por F. Morais Gomes

03
Abr 11

Sintra,2042.O presidente da Câmara, Djaló Varela,quinta geração de  cabo verdianos, chegava os Paços do Concelho no velho Sintra Fórum para reunir com o ministro da Economia do Governo Federal Europeu. Lech Zibrinski despachara verbas para obras, e estaria em Lisboa no dia 3.De TGV ,a partir de Bruxelas ,seriam 4 horas, duas reuniões em Paris e Madrid pelo caminho. Diógenes Durão, o delegado do Governo para os assuntos de Portugal mais tarde acertaria consigo os pormenores das verbas para o  novo CICV.

Varela era dinâmico e audaz. Antigo rapper, fora recentemente eleito através do Facebook, recolhera mais de 2/3 de “gosto”,  e tinha projectos estruturantes para o concelho: a Cidade do Cinema abriria em 2043,bem como a nova Universidade de Pêro Pinheiro, baptizada de " Cristiano Ronaldo”, em homenagem ao comendador, vulto da cultura nacional agora com  67 anos, proprietário do Praia Grande Hilton e do resort de montanha na Pena. No plano desportivo, a fusão de todos os clubes originara o Futebol Club de Sintra, presidido pelo antigo internacional Nani.

O concelho dispunha agora de 700.000 habitantes, metade de origem crioula. O canal de TV,em Montelavar, o Sintra Sky Network-SSN,  era dirigido por Gustavo Facas, neto dum conhecido DJ dos anos 10, o vereador do multimédia, Simeon Pereira igualmente descendia de romenos radicados no Mucifal(agora Mucifalisoara).

O problema número um  era a violência.Com 50% de desempregados, agora designados como inactivos orgânicos, alguns de longa duração, criara um plano de reforma para aqueles que tivessem frequentado pelo menos 25 cursos de formação profissional. Ganhara as eleições com a promessa de legalizar a violência urbana, desde que não se ultrapassassem 5 roubos por esticão e 3 assaltos a multibanco anuais, considerado falta leve. Esse era o principal problema, todas as noites havia desacatos no metro Oriente-Mem Martins obrigando a intervenções com armas a laser por parte da Força Ninja, recrutada entre veteranos da guerra contra a Coreia do Norte de 2036, na qual o distrito de Portugal participara integrado no Exército Federal Europeu.

O telemóvel ligou.O vereador da multimédia, Simeon, anunciava que o busto de Miguel Real estava pronto para inaugurar na Volta do Duche. Com milhares de e-books por ano,o escritor era uma referência de Sintra, ganhara o Nobel da Literatura de 2016.Ali ficaria, ao lado do Memorial à Grande Hecatombe de 2011 quando Portugal caíra na bancarrota, sobreviventes ali colocavam flores com frequência, exorcisando esses tempos de fome e incerteza em que 90% da população perdera o emprego e sobrevivera graças ao apoio humanitário do Ruanda e Haiti.

Agora era diferente, as coisas mexiam, com Varela, Sintra era de novo cool e progressiva . A imagem romântica em que se insistira no passado não pegara, desde os anos vinte que se apostara na Sintra tecnológica, trendsetters haviam apontado como target as indústrias criativas de base tecnológica e Fab Labs tinham surgido em Morelena e Negrais.Os call centers em videoconferência, os transgénicos de estufa, a par das fábricas de veículos a biodiesel no Cacém, eram a base da economia em retoma. Doces tradicionais como a queijada ou o travesseiro haviam desaparecido nos anos trinta do século XXI substituídos por uma versão light sem açúcar nem ovos, dentro do plano de combate à obesidade designado "LOL Sintra"que igualmente banira o courato, o hambúrguer e, mais dramático, o leitão de Negrais, proíbido pela Organização Mundial de Saúde.

Os anteriores presidentes haviam apostado no  teletrabalho em part time e na privatização dos serviços camarários: o urbanismo era gerido por uma consultora de Marbella,  as obras municipais pelo consórcio Pires e Rodil, franchisado de empreiteiros de Taiwan, pelo que  só restavam 70 funcionários em permanência, ganhando cerca de 300 yuans por mês(o yuan, moeda chinesa, era agora a moeda única mundial, depois do estoiro do euro em 2018, após a entrada do FMI na Alemanha).Até a justiça fora privatizada e entregue a uma holding de magistrados por cem anos, a Isaltino,Vara e Associados, com sede nas ilhas Salomão e escritórios em Lourel, a nova sede da comarca.

Depois da reunião com Zibrinski, Sintra, sob a sua presidência teria finalmente um Centro Integrado para a Conservação da Vida-CICV, algo em tempos chamado hospital, uma empresa de saúde onde os doentes comprariam quarto e assistência em time-share podendo trespassá-lo, após tratamento. O acesso seria permitido após um chip do genoma atestar a veracidade da doença e a situação fiscal do candidato, e seria gratuito para todos os que se houvessem reformado aos 90 anos e desde que provassem ainda viver em casa dos pais. Em 2060 terminaria a revisão do Plano Director, velho de 70 anos e a torre biónica das Azenhas do Mar, com 750m e setenta marisqueiras ficaria pronta. Aí sim,o Admirável Mundo Novo e multicultural chegaria finalmente a Sintra pelas mãos do visionário Djaló.


publicado por Fernando Morais Gomes às 01:24

Já cá não estaremos para confirmar.
Pode-se fazer já a estátua ao Miguel Real ? Assim sempre punha umas floritas ...
Anónimo a 3 de Abril de 2011 às 12:53

MUDASTIIII !!!!
Anónimo a 3 de Abril de 2011 às 15:46

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