por F. Morais Gomes

06
Abr 11

Diziam descender de Baltasar, um dos Reis Magos. Falava-se de um reino com monstros vários, homens com cabeça de cão, o Inferno convivendo com o  Paraíso. O padre Francisco Álvares e Gonçalo de Vilhena trilhavam ia uma semana as longínquas estradas, poeirentas e áridas, nada ali parecia rico ou fértil, oceano de areia farta em escorpiões e calhaus, o Reino a meses de viagem. Pêro da Covilhã em  missiva, já havia descrito ao defunto rei D.João o achamento daquele Reino distante governado pelo lendário Preste João. Ao desembarcar na costa da África em busca de rota para as Índias, ouvira a notáveis do Benin que o grande rei Ogané, seu senhor, reinava a vinte luas de marcha para leste e a sul do Egipto, aí o velho fidalgo o localizara vinte anos antes. Desembarcara em Zeila seguindo pelo interior até Gondar e aí, pasmado, entrou na corte do Negus Alexandre, Leão de Judá, Rei dos Reis, descendente do Preste João das Índias. Por lá ficara, voluntário e adaptado, agora, passados anos, D. Manuel de novo mandava emissários ao seu encontro, a oferecer aliança e comércio, próprio de irmãos na fé de Cristo.

O Negus seria senhor de vastos domínios que se estendiam da África às Índias e a dezenas de reinos a elas subordinados, entre eles as dez tribos perdidas de Israel, que Alexandre o Grande teria perdido para além da Muralha de Gog, as quais anualmente em vassalagem lhe enviariam mais de duzentos cavalos carregados de ouro e prata. Gonçalo de Vilhena, jovem e impetuoso mal podia esperar o momento em que  encontrassem o fabuloso rei, só uma vez fora a Ceuta, oferecera-se para escoltar Francisco Álvares.

-Padre, será verdade que quando parte para a guerra manda levar dez cruzes de ouro ornadas com pedras preciosas e que atrás de cada marcham dez mil cavaleiros e mais de cem mil homens a pé?- interrogava, montado no dromedário que o levaria e a Francisco Álvares à cidade,  escoltados por guias de Melinde que acompanhavam a caravana.

-Mais interessante é saber se é verdadeira a fonte da juventude de que tanto falam escritos dos antigos. Dizem que faz com que qualquer homem que nela se banhe volte a ter a idade de 30 anos. Parece que o próprio Negus terá agora 500 anos, pois ter-se-á banhado várias vezes nessas águas!

A duas milhas da sagrada metrópole do Preste João, novo e misterioso rei Midas, a surpresa da vinda ao seu encontro duma comitiva, Pêro da Covilhã, a quem o padre Álvares não via há vinte anos chegava a saudá-los, com a esposa nativa e dois dos filhos. Fazia muito que  portugueses não se aventuravam nas terras ocres do mar Vermelho, à vista do estandarte das quinas flutuando no cimo do dromedário, emocionou-se, correndo a abraçar os patrícios, para Francisco e Gonçalo, finalmente a chegada a domínios do Preste João.

Com a morte recente do Negus Alexandre subira ao trono seu irmão Naod, que convidou Covilhã a continuar no reino, dando-lhe casa e esposa abissínia, com quem teve filhos. Á entrada da cidade, soldados do Negus olhavam desconfiados os forasteiros de pele clara, apesar da tez queimada pelo sol da Abissínia. Pêro da Covilhã alojou os patrícios em sua casa, onde  se refrescaram com tâmaras e leite de cabra, no dia seguinte o soberano faria a mercê de os receber.

Pela manhã quente e cálida de Agosto, entrados num palácio revestido por adobe onde exóticos cortesãos se desdobravam em preparativos, mal se abriram as cortinas dum dossel num pátio amplo, lá estava, majestático e ricamente adornado ao cimo de um palanque de seis degraus o defensor da cristandade em terras de Oriente. Pêro da Covilhã apresentou os portugueses, que com uma vénia se acercaram do trono. O Negus era jovem e de pele escura, como os negros do Mali, a um sinal mandou que se acomodassem nas almofadas de cetim. Na cabeça, uma coroa de ouro e pedras preciosas, nas mãos uma cruz de prata, à direita um pajem apoiava uma cruz  bordada em forma de pétalas. Naod usava um vestido de seda com bordados de ouro e prata, uma camisa também de seda com mangas largas, parecia alegre e feliz pela chegada dos emissários. Pêro da Covilhã já lha havia comunicado e mercadores vindos de Aden haviam avisado o palácio da breve chegada de enviados do distante reino de Portugal.

O palácio era ricamente decorado: teto de cedro, cobertura de ébano, janelas de cristal, mesas de ouro e ametista com colunas de marfim. Gonçalo de Vilhena, numa pausa enquanto um cortesão segredava algo ao ouvido do Negus sussurrou para o velho Pêro da Covilhã:

-D.Pêro, é verdade como dizem que por aqui há sagitários e faunos, bem como uma ave  rara à qual chamam  de fénix ?

Pêro sorriu, os vinte anos de Abissínia já o haviam familiarizado com aquelas gentes e com tais mitos, tudo seria culpa do sol do deserto.

O descendente do Preste João tinha um aspecto jovem apesar de contar já 500 anos de idade pois tinha o privilégio de se banhar na Fonte da Juventude. Essa, o português confirmava, era verdadeira, ele próprio se banhara uma vez, autorizado pelo velho Negus. Reparando bem, Gonçalo notava que apesar dos sessenta e cinco anos Pêro da Covilhã aparentava trinta e recordava como correra ligeiro ao seu encontro na véspera, na chegada à cidade.

-Esse é o grande segredo deste Reino que não é dos Homens: se alguém beber em jejum três vezes dessa fonte, a partir desse dia nunca mais sofrerá de doença e aparentará sempre, enquanto viver,a idade de trinta anos. Quando chegam aos cem anos, os homens rejuvenescem bebendo da fonte, e tornam a beber todos os cem anos, até completarem 500, quando  morrem,então, e, por tradição, são enterrados debaixo de árvores com folhas que nunca caem.

Naod entendendo a explicação pelos gestos, ergueu-se e chamou os portugueses para o acompanharem. Num jardim traseiro, cheio de amoreiras e frondosas árvores, lá estava, singela e límpida a cobiçada Fonte da Juventude, guardada por uma serpente com mais de três metros com nove cabeças e duas asas. A uma ordem do soberano, esta deslizou viscosa para um canto, deixando aproximar os portugueses, que observando espantados, não puderam contudo tocar ou beber da água milagrosa.

-Sei que vindes dum reino cristão e temente a Deus como o meu- disse o Negus- Dizei a vosso Senhor que em domínios de Preste João não há guerras nem violência, roubo nem rapina, adulador ou avaro, daí o dom que Deus nos deu desta água, vinda do Jardim do Éden. Setenta e dois reis são nossos tributários e setenta e dois nos prestam vassalagem, com todos vivemos em paz. E onde ficam exactamente os domínios do vosso rei?

Francisco Álvares sacou de um planisfério, apesar de parco em geografia, em domínios o pequeno Portugal rivalizava com o império do Negus. De qualquer modo, este concordou com a aliança e aceitou ceder o porto de Massawa para apoiar as naus de Portugal, a vaidade de saber que a léguas dali alguém o invejava tornava-o magnânimo e cordial.

Passados três meses, Gonçalo e Francisco Álvares voltaram ao reino. Foi a última vez que viram Pêro da Covilhã, que para sempre ficou entre aquelas gentes, agora suas,desde que um dia partira da sua Estrela, serra  invernosa. Pêro da Covilhã viveu 500 anos, bafejado que foi pela água da eterna juventude. Quanto a Naod, descendente do Preste João, viajantes recentes garantem tê-lo avistado nas montanhas da Eritreia, olhando o Índico montado num  dromedário, sentinela de Jerusalém e ungido de Deus. Da Fonte da Juventude perdeu-se entretanto o rasto, um dia, soprados que sejam muitos suões uivantes no deserto talvez de novo se descubra,guardada na noite dos tempos pela ciosa cobra de duas asas.   


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:30

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