por F. Morais Gomes

23
Mar 11

Portugal, 1891. Uma única estrada decente unia Lisboa ao Porto, a maioria da população era analfabeta, a dívida absorvia 75 % do PIB. Os juros levavam metade das receitas e a economia sofria deflações contínuas para recuperar o equilíbrio. Subiam as taxas de juro e apertava-se as contas públicas. Tudo como de costume no Portugal do rotativismo, dançando entre Hintze Ribeiro e Luciano de Castro num patético vira do Minho, que nem os manguitos do Bordalo conseguiam evitar.

O Baring Brothers, banco inglês que colocava a divida pública de vários  países nos mercados francês e inglês abanou com a insolvência da Argentina e do Uruguai que gerou o pânico internacional e os mercados fecharam-se. Em Portugal, a solução foi mais uma vez a austeridade. Tornaram-se patentes as más aplicações da banca, o governo, pressionado, viu-se obrigado a negociar uma receita extraordinária ao conceder o monopólio dos tabacos ao conde de Burnay, por três milhões de libras.

Corria o mês de Outubro. D. Carlos caçava em Vila Viçosa, alheado ao vexame que o governo do primo Eddie lhe impusera com o humilhante mapa cor-de-rosa, os republicanos repelidos no Porto a 31 de Janeiro conspiravam em cafés e nos centros cívicos, o Governo de João Crisóstomo debatia-se com a dívida e os adiantamentos à casa real.

Em Sintra, pintada de castanhos outonais, alheia a Lisboa engalfinhada e claustrofóbica, Henry Burnay, recente conde pela mão de D. Luís e agora magnata dos tabacos, visitava o amigo Santos e Viana, a sua fortuna dera uma folga financeira ao governo regenerador. A viagem   de carruagem desde as Laranjeiras, onde cedera terrenos para o novo Jardim Zoológico fora tranquila e solarenga, no final  aproveitaria para uma  visita de cortesia à condessa d’Edla na casa do Regalo, a pobre viúva acusava alguma solidão depois da morte de D. Fernando, encerrada no chalé de cortiça.

A  casa Henry Burnay & C.ª  não descurava qualquer boa oportunidade de negócio, a partir dela Henry Burnay tornara-se uma figura  sempre presente nos empreendimentos económicos e financeiros nacionais, mais de um milhão e quatrocentos mil réis só em dinheiro. Metalurgia,  lanifícios, papel, vidros, sabão, o mercado colonial, as exportações,nenhum grande negócio se fazia sem que Burnay tivesse uma palavra a dizer. O recente negócio dos tabacos era puxado por Santos e Viana, um charuto na biblioteca de S. Pedro desenleava a conversa:

-Você, Henry, sempre me saiu melhor que a encomenda! Então lá conseguiu que o João Crisóstomo lhe viesse comer à mão!..

-É como lhe digo, Anselmo, estes tipos por dinheiro até a mãe vendiam. Eu limito-me a aproveitar as oportunidades! - Burnay, tycoon da finança, desfrutava, a vista sobre a Pena enevoada era sublime, pena o governo a ter comprado à condessa d’Edla, chegara tarde para o negócio.

-Então este ano não foi até à Granja? -Burnay veraneava em Gaia, mas esse ano por causa do negócio do tabaco ficara-se por Lisboa.

-Não, não deu. Sabe que tive de arranjar trinta e seis mil contos para adiantar ao Ministério da Fazenda? O João Crisóstomo estava em pânico: ou isso ou a bancarrota! Este país não tem tino nenhum! Ainda lhe sugeri que aligeirasse a contribuição predial e industrial, assim não arranjam amigos em lado nenhum…

-Você é que devia estar no Governo, Henry! Só quem sabe o que custa o dinheiro é que sabe como o administrar!- Santos e Viana, também banqueiro, bem sabia o que haviam despendido para abrir o banco, ministros a sacarem benesses, criando dificuldades e mendigando lugares na administração do Burnay, Santos e Viana.

-E parece que mesmo assim não chega! O Baring está com dificuldades em emprestar, parece que tem de se apresentar uma garantia em ouro! Ainda há dias disse ao Oliveira Martins que suspender a conversão das notas nos bancos por 90 dias era errado, criava pânico nas pessoas, mas há uns iluminados lá que o aconselham. Mal, como sempre! O que está a aguentar isto é a pauta aduaneira!  E nós, claro… Bom,meu caro, tenho de ir, fiquei de passar a visitar a condessa, o José Luciano ficou-lhe com a propriedade mas deram-lhe um monte de papéis do tesouro sem valor nenhum, parece que está de aflitos. É uma jóia de pessoa, coitada!

-Então não fica para almoçar? Tenho aí um Colares…

-Não,não, obrigado. Fica para depois. A ver se falamos da compra da vidreira, na Marinha Grande, passe lá nas Laranjeiras…

Apressado, saiu, mandando seguir para a Pena, a condessa d’Edla, víuva recente, passava problemas de tesouraria, uma livrança de dez mil réis estava já preparada para a ajudar, embora poupada a boa senhora tinha de acorrer às despesas nas várias casas de que ficara herdeira, D. Fernando deixara-lhe bens mas pouco dinheiro em moeda.

Passados uns dias, apesar do empréstimo, o Governo pela mão de Oliveira Martins, ministro da Fazenda declarou a bancarrota parcial. O país saiu do padrão-ouro, reescalonou a dívida externa e passou a financiar-se através de recursos internos pela emissão de moeda e só em 1902 se deu a situação como controlada. O país definhava, Henry Burnay, cavalheiro da indústria, apesar de tudo enriquecia. O segredo está em agarrar as oportunidades, pensava, enquanto a carruagem deslizava pela Volta do Duche.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:03

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