por F. Morais Gomes

25
Mar 11

Alberto acordava invariavelmente aos primeiros raios da manhã, o seu despertador era o noticiário da televisão e o ruído do motor da camioneta do lixo lá fora. Levantou-se atirando o lençol como querendo livrar-se dele, ergueu-se de um salto e precipitou-se para a casa de banho. A água do duche jorrada em cima do rosto enrugado e envelhecido era revigorante,bebera uns copos na véspera. Ajeitou os cabelos brancos e mal cuidados e foi aquecer um café. Tinha de se despachar, logo o Nicolau passaria a apanhá-lo para mais uma viagem até Bordéus, três dias conduzindo o TIR com mercadoria, todas as semanas queimando quilómetros Europa fora há mais de vinte e cinco anos. Desta feita uma entrega de moldes industriais, um dia até Barcelona, o retorno na 6 feira a tempo do snooker com o pessoal da Abrunheira.

Fantasmas do passado povoavam a sua mente atormentada, dividida entre o vaivém com o camião e o álcool. Leonor nunca gostara daquela vida, diversas vezes propusera que fossem em busca de vida nova e mais estável, ele só ao volante se sentia solto, estrada fora, alguns colegas habituais nos vários restaurantes de beira de estrada já familiares de anos de transitário. Um dia frio de Inverno partiu, um inverno frio e chuvoso que parecia não ter fim, só com o filho de quatro anos, partiu enquanto ele viajava para a Alemanha a fazer mais uma entrega. Alberto nem se despediu do filho, Pedro, apenas encontrou a casa vazia quando voltou, um bilhete seco acusava o cansaço de viúva de vivo capturada numa vida de solidão e rotina.

Vinte anos passaram, nesse tempo não viu o filho mais que três vezes. A primeira foi ao fim de doze anos, o Casimiro fora visitar uma filha que morava em Almada, voltou dizendo que vira uma mulher muito parecida com Leonor, Alberto foi-lhe no encalço, só pensava em reencontrar o filho. O reencontro foi péssimo, uma discussão horrível, de ressentimento, ela reorganizara a vida com um agente de seguros, Pedro chegou no momento mais delicado, com os ânimos acirrados entre os dois. Entrou e instintivamente, vendo a gritaria,empurrou o pai, que caiu sobre uma cadeira. Alberto demorou alguns segundos a levantar-se, quando o fez, saiu da casa sem olhar para a ex-mulher e o filho, humilhado, os olhos marejados de lágrimas, logo afogadas em bagaços na tasca do Silvino. As outras duas vezes em que viu o filho, foi disfarçado e de longe. Uma no dia da sua licenciatura em gestão de empresas, estava ele com 23 anos,telefonou-lhe a medo e enviou-lhe o relógio do avô, sem resposta, dois anos depois no seu casamento, não foi convidado, no lado oposto da igreja observara a sua felicidade angustiado atrás de uma árvore, Leonor sempre vendera ao filho a imagem dum pai ausente e egoísta, crescera sem ele, mal se falaram nesses vinte anos. Em cada uma das vezes chorou, e saiu a beber até cair, trancando-se depois em casa, na modesta vivenda que erigira clandestina  num subúrbio, os vizinhos queriam legalizar o bairro, para ele era indiferente.

Agora voltava de mais um serviço,a tempo do snooker no café do Esteves, cara enrugada, dentes cariados, a geografia da dor traçada no rosto carcomido, vida ao vento na estrada solitária,Barcelona regelava, nem ao centro fora. Ao chegar a casa, percebeu que algo havia acontecido, pelo semblante da vizinha, a Perpétua,que logo viu quando encostava o camião, o filho esperava-o, absorto, encostado ao muro, fumava um cigarro nervoso.

Pedro e a mulher haviam-se separado ao fim de um ano, ela ficara com a guarda do filho, de três meses, fora morar para Lisboa, ele estava destroçado, a cada dia que passava a desolação aumentava. Pensou no pai. Sofrera o que ele estava sofrendo agora, apesar de só ter uma vaga lembrança dele, achou que só ele lhe poderia dar uma palavra de conforto naquele momento, de repente irmanado no mesmo sentimento, remorso de nunca o ter procurado esses anos, influenciado pelo ressentimento da mãe.

Sem qualquer palavra, depois de uma hesitação, pai e filho abraçaram-se, os olhos emaranhados em lágrimas e abraçados entraram em casa, aí conversaram horas sobre tudo, vinte anos atrasados para o encontro sempre evitado. Riram, choraram, beberam, noite dentro meteram-se no camião e saíram sem destino, a primeira viagem dos dois em muitos anos. Nunca é tarde.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:17

Março 2011
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