por F. Morais Gomes

07
Abr 11

Chove lá fora. Maldita serra, toda a noite tossi, goteja no cómodo. Tal o fim do herdeiro dos Braganças, enjaulado em enxerga insalubre e húmida, tolhido de sua acção. Pedro levou de vencida, infame néscio e aleivoso, está por certo na real alcova com Maria Francisca, a rameira, bem sabe ela que com seu rei nunca quis fornicar pois  donzela não casara e  logo  revelada seria tal adúltera desonra.

Louriçal trouxe-me uma tisana.Detesto tisanas, querem prostrar-me neste desterro.Os Açores aumentaram-me as febres,os pulmões, purulentos quebram-me o ânimo. Abomino estas paredes, põe-me doido. Ontem a carne tinha um sabor estranho, veneno por certo, torcem pela minha perdição, estorvo para o biltre que se senta no trono. Ah, como me fazem falta Joana e Catarina. Pobre Catarina, tão só em Inglaterra com Charles, tão desprovido de carácter e nobreza, nenhuma alcova em Londres lhe deve ter escapado, só a de Catarina permanece fria e triste.

A mãe nunca me entendeu, piedosa senhora, sempre chorosa por Teodósio e Joana. Nunca me escutou os prantos quando a febre me tolheu o corpo e deixou só, tremendo e à mercê, Pedro, só ele, nas graças do Paço, e do rei e dos validos, a sombra de Pedro sempre. Ontem ouvi o chefe dos guardas dizendo que viera caçar veados na serra.

Estou à beira dos quarenta, incham-me os olhos, desespero pelo dia em que serei chamado à presença do Altíssimo, rei sem reino, marido sem mulher.

Vivo entre sombras, escuras como as estreitas ladeiras de Sintra. Como fiquei tolhido o dia em que fui aclamado e Sousa Macedo desdenhou de mim e exaltou meu pai para me humilhar. E Francisco de Faro, bajulador sinuoso, captando o favor da mãe e intrigando com Cantanhede. Onde estarão agora?

Em cárcere toda a vida vivi, prestes me tolheram sempre o andar, já quando ainda infante da janela  via os filhos dos criados divertindo-se no Paço e sem dó me impeliam para a Gramática e o altar. Mateus, o filho do cocheiro, que saudade das  furtivas correrias em Alfama atirando pedras a tratantes e almocreves. Sempre o quis, como era viril o seu sexo, o meu real só no título, avaro em tamanho, como seria Deus deixava a sua obra inacabada. E António, meu bom António, o único amigo que tive, onde estará ele agora? Desespero de desejo do seu cabelo louro, seus ombros fortes, o calor do seu corpo cheirando a estábulo, Conti, dotado príncipe dos bordéis.Até ele me tiraram dos corredores do Paço onde único confidente o adoptei. Recordará ainda aquela Maria Parda da Rua do Tijolo, entalado em cujos seios se ia finando asfixiado, de grandes que eram? Ou a sova que mandei dar no juiz dos órfãos por não me ter reconhecido embuçado certa noite em Alcântara, e ameaçar com a guarda municipal? Pudesse voltar atrás e a meus amigos sem estirpe teria feito condes e duques, fiéis que eram,e às mulheres da vida marquesas cortesãs, que as outras o não são menos, e mais feias.

Apontaram-me despropósitos, porém mais deboche não há em usurpador que captura o trono e esposa de seu irmão e corrompe físicos para que lhe denunciem maleitas no corpo mentindo sobre o seu saber para procriar?

Acaso o fraco sexo de mim estivesse apartado Ana de Moura se teria sangrado a si própria quando sofri de aleijão, para que mais só me não sentisse sendo apenas eu sangrado? E Filomena de Milão, as mais belas e sabedoras mãos que em homem tocaram, paraíso carnal a que nem frei Agostinho resistiu quando ajoelhada lhe suplicou bênção?

Ouvi a um guarda que  designaram o conde de Odemira para o Desembargo do Paço. Oxalá desonrado seja, e amaldiçoados os seus, intrigando junto de D. Luísa minha mãe a sugerir açoites e que de mim afastassem o estimado António.

Jerónimo de Ataíde perguntou por mim, disse-me o chefe da guarda. Meu bom amigo, como sinto a sua falta. A semana transacta contei as voltas que dei enlouquecido neste aposento infernal. Noventa e seis. Noventa e seis é de doidos, comecei a contar formigas em carreiro subindo às chaminés do Paço. Como gostaria ser uma delas, trepando, e escapulindo para a serra, apedrejando megeras à saída da missa ou roubando fruta como vulgar camponês. Rei do cárcere, eis o que sou, exilado em meu Reino. Antes o desterro!

Minha mãe nunca perdoou tê-la afastado da regência e do mando. Não mais a vi, recolhida aos Agostinhos Descalços. Morreu com rancor. Rancor! A bondosa Luísa de Gusmão não podia ceder ao rancor, impróprio de rainha, forte com os fracos e fraca com os fortes. Já partiu, partiram todos, eu mais só, insepulto e morto já.

Acabou de passar um rato. Acho que o vou nomear conde, rei que sou deste quarto, sala do trono do meu mando. Ontem nomeei marquesa a uma barata. Marquesa de Sintra. Soa bem. Jurou-me fidelidade eterna, os esbirros de Pedro vão ficar possessos. O vitorioso de Elvas e Montes Claros respira ainda acicatado pela raiva. Por pouco tempo, temo, os males da alma quebrantam as forças do corpo. Corvos negros pousaram no beirado do Paço, mau presságio.

A tinta está a acabar, os olhos ardem. Nos Açores ainda tinha a mercê de caminhar à beira mar. Tempo de mais uma volta, noventa e sete. Os homens de Cadaval patrulham o Palácio, para nove anos que assim é, oiço-lhes as botas servis e os boçais grunhidos.

Hoje cuspi sangue. Um físico sangrou-me, mas sinto que meu corpo se fina. Seja. Noventa e sete vezes amaldiçoados  Pedro e Maria Francisca nos reinos do chifrudo. Aos vis, até  perdão e a justiça  vis parecem.

Arrefece. O rato tornou a passar. Sorriu-me, o novíssimo conde. Fiz-lhe uma vénia, magnânimo, agradeceu, dei-lhe a mercê dum pouco de pão. Um rei zela sempre por seus vassalos!

Sintra, aos 7 de Abril do Ano da Graça de 1683

Afonso, Portugal Rex


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:24

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