por F. Morais Gomes

05
Abr 11

Reinava o silêncio na biblioteca da mansão, a reunião da noite tinha só um ponto na agenda: afastar a influência de traidores do Governo de Portugal. O Priorado do Condestável não tinha existência legal, poucos sabiam da sua existência, a conjuntura impunha medidas. Banqueiros, juristas, escritores e militares integravam o grupo reunido na Quinta da Capela. A coberto dum alegado encontro de rotários, os Irmãos iam discutir formas de agir, a queda do governo antevia mudanças,era preciso assegurar a influência de Irmãos no novo que se seguisse.

Fundado em 1974, em segredo,depois dos eventos que conduziram à mudança do regime, o Priorado zelava pela restauração dos valores ligados ao desígnio místico de Portugal,farol da civilização, na tríplice aliança entre Exército, Igreja e Finança, os pilares da Pátria, sendo os membros admitidos sujeitos a rigorosas regras de iniciação. Secretamente vários ministros, bispos, generais e empresários eram membros, a reunião dessa noite era de emergência. Entre outros, o general Álvaro Salomão, monsenhor Taveira Braga, do Cabido de Viseu, o banqueiro Ricardo Sendim e o escritor Tolentino Peixoto, autor de livros zurzindo nos plutocratas e vendilhões que mandavam no país. Para segurança do grupo, usavam túnica branca e azul, as armas do beato Nuno bordadas no peito e cara tapada por um capuz, um anel de lápis-lazuli identificava a pertença ao priorado.O Grão Mestre, encerradas as portas , já todos  sentados na mesa oval, abriu a reunião:

-Irmãos, louvado seja D. Nuno, nosso Mestre e Patrono. Cabe-nos como Condestáveis da Pátria salvá-la do ateísmo e materialismo, que tudo subjuga ao relativismo da ciência e do imediatismo. Nunca como agora os nossos valores se demonstraram tão urgentes e a Comunidade Pátria tão falha deles. O momento é de acção! Há que ter mão nos jacobinos e maçons que corroem a sociedade, e destruir o Governo Secreto do Mundo que ora se apoderou da Nação. A isso nos obriga a emergência que a Pátria vive, cercada pela ameaça do judaísmo infiltrado na dita União Europeia e que governa as instituições financeiras mundiais. Este ataque à Pátria é obra sionista e visa vingar a expulsão dos marranos há  cerca de quinhentos anos, não tenhamos dúvidas!

Tolentino, lunático ideólogo e estudioso de Nietsche corroborava:

-Veja-se a imprensa, a excitar e inflamar as paixões entre o povo, lobos entre carneiros, empurrando para as mãos dos títeres. Há que controlar a imprensa, será boa ferramenta para oferecer tantas opiniões diferentes que se perderá a visão global no labirinto das informações. Devemos dominar a Comunicação e mantê-la na nossa dependência. Apesar das recentes reconquistas no audiovisual muito há a fazer ainda, Irmãos!

Também monsenhor Braga concordava, debaixo do capuz, a sua voz e as homilias inflamadas na Sé de Viseu eram conhecidas:

-O plano dos ateus é dominar as pessoas pelos seus vícios, distrair as massas com diversões populares, jogos, competições desportivas, divertir o povo para impedi-lo de pensar. Está tudo estudado: destruir a estabilidade financeira: multiplicar as crises económicas e preparar a bancarrota universal; parar as engrenagens da indústria; deitar por água abaixo todos os valores; concentrar o dinheiro do mundo em certas mãos; deixar capitais enormes em absoluta estagnação e agiotagem; e, no momento certo, suspender todos os créditos e provocar o pânico entre as Nações. O plano está em marcha, não há que hesitar,é  tocar a rebate nas aldeias, em busca da reserva moral da Nação, unir Espada e Cruz, e como D. Nuno buscar a redentora Aljubarrota nesta Pátria moribunda! O Grão-Mestre, austero, concordava, apontando missões:

-É necessário compreender que a plebe é cega, insensata, sem raciocínio, indo para a direita ou para a esquerda por mera leviandade. Só a Espada desembainhada pode levar a um novo desígnio. É preciso incendiar as ruas, os estádios de futebol, os jornais, a plebe. E depois apresentar o novo Salvador, o Irmão que na hora certa todos em conjunto alcandoraremos ao Trono do Rei Afonso! E enigmático, apontou um Irmão até ali silencioso, sentado ao topo da mesa.

-Irmão, pela Espada entrarás no redil dos ímpios e removerás o tumor que dilacera a Nação - o dedo indicado, profético, apontava o Salvador escolhido.

Levantando-se, sem se descobrir, o misterioso participante aproximou-se da janela, lá fora a serra silenciosa e escura repousava letárgica em tempo conturbado para os Homens. Enigmático, em voz baixa e pausada, deixou umas breves palavras à assembleia de embuçados:

-A violência deve ser o princípio; a astúcia e a hipocrisia, a regra para os governos que não queiram entregar a coroa a nós, os agentes da nova força. Por isso não nos devemos deter diante da corrupção, da velhacaria e da traição. Aqueles que transformaram os Estados em arenas onde reinam os distúrbios dentro em pouco verão surgir desordens e bancarrotas por toda a parte. Recordai o irmão Nostradamus no seu versículo III. 28 :"As representações do ouro e da prata vítimas da inflação, depois do vôo da doce vida, serão atiradas ao fogo em fúria; esgotados e perturbados pela dívida pública, os papéis e as moedas serão destruídos.". Antes que as eleições de Junho tenham lugar, a Aliança Infiel dos agiotas sionistas  cairá sobre a Nação, atacando-lhe as riquezas, subjugando-a pelo pecado do juro e roubando-lhe o Futuro. Nessa altura a Espada de D. Nuno cairá sobre os traidores,de dentro e de fora. É a hora!

-E quando será isso, Irmão? -sondou Tolentino, impressionado e ao mesmo tempo excitado.

O Irmão, silencioso, nada disse, numa secretaria da biblioteca do Grão Mestre, uma folha solta de calendário marcava com uma bola a vermelho a data de 28 de Maio, sábado.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:54

Grande zurzidela, Fernando! É realmente altura de dizer: Basta! Estamos a ser governados por um bando de vigaristas, os traidores do teu texto. Mas os vigaristas de hoje não têm pátria, o que é horrível neles é juntarem a vigarice à absoluta mediocridade das suas inteligências, e lamento muito incluir neste retrato não apenas o presidente, o governo, e toda a canalhada rapace de assessores, administradores de empresas públicas, etc., mas também todo o parlamento, com raríssimas excepções. Onde estão os patriotas que fizeram o 25 de Abril? Não os do golpe militar, estão todos hoje muito bem acomodados, mas os do Povo? Viva Portugal! Digamos desde hoje na cara da canalha que nos governa o que eles verdadeiramente são: vigaristas! Olhem para a Islândia!!!
Jorge Menezes a 6 de Abril de 2011 às 05:31

Meus caros amigos li o texto que como tal, é literário, bem escrito e imaginativo. Mas o que precisamos é: "de pão para a boca" dos Portugueses. Há tempos para tudo, já houve tempo para a intelectualidade ; já houve tempo para a denúncia, rebeliões, e "conversa fiada". Agora é tempo de outra realidade, seguramente mais "prosaica", dura e esclavagista. Quem não semeou só pode colher o que não é dele! A questão é saber como podemos tornar os portugueses fisicamente fortes, intelectualmente grandes, moralmente capazes e habeis mecanicamente, num país envelhecido cheio de vícios,que desprezou o estudo, a educação, que deixou de ser sóbrio.
As nações também se transformam, como os indíviduos. Temos de perguntar quem nós somos afinal neste século XXI. Mas, antes da resposta, temos uma outra pergunta: o que vou comer hoje ao almoço!!!!
rui oliveira a 10 de Abril de 2011 às 23:37

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