por F. Morais Gomes

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Abr 11

No café do Horácio discutia-se abertamente as eleições e a vinda do FMI, a palavra mais gasta do ano, ainda nem chegara. Sondagens, opiniões antagónicas sobre vencedores, o Pacheco da peixaria pouco convicto da utilidade destas na actual conjuntura:

-Isto com eleições ou sem elas, quem governa é o FMI, escusavam de  gastar dinheiro ao país! Para estes tipos uma corda ao pescoço ainda era pouco!

-Mas ainda assim o melhor são as eleições. Quem o povo quiser que descalce a bota! - o Chico da barbearia era pela ida às urnas, votara  recentemente no Bruno Carvalho nas eleições do Sporting:

-Quem o povo quiser…não é bem assim, amigo Chico. O povo do Sporting queria outro presidente e veja lá se ganhou…

-Efectivamente….a brigada do reumático blindou os estatutos, é o que é…- concedeu, não gostava do Godinho Lopes.

-O problema é que a democracia se esgota na letra e na semântica das formas, mas não nos meios de lá chegar! -interrompeu o professor Lopes, docente de Matemática no liceu da Portela e estudioso de sistemas eleitorais.

 Apanhado pela erudição, o Chico fazia uma careta perguntando-se o que seria a tal semântica, Lopes, vendo assistência, pediu mais uma bica e expôs os seus pontos de vista:

-É como digo, o sistema “um homem, um voto” apesar de tido como o mais representativo está paradoxalmente longe de o ser. E casos há em que provavelmente acabamos por eleger o candidato menos votado!

-Como assim? - o Horácio, curioso, queria ouvir mais.

-Vejam o seguinte exemplo - continuou, escrevendo num toalhete do café - suponham que para primeiro-ministro concorrem o Sócrates, o Passos Coelho e o Paulo Portas e que votam, por exemplo, 12O pessoas. Cada votante tem uma hierarquia de preferências entre eles, do 1º para o 3º. Suponhamos que as ordens de preferência são as seguintes: para 5 pessoas, a preferência vai para a sequência Sócrates-Portas-Passos, para 4 delas Passos-Portas-Sócrates, para outras 3 Portas-Passos-Sócrates. De acordo com a regra “um homem, um voto”, cada um vota apenas numa preferência e aí o Sócrates será eleito, com 42%, certo?

-Certo! Acho eu, pois….- o Horácio coçava a cabeça, concordava mas desde que não fosse o Sócrates a ganhar.

-Mas e se o Passos Coelho retirar a candidatura? O conceito de justiça eleitoral levaria a pensar que devia ganhar o Sócrates. Nada mais errado! Uma simples contagem mostra que retirando-se o Passos, Portas ganha ao Sócrates por 7O-50 porque o Sócrates é a primeira escolha para 5O pessoas mas a última para 7O. É eleito o Portas! Mais: em eleições só entre 2 candidatos, Portas venceria Passos por 80-40 e o Passos venceria o Sócrates por 70-50. Os resultados mostram que os eleitores vêm Portas como o melhor candidato, pois ganha a todos isoladamente e Sócrates o pior, pois perde em comparação com todos os outros. Ironia do destino: no sistema actual seria eleito Sócrates e Portas ficaria em terceiro lugar. O resultado colectivo foi o menos desejado pela maioria dos eleitores. Isto resulta da forma de contar os votos. O sistema “um homem, um voto” não reflecte  as opções do eleitorado!

-Estou a ver…é como no Sporting!- ripostou o Chico da barbearia, com ar de entendido

-Mais ou menos….-sorriu o professor, sem o querer desmentir, a cabeça do Chico já estava confusa. Era preciso é que não fosse o Sócrates:

 -Esse, nem que a vaca tussa! -elevava a voz, irritado. O professor, ante os inesperados alunos concluiu, rasurando o toalhete:

-O ideal seria que cada votante ordenasse os candidatos por ordem de preferência. Se há 3 candidatos, o primeiro, por exemplo, receberia 2 pontos, o segundo 1 e o terceiro 0. No final somavam-se os pontos e ganhava quem tivesse mais. É mais justo, pois reflecte todas as opções dos eleitores e não apenas uma, a primeira. No exemplo dado, Portas teria 150 pontos, Passos 110 e Sócrates 100. Cambalhota: o vencedor, pelo outro sistema, agora ficava  em último!

-E já que se fala em democracia representativa, nada como aproximar os resultados das opções das pessoas - concordava o Horácio.

-No fundo, é o sistema do Festival da Canção… - rematava professoral o Chico.

Duma mesa do canto, o velho Albuquerque, anarquista empedernido, metendo-se na conversa, rematou, sentenciando:

-Escrevam mas é o que lhe digo: Se o voto é a arma do povo, não votem, que ficam desarmados! O resultado das eleições vai ser FMI- 120. Mais o juro de 5%. Ganham o primeiro, o segundo e o terceiro, e até o Euromilhões….

-Pois…-suspirava o professor Lopes -aí o problema é que eles já são donos da urna…


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:19

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