por F. Morais Gomes

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Abr 11

Ruidosos, os gregos não se calavam desde que o avião saíra de Lisboa, a maioria, de Salónica, viera a um encontro de jovens, foi um alívio a chegada a Atenas.

Com o subsídio desse ano, Pedro e Teresa decidiram-se por um cruzeiro nas ilhas gregas, apelativos flyers com imagens de águas azul turquesa e sol regenerador, decidiram-lhes a pausa que amenizaria um difícil ano na vida conjugal. Desenganada pelo obstetra quanto a vir a ter filhos, depois de um aborto de risco, a viagem era o bálsamo ideal para elevar o astral e trazer solidez ao casamento, agora periclitante, pela rotina instalada que a chegada desse filho quebraria. Três dias em Atenas e embarque no Triton, para uma semana de sonho e evasão.

Atenas tinha uma luz forte, mediterrânica, a crise passava por aqui, via-se pelos cartazes de apartamentos para vender e pelo comércio anémico na outrora trepidante Praça do Syntagma. A contestação sentia-se nas conversas de café e nos grafittis nas paredes, contra o tenebroso FMI, exorcizado carrasco dos gregos. Pedro e Teresa queriam abstrair de problemas, centraram-se nas pequenas férias e assim subiram à Acrópole e tomaram sol e café turco nas esplanadas da Plaka, invariavelmente animadas pelo som do santouri ou música do Peloponeso. Teresa conservava um sorriso tristonho, órfã dos filhos de que não seria mãe, Afrodite das Mercês cortejada pelo seu Adónis, belo ainda, como nos tempos do liceu, mas já com uma ligeira barriga, reforçada pela cerveja…

Três dias depois, sob um azul olímpico, entre a parafernália de paquetes que quais cachalotes adornavam o Pireu, lá embarcaram no Triton. Velhinhas americanas, empresários argentinos, alemães e espanhóis, até um grupo de Gondomar, a Babel flutuante  lá arrancou com três mil almas para a sua odisseia sem Ulisses e se possível sem Ciclope ou Poseídon. As águas do Egeu prenunciavam-se calmas, a convidar a piscina e gin tonic ao fim da tarde, tempo para um doméstico Titanic, sem naufrágio claro, que não estava no bilhete….

A bordo a vida era suave, condomínio de férias, trabalho apenas com as trocas de roupa: de manhã, piscina e sol, pela tarde, idas a terra, grutas e compras, para Pedro umas fresquinhas na esplanada mais perto, Agamenón e Péricles despachados para o Canal História no regresso; à noite as soirées dançantes e o cancan no palco central, onde generosos criados distribuíam  caviar ao som de Tom Jones e Sinatra.

Antes de Rhodes, a ilha de Mykonos. Depois de uns sustos com ondulação atrevida que aliviara a alguns japoneses o almoço pelo convés do navio, a visita, três horas em terra. Mykonos foi o local da batalha entre Zeus e os Gigantes e recebeu nome do filho de Apolo, despejava um guia grego num portunhol razoável. Teresa, enjoada preferiu ficar a bordo, só Pedro com a inseparável Canon decidiu baixar a terra. Na falta de cais de atracagem, o transbordo era feito em lanchas, em grupos de vinte, duas faziam o vaivém para a ilha branca, recortada por moinhos e apinhada de estivais alemães e dolentes pelicanos. Ao descer para a lancha, uma loura, vinte anos, temendo tombar, agarrou a mão de Pedro, que a segurou, forte e quente. Agradeceu, já sentada, cordial apresentou-se:

-Hi, i’m Sandy. From Chicago, Illinois.

-Hi. I’m from Portugal. Pedro- saudou, despertado pelo calor da mão quente e olhos azuis celestes. –Now you’re save!

A conversa ficou por ali, em terra dispersaram-se, trocando olhares, e erraram as três horas de soltura entre os bazares e cafés onde sempre serviam ouzo, anizado inimigo de fígados mais sensíveis. No regresso a bordo não a tornou a ver, não seguiu no mesmo grupo. Na cabine, Teresa, melancólica, ouvia música, apetecera isolar-se. Pedro beijou-a e recostou-se na cama, pensando na americana. Estaria sozinha? Seria solteira?

À noite, azul e branca, cores gregas e a exigir indumentária nesses tons, foi o jantar de gala, com comandante e discurso, e a orquestra fluindo, como nos filmes, pensava Pedro. Teresa recolheu cedo, com enxaqueca, ele, respirando o ambiente, selecto e festivo, saiu até ao convés, ao fundo pequenas luzes já denunciavam Rhodes, etapa da manhã seguinte. O céu estava estrelado e limpo. Respirando o ar quente e salgado, suspirou, fumando um cigarro, as coisas com Teresa haveriam de melhorar, uma adopção, quem sabe, ou outra opinião, talvez o obstetra se enganasse. Não longe da proa, pressentiu um vulto de mulher, vestida para festa. Loura, alta, ao virar-se reconheceu a americana da tarde, vistosa, um rimmel que lhe salientava o azul celeste dos olhos, perfume sensual, qual sereia invasora e chamativa.

-Pedro!- chamou alegre, pousando a flûte. -Grande noite, não acha? São noites assim que dão sentido ao amor, à liberdade…

-Sim…- Pedro concordava, apesar das férias o ar taciturno e absorto de Teresa ainda não propiciara grandes momentos entre eles, desde o aborto que não faziam amor, receosos. –Já viu lá ao fundo o farol de….

Antes que concluísse, os lábios dela colavam-se aos seus e o corpo dela febril invadia-o, felino e ofegante, amazona dos mares capturando um ocasional Ulisses, apartado da chorosa Penélope, qual Circe, mágica e envolvente. Resguardados pela noite rasgando as ondas, amaram-se, irracionais e suados, longe de tudo e onde tudo é possível. Terminado, ela colocou o dedo no lábio e molhado tocou-o no dele, sumindo como surgira, escapadela consumada em reinos de Poséidon.

Nos dias seguintes, Rhodes pareceu-lhe fabuloso, Kusadasi, na costa turca, exótico ninho de piratas, excitado, Pedro a todos saudava, a bordo e em terra. Teresa, na cabine, continuava abúlica e distante.

No último dia, já com o Triton de regresso a Atenas, levou-a ao convés, depois da ceia, detendo-se perto do local onde dois dias antes se envolvera enlouquecido com a etérea Sandy. Agarrando a mão de Teresa, beijou-a, os lábios e a testa, sacando uma flor sorrupiada no jantar de gala, afagou-lhe o cabelo, e olhou-a nos olhos, humedecidos:

-Amor, os médicos têm manuais, mas cabe-nos provar-lhes estarem errados. Vamos tentar…?

Teresa sorriu, hesitando, o temor já cedendo à esperança. O intenso brilho da lua, cheia e magnetizante, lançou-a nos braços de Pedro, apaixonada e rendida, o barco do amor, infalível testemunha de paixões dolente rasgava a noite, logo o dia raiaria renovado e esperançoso.

                                                           


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:43

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