por F. Morais Gomes

02
Abr 11

Partindo da R. Almada Guerra e subindo ao Largo do Morais lá estava a casa, abandonada no largo deprimido e triste, antes lar de vidas desafogadas, agora decrépita, com madeiras apodrecidas e telhado periclitante. Em tempos ali morara uma velha solteirona, falecida para três anos. Apenas um descontraído gato dormitava agora ao sol no muro de pedra, carcomido pelos anos e conquistado pelo musgo.

Vizinhos garantiam que de lá vinham ruídos à noite, alguém cantando, nunca luzes ou pessoas ali se viram mais em três anos, apenas uma música antiga vinda de dentro, a Guilhermina do 56 jurava ser uma cantada por Milú num filme português dos antigos. Apesar de bem situado, ninguém aparecera a comprar o imóvel, desconhecido que era um proprietário visível.

Joaquim Fernandes, aposentado da polícia e  vizinho no Morais, desde há tempos lhe fazia espécie a música vinda da casa fechada, ele mesmo escutara já a canção por demais conhecida, um tom de voz sumido e um quanto amargurado contudo, quase podendo imaginar a cena do“Costa do Castelo” inexplicavelmente ali ressoando, pelo menos três pessoas garantiam ter ouvido a mesma, num timbre cristalino como se  dum velho vinil se tratasse.

Numa sexta-feira à noite, um vento desagradável assolava o já silencioso Largo do Morais e a lua acetinada recortava o vetusto torreão da Quinta dos Lagos, quando do interior da casa o som familiar da música de novo invadiu sussurrante e melódico a pacatez do largo. Joaquim, que apanhava ar depois do jantar,decidiu-se a  seguir o som, levava-o até à casa encerrada. O gato pardo das tardes miou, vindo do quintal traseiro,as portadas há muito encerradas não adivinhavam presença alguma, no escuro, tropeçou mesmo num galho de plátano tombado e seco. O som era agora mais claro e audível e maior o breu, nem vivalma em redor, as casas próximas demasiado longe para que o som ali fosse perceptível. Feito silêncio por minutos, voltava já a casa esquecendo a misteriosa música quando o gato, roçando-lhe as pernas, correu em direcção a um galinheiro nas traseiras, desaparecendo lá dentro. Curioso, seguiu-o, no interior havia um postigo de acesso a um anexo em cimento, um cheiro nauseabundo denunciava a presença de animal  e acumulação de detritos. Uma ninhada de gatos, pensou.

Sem que o tresmalhar na folhagem deixasse denunciar-lhe a presença, aproximou-se e por trás dum candeeiro a petróleo descortinou uma mulher, velha e desdentada, cabelos brancos em desalinho e roupas enxovalhadas, nunca por ali a vira, ignorava mesmo que alguém ali vivesse ou abrigasse. Ficou um pouco a observá-la: à sua volta uma mala de cartão, caixas velhas, uma contendo um largo chapéu de cerimónia, coisa antiga e debruada com plumas, numa mesa manca com três pernas apenas, velhas revistas espalhadas, nas  capas eventos já esquecidos pelo tempo emprestavam o ar de cenário passado. A velha, trincando uma maçã que religiosamente retirou dum plástico, trauteava canções esquecidas, êxitos dos anos trinta, uma estola ratada e carunchosa ao pescoço revelava um passado interessante e quiçá próspero. Absorta,sorrindo para o infinito, cantava agora a Casinha, como se de um hino se tratasse. Olhos fechados e encerrados no passado, sem que se apercebesse do Joaquim, saiu pouco depois na direcção da Portela a buscar algo que comer nos caixotes, o gato, desinteressado, deixava-se ficar aninhado na enxerga que lhes servia de cama.Aproveitando a ausência da misteriosa intrusa, aventurou-se no tugúrio: uma caixa de pó-de-arroz e um espelho enferrujado sobressaíam na mesa de três pés. As revistas, muito antigas, guardavam notícias de espectáculos de outros tempos, antigas revistas do Parque Mayer, o corpo de baile, vistosas coristas, numa um grupo posava sensual com Maria Matos, a Mafalda do Costa do Castelo. Comum a todas elas, um corpo de baile, numa , aberta na página central, Milú posava alegre e glamorosa com uma bailarina, a legenda identificava a jovem como Ausenda Rebordão, promissora corista do Maria Vitória e anunciada primeira figura na próxima revista do Capitólio, com Ribeirinho.

Um súbito ruído de passos alertava para o aproximar de alguém, a velha retornava agora da Portela, alguém lhe dera a esmola de uma sopa já fria. Joaquim voltou a esconder-se, descoberto o lenço com que ela abrigava a cabeça do frio, reconheceu  traços da Ausenda que gloriosa se deixara fotografar com Milu na revista amarelecida, uma velhice desamparada, entendeu então, ali estavam os despojos duma vida atirada para a valeta do destino, alguma altivez no olhar, o pano quase a cair numa peça que virara drama. Sem coragem para a abordar retirou-se, nostálgico, arrefecia, a velha corista abrigava-se num canto, comendo a sopa, o gato a seus pés, dormitando.

Nos dias seguintes, à hora costumada, a voz já rouca de Ausenda, antiga vedeta do Parque Mayer, voltou a soprar trazida pelo vento do galinheiro e camarim improvisado, sem conforto ou comida mas onde não faltava uma preciosa caixa de pó de arroz. Misteriosamente, um cesto com sopa e fruta e dois cobertores foram lá deixados depois e todos os dias desde então. Ainda hoje uma já roufenha melodia ecoa nostálgica no discreto palpitar da noite de Sintra, até que findo o terceiro acto, o pano desça de vez, sem palmas nem flores. Sem modesto primeiro andar, talvez pertinho do céu….


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:02

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