crime, com certeza que deixaram passar alguma coisa. Isto é, se não tiverem estragado tudo já!

A sós com o defunto, puxou dum cigarro e ficou mirando aquela cena macabra, ajuste de contas por certo, por momentos fitou o morto, já esbranquiçado falando com ele:

-Tinhas tudo e limparam-te o sebo, não é? Quem será que te matou, grande safardana?

Lacerda calçou umas luvas de plástico, o olho clínico fixou-se na busca de uma pista que ajudasse a fazer luz. No quarto, com vista para a serra, havia uma cama redonda, um guarda fato em teka e um plasma gigante na parede, um computador portátil fechado estava em cima duma escrivaninha. Abriu-o, um ficheiro continha inacabado um texto intitulado “ Toda a verdade sobre o futebol português”, seguido de apreciações sobre a corrupção e estratagemas nos clubes e jogos de poder nos bastidores, nada que não se suspeitasse, pensou. No chão, um porta-chaves, com umas iniciais.

-Isto está fácil demais!- comentou, mirando, era em pele e tinha umas iniciais SLB-

-Sofia Leão Bandeira! Claro, é óbvio! -pensou, apertando as chaves na mão – Meireles! -chamou, para a sala ao lado - arranja um mandato. Vamos prender a mulher do gajo para averiguações! No chão, vestígios de cigarro, a criminosa ainda tivera tempo para fumar. Helena, também chamada recolheu o porta-chaves e as cinzas da beata em sacos de plástico. Antes de sair, ele ainda se meteu à graça:

-Olhe, eu…sabe… Já viu o”O Discurso do Rei”? Se não tiver muito que fazer logo…. Podíamos discutir o caso depois….

-Tudo bem, inspector –sorrindo, Helena anuiu, o inspector Lacerda era divorciado, as semelhanças com o George Clooney já tinham chamado a atenção para ele lá na PJ.

Um homem esbaforido entrou na sala naquele momento, fato de marca mas em desalinho, a gravata à banda. Lacerda e Helena estranharam:

-Ei amigo, o que é que você está a fazer aqui? -ralhou Lacerda. -Isto é a cena de um crime. Quem o deixou entrar?

-Desculpem, sou o Eduardo Sepúlveda, era muito amigo do Filipe, meu Deus, que coisa horrível!

-Você não é jornalista desportivo? –observou Meireles, já o vira a relatar um Sporting-Benfica para a Sport TV.

-Sou sim, eu e o Filipe estávamos a escrever uma biografia do Figo juntos, mas agora infelizmente…Que tragédia!

-Qual é mesmo o seu nome? –questionou Lacerda.

-Eduardo Sepúlveda. Escrevo para o “Record” e também colaboro com a Sport TV- nervoso, puxou dum cigarro, oferecendo antes. Lacerda primeiro recusou, mas depois mudou de ideias:

-Na verdade quero, sim -disse esticando a mão.

Ele sacou do maço e deu-lhe um cigarro, acendendo-o com um isqueiro amarelo. O inspector discretamente examinou-o e reparou que a marca  era diferente da beata que tinha achado no chão, o jornalista  deveria ser chique, andava bem vestido, embora demonstrasse um certo desleixo.

Naquela noite, Lacerda e Helena foram ao cinema e depois jantaram no Cascaishopping. Helena quis saber coisas acerca de Lacerda.

-Então e nas horas vagas? Que costuma fazer?

-Trata-me por tu -criava clima, o polícia - Bem eu gosto de futebol,    torço pelo Sporting, também pratico karatê. E tu?

-Eu gosto muito de ler e viajar, ah, mas sou do Benfica…

-Ninguém é perfeito! –sorriu, complacente — Sabes, aquele crime, ainda não me saiu da cabeça.

- Sim, mas as iniciais SLB, são uma prova forte, não?

-Não sei, SLB pode querer dizer muitas coisas. Sport Lisboa e Benfica, por exemplo…ele não era jornalista desportivo?

Lacerda arriscou segurar-lhe a mão e foi correspondido. Saíram da zona dos restaurantes de mãos dadas e passearam no primeiro piso. Depois, foram sentar-se em frente a uma loja, conversando. Quando Lacerda levantou a cabeça viu que estava em frente da Bertrand, no escaparate um livro acabado de editar, de Eduardo Sepúlveda, a “História do Futebol Português” .Levantou-se, curioso e foi ver de perto, folheando-o, capa simples, branca, com o nome dele a preto.

-Este não é aquele amigo do Rabaçal que apareceu no Banzão hoje de manhã? Raciocinando rápido, Lacerda comentou com a legista:

-Acho que prendemos a pessoa errada! – comentou, enquanto sacava o telemóvel- Meireles, arranja-me  um mandato e prende o Eduardo Sepúlveda para interrogatório!

Na manhã seguinte, na Judiciária, Lacerda apertava com o jornalista:

-Por que matou o Filipe Rabaçal? Confesse e será melhor para si, por quê?

-Como podem provar que fui eu?- Sepúlveda suava em bica, nervoso.

-Você descobriu que o Filipe andava a escrever um livro que questionava tudo o que você escreveu sobre o futebol português. E o novo livro dele fala em si e de que maneira! -exibindo uma pen, Lacerda sacara o texto incompleto do novo livro, onde conluios eram revelados questionando directamente a participação de Sepúlveda na compra de resultados desportivos. O livro sobre Luís Figo nunca existira, o próprio Figo atestara-lhe pelo telefone minutos antes que conhecia os dois, mas que até se andavam a dar mal ultimamente.

-Isso é tudo circunstancial! Quero um advogado! Chamem o João Nabais!

-Ainda não terminei, senhor Sepúlveda. Está a ver este porta chaves?- Lacerda sacou da prova recolhida no quarto no dia anterior - Aqui em números muito pequenos tem um número de telemóvel. Acho que é o seu, correcto?

Sepúlveda empalideceu, mais tarde em verificação directa uma das chaves era a do seu carro, daí o ter chegado à casa de Filipe de fato mas desarranjado, depois de ter disparado sobre ele andara pelo pinhal à procura das chaves desaparecidas, no retorno ao local do crime à busca delas deu já com a polícia em acção, alertada por uma vizinha que ouvira o tiro, havia que fingir surpresa.

No domingo seguinte, Helena e Lacerda voltaram ao cinema, passando pela Bertrand os escaparates publicitavam agora uma nova biografia não autorizada de Jorge Nuno Pinto da Costa, prometia revelações escabrosas. Ou se enganava muito ou teria mais trabalho pela frente, daí em diante….


publicado por Fernando Morais Gomes às 07:11

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