por F. Morais Gomes

01
Abr 11

O telefone não parava de tocar, José atendeu, ainda estremunhado, do outro lado uma voz ofegante transmitia algo que parecia importante:

-Sim…não….óptimo!.Porreiro pá!- o dia começava bem, o Teixeira ainda com azia por causa dos 8,6% da véspera corria a comunicar a novidade, José ligou a correr para o adjunto Pereira:

-Pedro, já sabes?- despejou, ainda incrédulo- a Angela aprovou uma lei a obrigar os tipos do rating a fazer um seguro de risco, por cada palpite não comprovado que façam vão ter de indemnizar, e os gajos agora dizem que é arriscado e vão tirar-nos das análises de conjuntura. Ganda Angela, é das nossas, só é pena ser da CDU!

-Ouvi, ouvi, Zé- Pedro exultava também- mas olha, também tenho uma notícia boa: o Basílio Horta chegou da China e os tipos vão comprar-nos 30% da dívida, temos é de garantir que lhes vamos comprar tudo nos próximos dez anos, e nunca mais receber o Dalai Lama!

-Só isso? Então é canja! Eu até já compro materiais de bricolage na loja dos trezentos perto da minha casa. Grande dia, olha só por causa disso prepara aí o despacho a lançar a nova ponte sobre o Tejo. Se estamos em gestão e podemos chamar o FMI também podemos lançar a ponte. Não hei-de sair sem colocar a primeira pedra, em Xabregas. Olha, depois até podemos almoçar na Bica do Sapato!

José saiu para o gabinete, na rádio anunciava-se com pesar que Medina Carreira sofrera um AVC e perigava no Hospital das Descobertas, José, de sorriso mal disfarçado pensava para consigo, “Bem feita! O rating deste já desceu para lixo”….

A sucessão de boas notícias levou-o a desviar e passar pelo alfaiate, o stock de fatos azuis estava já visto em excesso, precisava de dois novos, um blasé, para a campanha eleitoral e outro para explicar pela vigésima vez porque não pediria ajuda ao FMI. No alfaiate, o Travassos, já familiar, cumprimentou o cliente, tentando saber novas da política enquanto mostrava os tecidos:

-Então, senhor engenheiro, vamos ganhar isto?- Travassos metia conversa, familiar, na véspera dissera o mesmo a Paulo Portas, à procura dum fato Príncipe de Gales às riscas, os agricultores do Sorraia gostavam desse padrão.

-O país há-de resolver os problemas, Travassos. São uns ingratos mas o povo não é parvo. Olhe, escreva o que lhe digo: ali onde está a estátua do Saldanha daqui a cinquenta anos hei-de estar eu, até já falei ao Cutileiro. Não quero é nada fálico, como aquela coisa do 25 de Abril no Parque. O Berlusconi é que me compreende, a gente a querer andar com o país para a frente e todos a guiarem em contra-mão!

O rádio no fundo da sala de provas interrompia agora a emissão: notícia de última hora revelava que afinal Dias Ferreira era o novo presidente do Sporting e Futre o vice para o futebol, haviam esquecido a contagem dos sócios de Macau, todos com mais de 25 votos e 90 de idade. Apoiantes de Bruno Carvalho com pedras prometiam uma Intifada no Alvaláxia e os donos das roulottes de couratos ofereciam apoio logístico, o Travassos comentava com o cliente:

-Estes tipos… Mas como é que é possível terem falsificado os números assim?- incrédulo ía enfiando os alfinetes nas bainhas, o cliente, seguro de si opinava:

-Sabe, números são coisas metafísicas, valem o que valem…- o risinho discreto deixava antever que não falava tudo o que sabia, isto a política…

De regresso ao carro e antes de seguir para S. Bento, tempo ainda para atender um telefonema de Amado, as senhas de presença para o almoço em Bruxelas tinham acabado e só tinha que chegasse para uma waflle:

-Luís, até parece que isso agora é problema. Põe na conta da embaixada, depois mandamos a factura ao Junker, quem tem 75 mil milhões prontos também paga o almoço a um amigo. Hoje estou muito bem disposto, a Angela é fixe. Olha, até lhe vou mandar um bouquet de flores. Rosas, claro, só ela faria um tal milagre, a nossa santa…

-Qual milagre?- Luís Amado parecia fora do assunto, na cabine em Bruxelas, as moedas estavam a acabar, os cortes nas verbas do gabinete de ministro…

-Então, saímos das análises do rating,agora é tudo negociado sem pressões e os chineses até nos compraram 30% da dívida. São óptimas notícias….

Do outro lado a voz grave parecia contrariar o optimismo larvar de José, a caminho do gabinete. Chegado a S. Bento, Santos Silva confirmava, era falso alarme:

-Sabes como dizem os ingleses, “no news, that’s good news”.Melhor não haver nenhumas...

-Estes gajos!....- José estava furibundo, para aliviar a tensão até telefonou a encomendar mais um fato ao Travassos, a terapia para o stress era ir às compras e gastar compulsivamente.

-Dia das Mentiras, Senhor Primeiro-Ministro!- alvitrou  Ivone, a secretária, José havia esquecido completamente, na agenda estava apenas o jantar com militantes em Caneças.

-…em exercício!- acrescentou com uma ponta de maldade o ministro das Finanças, acabado de chegar, com dificuldade rompera pelo meio dos "Homens da Luta" que vendiam rifas da dívida a um euro na escadaria da Assembleia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:28

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