por F. Morais Gomes

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Abr 11

Uma vez mais, como todos os sábados, Alexandre e Tiago saíam para o passeio pela Serra, pedonal patrulha a carregar baterias. O ponto de encontro era no Café Paris, roupa fresca, botas  para o circuito, duas horas até à Azóia. Finalistas de História na Clássica, sábados eram  momento de evasão duma semana de cidade, de trânsito e de linha de Sintra.

 Naquele dia, já perto da Penha Verde, desviando-se dum carro fora de mão, Alexandre tropeçou rebolando alguns metros pela ravina parando num tojo de heras, meio escondido.

-Tudo bem contigo Alexandre? – Tiago, que seguia à frente, mal se apercebeu da queda do amigo tal a rapidez e correu a ajudá-lo.

-Grande safardana! Viste a matrícula do tipo? –levantando-se, irritado e dorido, Alexandre  sacudiu as folhas secas que se lhe agarraram às calças.

-Não, foi muito em cima da curva. Algum paspalhão que tirou a carta na farinha Amparo…

Alexandre,  acto contínuo, tropeçou num ferro saliente disfarçado entre as ervas, uma  espécie de pega encrostada numa grossa pedra  que ameaçava tombar. Afastou as folhas, e revolvendo a terra, descortinou o que parecia uma porta ou uma entrada:

-Que é isto? Parece a tampa de uma fossa!

-Não sei…vou puxar….Ajuda aí!

Aberta a tampa, de imediato um enorme sardão verde emergiu do escuro, escapando-se assustado entre as pernas de Tiago e deixando a descoberto um túnel escuro, estreito e intrigante.

-Que é isto? Parece uma gruta... - aquele sábado prometia ser o dia de todos os insólitos.

-Deixa-me espreitar…- Tiago, atraído pela curiosidade explorava o seu lado Indiana Jones-  tens aí um isqueiro?

Guiados pela pequena chama, entraram, o túnel parecia comprido, exalando um cheiro a enxofre. Vinte metros à frente, um mosaico escurecido e tapado pelo musgo ilustrava o que parecia uma cabra com asas num corpo de humano, meio homem meio mulher.

-Que coisa  mais estranha! Que será isto aqui?

-Tem umas letras  em baixo, mas é um dialecto esquisito. A  imagem não me é estranha, já vi isto num lado qualquer…-comentou Alexandre, intrigado. A um estalar de dedos logo a memória se lhe acendeu:

-Já sei! Vi uma imagem parecida com esta num filme do canal História. É uma representação do Diabo, tal como era visto na Idade Média. Já ouviste falar em Baphomet? É assim que os livros o representam, pelo menos o Eliphas Levi, não leste o José Mattoso?

Alexandre passou a explicar, lembrava agora as aulas de Medieval:

-A história do Baphomet está relacionada com a Ordem dos Templários. Uma das razões para Filipe o Belo extinguir a Ordem, em 1307, foi por adorarem o diabo representado por uma cabeça com chifres a que   chamavam Baphomet, bem como por cuspirem na cruz, e terem práticas homossexuais, dizia-se. Aliás é por causa dessa figura que ainda hoje se fala em bode expiatório, quando se quer desculpa para algo sem razão de ser

-Mas qual a razão da imagem neste local?..-questionou Tiago. Queres andar mais para a frente?

Alexandre, interessado em esoterismo, ofegante e caminhando na escuridão, ia narrando o que sabia da perturbante figura:

-O símbolo do Baphomet é fálico, possui seios de mulher e o pénis é  representado por um caduceu, estás a ver aqui. É  um tipo de simbologia que aparece frequentemente na alquimia.

O túnel parecia infinito e o isqueiro já fraquejava. A certo ponto, decidiram voltar para trás, nada mais parecia haver ali. Nem cinco metros tinham andado, quando uma figura de barba grisalha  e capa branca, com uma cruz obnubilada ao centro, vinda não se sabe de onde se lhes deparou, travando a retirada.

-Quem é você? - gaguejou Alexandre, incrédulo, pensando estar a viver um inesperado filme de aventuras.

-Quem ousa penetrar no Reino do Nosso Senhor Baphomet?- trovejou o intruso, parecia um cavaleiro, irritado e com os olhos faíscando, erguendo a espada na sua direcção.

Os dois ficaram estarrecidos. Reino de Baphomet?

A figura esticou a mão e mandou-os seguir à frente dele. Contrariados, mas sem reacção e atónitos, foram conduzidos a uma cripta onde, ao centro, duas imponentes colunas em pedra sobressaíam cobertas por um tojo de heras, um archote iluminava tenuemente, o aspecto era de há muito estar abandonado.

-Nosso amo Baphomet erguerá o seu chicote para vos castigar, intrusos! -continuou a figura, ameaçadora.

Vinda de cima, a súbita voz de uma imagem meio holográfica e igual à do mosaico falou aos  incautos passeantes de sábado:

-Estrangeiros, como ousaram entrar no Reino de Baal?- trovejou a aparição. Por esta impertinência, acabam de atrair a fúria de Baphomet!- e sem os deixar falar, lançou-lhes uma maldição:

Por esta ousadia, sereis castigados, e sobre vossa terra,  noite e morte espalharão seus frutos. Virão dez anos de cataclismos posto o que  os Companheiros de Baal sairão da  caverna e dominarão triunfantes!  E esfumou-se, tal como aparecera.

Já o obediente guardião se apressava a pôr termo aos dois a golpe de lâmina, quando um vulto alto e esguio surgiu dum corredor lateral, num traje medieval, de barba escura e espada na mão:

 -Em sentido,  infame! -gritou, na direcção do guerreiro. E manobrando a espada, sem que o outro surpreso pudesse reagir, cortou-lhe cerce e dum só golpe a cabeça hirsuta. Os dois amigos mal acreditavam no que estavam a assistir, ignorando quando acordariam do pesadelo.

De espada desembainhada, virou-se na direcção dos dois, e já eles pensavam ser o fim dos seus dias quando fez sinal para que ficassem tranquilos.

-Não temais, jovens. Eu sou D. João de Castro, vice-rei da Índia e  senhor da  Quinta da Penha Verde! -anunciou, com ar teatral, deixando os rapazes ainda mais atónitos. -Quando voltei do Oriente, onde servi nosso rei  D. Manuel, trouxe comigo diversos artefactos oferecidos pelo rei de Bisnaga. Só anos depois descobri entre eles o pentagrama de Baphomet, que, em contacto com o Sol, acordou o chifrudo do sono em que repousava. Foi assim que o descobri em tempos, fantasma em meus domínios -explicou, conformado.

-D.João de Castro? M..ma..mas o senhor está morto há muito! -gaguejou Tiago, cada vez mais baralhado.

-Não haja perguntas onde não pode haver respostas…- atalhou, enigmático, guardando a espada e sumindo na penumbra do túnel, na cripta só o silêncio e o cheiro a enxofre sobravam depois daquelas cenas inacreditáveis.

Alexandre e Tiago, pálidos de tanta emoção,  correram para o exterior, quase cegando ao  súbito contacto com a claridade da serra, galgando a estrada, sem olhar para trás, lívidos correram até poder deixando na neblina silenciosa a quinta dum vice-rei  que ali penava  lutando contra o Mal. Já na Adega das Caves, pediram whiskies duplos, que emborcaram dum  trago. Nos túneis da Penha Verde, o Reino do Baphomet voltava a ficar silencioso. Até quando?

                

publicado por Fernando Morais Gomes às 09:01

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