por F. Morais Gomes

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Abr 11

M. de Tréville tinha nova viagem para D’Artagnan e companheiros. Desta feita, acertado com o Cardeal, uma missão secreta para lá dos Pirinéus. A Richelieu chegara a notícia que estaria em curso a tentativa de assassínio do Duque de Bragança, em Portugal. Em ebulição política, a par da Catalunha, o Portugal ocupado via no descendente dos Avis uma esperança para a restauração do trono, dominado por Filipe IV, inimigo da França. Como dizia o Cardeal, os inimigos da Espanha, nossos amigos são, dessa forma havia que proteger o putativo pretendente e acarinhar a revolta. Conspirava-se em Lisboa e a França apoiava.

-Messieurs, La France a une mission pour vous, a Lisbonne- M. de Treville, com voz grave e contorcendo o bigode, juntava os fiéis mosqueteiros para nova e delicada tarefa, Porthos, animado, esfregava as mãos ansiando por alguma acção, cansado dos botequins de Paris e de perder ao jogo com Aramis. Treville, depois de uma pausa, sacou de uma carta de Duprés, espião da França em Portugal:

-Chegou-nos ao conhecimento que a vice rainha de Portugal, a Duquesa de Mântua, oferecerá  uma recepção a assinalar o aniversário do rei de Espanha, dia oito de Abril em Sintra, uma vila a trinta quilómetros de Lisboa. O duque estará presente, bem como nobres ligados à conspiração, Antão de Almada e Pinto Ribeiro, são de nossa confiança. Duprés relata contudo que o secretário da Duquesa, Miguel de Vasconcelos tem montada uma emboscada ao duque, no caminho para a recepção, de modo a enfraquecer a pretensão dos conjurados. É do interesse da França travar essa armadilha. O Cardeal, apesar de ainda estar aborrecido convosco reconhece contudo que sereis os melhores para lidar com a situação, e dá-vos carta branca para agir. É preciso sobretudo discrição. Partem amanhã, de La Rochelle em navio com destino au Portugal.

Entusiasmados com a missão, os quatro amigos correram a comemorar com Planchard e Bazin na Taverne d’Auverne, em Saint Dennis. Athos receava os mosquitos, diziam haver muitos no Sul, contudo, alegres lá se prepararam para o desafio, bem longe de Paris.

-Amigos, um por todos e todos por um!-  clamou D’Artagnan, logo todos repetindo em uníssono, a espada desembainhada numa mão e malgas de Bordéus na outra.

Dias mais tarde chegavam a Lisboa, sem uniforme de mosqueteiro, alegadamente viajantes da Bretanha em busca de produtos orientais, mais baratos que em Gand ou Antuérpia. Discretos, alojaram-se junto ao Paço, numa estalagem do Cais de Sodré. Lisboa trepidava de comércio, sobranceiros espanhóis patrulhavam a cidade em nome do rei de Espanha, sentia-se mau estar no ar, agentes do duque de Olivares achavam preparar-se algo para os finais desse ano de 1640, explicava Duprés, o contacto na cidade. Junto ao Hospital de Todos os Santos populares haviam sido presos por darem vivas ao Manuelinho, um rebelde que em Évora tentara organizar um levantamento contra Espanha.

A recepção seria dia oito, o duque viria pela manhã, saindo de Vila Viçosa. As recepções dos espanhóis aborreciam-no mas não poderia  recusar de forma ostensiva. De Lisboa partiria para Sintra, a recepção seria às seis, seguida de jantar, um grupo da Andaluzia actuaria depois. Pelas informações de Duprés, a emboscada seria numa charneca nas imediações dum sítio chamado S. Pedro, antes da estrada que conduzia ao Paço. Tropas de Olivares patrulhavam o percurso desde Lisboa, havia que ser discreto. Aí pretensos salteadores, de facto a mando de Miguel de Vasconcelos atacariam a comitiva e assassinariam o duque, simulando um banal assalto, por esses tempos frequente nas estradas de Sintra.

A cavalo e com mosquetes disfarçados em bornais dirigiram-se ao local. Eram quatro horas,  detendo-se num sítio chamado Ramalhão escolheram posições, Aramis, melancólico, absorvia o  odor a pinheiro manso, seduzido pela  fragrância  dos pinheiros. Pelas cinco, encapuzados aí  largados  por cavaleiros que se exprimia  em espanhol ocuparam posições atrás de moitas, sem que os mosqueteiros  se deixassem ver. À cautela, Duprés ficara a meia légua, guardando os cavalos e protegendo a retaguarda.

O restolho das rodas cadenciado pelos cascos dos cavalos na folhagem anunciava a aproximação da carruagem, o estandarte dos Braganças estampado na porta não deixava dúvidas, D. João, meio absorto e olhando a serra chegava para a inevitável recepção. Poucos metros faltavam para chegar perto dos embuçados, já estes desembainhavam as espadas, um deles, facínora, empunhava uma adaga afiada. De surpresa Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan  saltaram-lhes ao caminho, envolvendo-se em luta corpo a corpo. Porthos, cerrando os dentes, delirava, em poucos minutos dois ficaram-lhe nas mãos, Aramis e os outros logo neutralizaram os demais, surpresos pela inesperada armadilha, só um logrou fugir, ferido e chamando pela Virgem Macarena. Espreitando pelo postigo, sobressaltado, o duque de Bragança quis saber o que sucedia. Respeitosos, os mosqueteiros apresentaram-se, saudando-o e explicando o ardil. D. João, percebendo o sucedido , agradeceu, mais tarde  com tempo gostaria de os receber.

Em Sintra, Miguel de Vasconcelos sorria. A recepção estava  a começar, ensaiava a cara de consternação que disfarçaria quando soldados chegassem a comunicar a morte do Duque. No pátio árabe, Margarida de Sabóia, Duquesa de Mântua recebia os convidados, Grandes de Espanha, patentes militares, uns poucos portugueses coniventes com os negócios ibéricos, há seis anos que era  vice-rainha. Para espanto de Vasconcelos, incrédulo, chegou a comitiva do Duque, incólume e  efusivamente saudado, para irritação dos espanhóis. A tramóia falhara. Cínico, com uma ligeira vénia recebeu o duque nas escadas do Paço. A recepção continuou, por esta vez, espanhóis e bajuladores portugueses falhavam.

Dias mais tarde, em Vila Viçosa, D. João recebeu os franceses para lhes agradecer, obsequiando-os com uma caçada de lebres e rolas, a que se seguiu farto almoço, o melhor momento para Porthos, tão amante do garfo quanto da espada. Após uns dias de repouso, partiram. Já a cavalo, na estrada para Espanha, D’Artagnan desembainhou a espada, elevando-a no ar e desafiou:

-Um por todos!

-E todos por um!- em uníssono repetiram os quatro, o cálido sol do Alentejo brilhava, aquecendo os vetustos sobreiros.

 Três meses mais tarde, nesse reino sessenta anos vexado, o agora duque retomaria a linhagem de Afonso e aclamado em Lisboa, vitorioso se sentaria no trono. No Largo de S. Domingos,  o biltre Miguel de Vasconcelos, uma vez mais surpreendido, haveria de cair das nuvens…


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:29

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