por F. Morais Gomes

04
Abr 11

O professor Segadães pasmava, mas era verdade. Apesar da distância e de as hipóteses serem mínimas, poeira radioactiva chegara a Portugal provinda de Fukushima, no Japão. As primeiras medições efectuadas não eram inquietantes, não havia que lançar o pânico, mas após o relatório da manhã medidas de contingência impunham-se, e logo agora que o governo estava em gestão. Teresa Damásio, do Instituto Tecnológico e Nuclear apenas detectara pequenos vestígios de radionuclídeos de iodo e césio em amostra de aerossóis colhida na estação de Sacavém. Apesar de as concentrações serem baixas o relatório enviado pelos japoneses, porém, aconselhava medidas imediatas:

-A coisa agravou-se, professor! - Teresa parecia agora preocupada, mas havia que não lançar o pânico -Segundo eles, os níveis de radioactividade detectados  são mil vezes superiores aos mínimos de segurança. E os contaminantes radioactivos detectados na água do mar apresentam valores astronómicos, veja! -o relatório via mail era aterrador.

-Oh diabo!... os  japoneses comunicaram às Nações Unidas uma fuga radioactiva originada no incêndio do reactor 4 onde havia combustível radioactivo usado. Eles acham foi provocado por uma explosão de hidrogénio e estão a comunicar taxas de 400 millisievert por hora!- Segadães  tentava manter a calma, mas a dimensão do que aí vinha era incalculável, de acordo com o relatório.

-Terrível, o máximo deveriam ser três millisievert! Podemos vir a ter  casos de queimaduras na pele,mutações genéticas e danos irreversíveis nas células. O que sugere professor?

-Temos de lançar uma operação em larga escala, ligue-me ao Presidente da República. Deve estar a cortar alguma fita em Celorico ou Gavião, diga que é uma emergência nacional!

Teresa correu a contactar o presidente, este apesar de tudo ficou tranquilo, pensava que era para chamar o FMI daí a meia hora, antes isso, mas precisava reunir o Conselho de Estado.... Contactada a Protecção Civil, como era domingo um gravador de chamadas com uma voz maviosa aconselhava a deixar recado, segunda de manhã se veria, Álvaro Segadães bufava:

-Francamente! Olha se houvesse um tsunami a sério! Palavra de honra….Protecção civil, sim, mas aos dias úteis das nove às cinco,  era domingo e todos os bombeiros estavam em almoços de confraternização.

Pescadores da Praia da Adraga, em Sintra entretanto haviam sido acometidos de náuseas depois de haverem almoçado uns carapaus, alegadamente estragados. A notícia ainda não se espalhara mas começava a fazer estragos, o “síndroma de Fukushima” ceifava na costa atlântica portuguesa. Teresa e o prof. Segadães de imediato foram para lá, alertados pelo INEM, os sintomas não pareciam de intoxicação alimentar, um mirone, estudante de Física garantia ser radioactividade. Um dos pescadores, o Alberto, de Galamares, suava em bica, a boca ressequida e sensação de cansaço, suspeitava do azeite do molho à espanhola. Discreto, com o aparelho de medição, Segadães, depois de se identificar junto ao INEM aferiu: a dose de radioactividade era letal, com urgência todos os pescadores e toda a orla costeira deveriam ser evacuados, a propagação fora excessiva e por certo os japoneses estavam certos, só um nível monstruoso de radiação poderia justificar ter chegado a Portugal. Um alerta foi finalmente lançado pelas televisões, o contacto com a água do mar devia ser evitado e criado um cordão de quarentena de cinquenta quilómetros. De imediato os restaurantes e praias deviam ser encerrados, o trânsito proibido, uma evacuação em massa para o Alentejo teria de ser posta em marcha nas vinte e quatro horas seguintes, o cancelamento do Benfica-Porto deixava os nortenhos possessos e acusando o “sistema”, era tudo para lhes tirar a taça nesse dia, dizia irónico Pinto da Costa.

-Professor, vão ser precisas pastilhas de iodo para evitar a contaminação. Milhares! Se administradas nas primeiras 24 horas após o contacto com poeiras radioactivas, podem evitar cancros da tiróide.

- Esperemos que os ventos e marés mudem, Teresa. Em pequenas doses, a exposição à radiação não oferece riscos para a saúde,o corpo tem tempo suficiente para substituir as células que tenham sido alteradas ou destruídas. Mas em doses extremas, é fatal, nem quero imaginar: Chernobyl matou 30 pessoas  apenas num mês e originou milhares de cancros da tiróide. A radiação emitida pelo combustível das centrais nucleares  altera a carga eléctrica dos elementos das células humanas. A extensão dos danos depende da dose e do tempo de exposição e até da região atingida. Os pulsos são mais resistentes à radiação, a medula óssea pelo contrário, é mais sensível. Atendendo mais uns pescadores, que ainda ignoravam o porquê daqueles testes, Segadães rematou:

-A radioactividade pode alterar o 'relógio biológico' das células, fazendo com que cresçam formando tumores. Leucemias, por exemplo, podem aparecer em dois anos. Um ser humano pode morrer em poucas horas se o corpo for exposto a 50.000 milisieverts. O primeiro sintoma são as a náuseas,em 30 dias as pessoas ficarão anémicas e sem defesas contra as doenças.-o panorama era catastrófico, Teresa estava apreensiva.

As notícias oficiais que chegavam do Japão continuavam a garantir que tudo estava controlado, em Lisboa, na televisão, a ministra da Saúde garantia pastilhas de iodo para todos, Segadães pasmava:

-Mas esta gente ensandeceu? Será que pensam que só acontece aos outros? Todos sabem que não temos reserva de pastilhas!

Zé Taborda e Abílio, dois dos pescadores da Adraga esperando serem examinados reclamavam já de tanta espera, no bar do Café Adraga:

-Ó amigos, então isso anda ou não anda? É que ainda temos de ir comer uma bela duma caldeirada. Olhe, aqueles lá do Japão é que não comem mais nenhuma! Apesar de tudo, ainda se está bem neste cantinho!

Apesar da radioactividade, o dia estava quente e o sol radioso. Entretanto, um mail urgente da Agência Internacional de Energia Atómica garantia estar errado o primeiro relatório enviado, os carapaus portugueses estariam a são e salvo e o Benfica-Porto lá poderia acontecer. Radioactivo, contudo, no estádio o aparelho teria leitura máxima, por certo. Teresa não se convencia: então a leitura do aparelho e as náuseas do Alberto? Contactado o Ministério da Saúde lá veio a explicação: eram leitores de radioactividade comprados à China e faltava a homologação. Quanto ao Alberto, uma observação mais profunda revelava não passar tudo de ressaca da despedida de solteiro do António, na véspera. Muito activa, mas sem rádio...

             

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:42

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