por F. Morais Gomes

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Abr 11

Julho de 1966.Mais uma temporada em Galamares, três horas desde Lisboa, previsível Verão para idas a banhos com toldo ao mês na Praia das Maçãs. No café do Alcino, voltavam as tertúlias ao serão, os mais novos deambulando entre os matraquilhos ao “perde paga” e a jukebox que lá levava os sons de fora, para gáudio dos mais novos: the Animals, Bob Dylan, The Beatles, Neil Young.

Ao Alcino, magro, óculos grossos, dono da esplanada, nada escapava. Além da pensão que explorava no anexo do café, vendia bebidas no Salão em dias de cinema, nesse ano de Mundial apostara mesmo numa televisão, das primeiras em Galamares, onde a troco de módicos dez tostões se poderia aplaudir ao vivo a magia do Pantera Negra e a epopeia dos magriços que gloriosos  infligiriam novas Aljubarrotas, rematando com o pé que lhes viesse mais à mão. A ligação à Eurovisão nem sempre era fácil, mas por milagre lá surgia, saudada por palmas de alívio.

Como em muitos verões de casa da Sanfanha, José Gomes Ferreira lá poisava, para o seu café e passeio matinal, apreciando o fresco da esplanada, sempre escrevinhando nos toalhetes de papel. O Mário Dionísio agora já não vinha, deixara a casa do Zé da Quinta, no Torrado. Terminara mais umas legendas para a Tóbis, a Imitação dos Dias saíra do prelo recentemente, atento, ia acrescentando poemas novos ao seu diário em verso, militante poeta fixado no futuro.

Galamares era um pequeno mundo. No salão, provisório cinema aos fins de de semana, a cinco escudos dois filmes, a solene abertura dos filmes Castello Lopes convidava ao silêncio sepulcral que antecedia a magia do Technicolor. Lá passaram o Spartacus, o Ben-Hur, os 12 Indomáveis Patifes, o Cantiflas ou o Fernandel, no final comiam-se nozes douradas na Leopoldina, guloso e secreto poema ao açúcar. Tudo corria sem pressas. Os mais novos apanhavam pirilampos à noite e pássaros de dia, sazonais vítimas de traquinas  predadores de calções alternando entre  a fisga certeira  e o visco traiçoeiro. E eram os rajás de pau, os palinos, a colecção de cromos. Um microcosmos de senhores doutores e seus meninos, gentes do campo e veraneantes sazonais num lugarejo ladeando a estrada com uma miríade de pequenas pensões e quartos alugados, a apanhar os “ares” de Galamares que os médicos aconselhavam como receita.

José Gomes tinha por perto o Rui Grácio, e o Keil do Amaral, no Banzão. O Salazar ainda mexia, a águas no Vimeiro, por ora tempo de esquecer a política, saboreando o Verão, as tardes descansando no «hamac» de lona preso à árvore e a ler na casa da Sanfanha.

O Café do Alcino era, porém, o local da peregrinação diária, depois do almoço e depois do jantar, para beber café e conversar, enquanto os mais novos brincavam saltando o muro, por vezes fazendo apostas sobre quem adivinharia a marca do carro que primeiro surgisse na curva.

Naquela manhã, José Gomes chegou sozinho, a Mimisa serviu-lhe a bica na esplanada, deixando-o a observar as andorinhas no alpendre recuado, nos ninhos novas crias famintas reclamavam a comida que esvoaçantes mães traziam, num incessante peregrinar para cá e para lá. Na esplanada, a pequena Maria, filha do dr. Brandeiro, também ele veraneante, brincava com um hulla-hoop da moda, aquele senhor de cabelo comprido e esbranquiçado a escrever na mesa, em silêncio, despertou-lhe a atenção. Sentindo-se observado, o poeta falou-lhe, chamando-a:

-Olá!.... Como te chamas?

-Maria- respondeu, inocente, logo satisfazendo a curiosidade :- o que está a fazer? Os trabalhos da escola?

Homem de letras, porém já não dessas, sorriu, mas não desarmou:

-Sim, estou a fazer os trabalhos… mas vai levar muito tempo a acabar, o professor quer muitas letras, senão castiga…

Maria aproximou-se, do outro lado da estrada a mãe comprava alfaces ao azeiteiro ambulante que semanalmente batia as casas dos veraneantes a fazer negócio, a folha tinha gatafunhadas umas letras que não se entendiam, pareciam desenhos:

-Eu já sei a tabuada dos três…- vaidosa, confessou, abrindo três pequenos dedos a exemplificar.

José chamou a Mimisa e pediu-lhe um chupa, de morango, a mãe chegando das compras advertia-a que não incomodasse o senhor.

-Não faz mal….-amenizou - olha, estás a ver os meus trabalhos? Acho que vou fazer outros, de novo. Toma, ofereço-te, leva estes, é uma lembrança minha…

Maria levou o toalhete esbranquiçado e saiu, pela mão da mãe. Depois de pagar, José Gomes Ferreira continuou o seu passeio, o ar fresco das Cavalhadas pela manhã abriria o apetite para o almoço, como era domingo convidara o Lopes-Graça.

Já em casa, na Quinta do Cosme, Maria olhou o papel e guardou-o numa caixinha de madeira, dobrado, o eléctrico para a praia estava a passar e havia que despachar-se, o balde e a pá para as construções na areia já estavam no saco.

Vários sóis e luas passaram, a sépia virou cor, as televisões ganharam  canais, os toldos ao mês mudaram-se para o sul, substituídos por surfistas louros e meninas com telemóveis coloridos. Maria cresceu, tornou-se médica, e já adulta descobriu pela leitura a obra do senhor que um dia lhe pagara um chupa e dera a folha com os trabalhos de casa. Num dia de limpezas, no fundo de um baú guardado no sótão da velha casa encontrou a caixa com a folha, amarelecida, sorrindo, com emoção leu o conteúdo:

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão

a vê-lo correr

da imaginação

A seguir, tirei do bolso do colete

nuvens e estrelas

e estendi um tapete

de flores

a concebê-las


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:15

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