por F. Morais Gomes

15
Abr 11

Fazia tempos que o filho de Jor-El chegara à Terra, único sobrevivente da explosão do planeta Krypton, a nave que o transportara aterrara num sítio chamado Portugal no ano 1989 ET (Era da Terra). Ao contrário de Krypton, este era um planeta verde, dominado por largas porções de água, o pai de Kar-El escolhera-o antes de morrer por seguramente aí  não haver kriptonite, o único obstáculo que poderia enfraquecer e  destruir Kar-El fora do planeta. Nesse local, num berço o encontraram Alice e Jaime, professores e residentes num local chamado Azenhas. Aí cresceu, com os terráqueos, com o nome de Pedro, só aos três anos descobrindo os poderes sobrenaturais que faziam dele um Super- Homem. Um sonho em que o pai lhe aparecera, porém, alertara-o para jamais desvendar a identidade aos terráqueos, e para os perigos da kriptonite.

Já adulto tornou-se repórter no Sintra Canal, usando os poderes sobrenaturais só em prol do bem, como nesse sonho igualmente prometera ao pai. Aí conheceu Luísa, locutora e jornalista, namorada ao fim de algum tempo, e João, o cameraman dos directos, fiéis amigos dentro e fora dos estúdios.

Os poderes sobrenaturais provinham do Sol da Terra, amarelo. O sol de Krypton era vermelho, a diferente frequência electromagnética entre  os sóis fez com que as células de Kar-El fossem carregadas como autênticas baterias vivas, enrijando-lhe os músculos e permitindo-lhe voar graças à diferença de gravidade e dotando-o de super-poderes: visão de raio-X, visão telescópica, super sopro ou sopro de gelo. Discreto repórter durante o dia, sempre que a sua hipersensibilidade detectava anomalias acorria a evitar as catástrofes, impedindo-as ou reduzindo-lhes o impacto, sem que ninguém o houvesse visto como Pedro ou desconfiasse da sua identidade, bombeiros houve que narraram ter algumas vezes observado um pássaro estranho, mas nunca o jovem de fato azul e capa desfraldada se dera a conhecer. Fora ele quem com um só sopro apagara fogos na serra de Sintra, e mais de uma vez desviara ameaçadoras ondas que prenunciavam tsunamis na costa portuguesa. Inclusive uma bomba na Ponte sobre o Tejo neutralizara, avisado pelos apurados sensores.

Sem que suspeitasse, Alex, também repórter no Sintra Canal  há muito o invejava e disputava Luísa, um dia descobriu-lhe a identidade secreta, um copo com o adoptivo pai Jaime e toda a verdade foi desvendada. Bem suspeitara dos desaparecimentos quando menos convinha e da existência duma vida dupla. Para o destruir e conquistar Luísa só para si, urgia porém encontrar kriptonite, o poderoso inimigo do Super-Homem.

A kriptonite era uma rocha formada por fragmentos radioactivos de Krypton, causadora de mutações imprevisíveis a nível físico e mental: podia alterar as emoções do Super-Homem, torná-lo amnésico ou agressivo e fazê-lo perder a vulnerabilidade ao seu contacto. Os efeitos duravam de 24 a 48 horas, o suficiente para  o aniquilar e destruir.

Com a ajuda do Fiolhais, um geólogo amigo, conseguiu localizar um minério semelhante algures nas minas da Panasqueira. Havia porém que montar a cilada que o obrigasse a usar os poderes. Toldado pelo ódio, decidiu armadilhar a barragem de Castelo de Bode. Uma chamada anónima para os jornais anunciava que a 15 de Abril de 2011 ET, pela noite, uma bomba-relógio destruiria a barragem, submergindo as localidades até Lisboa, num Armagedeon de efeitos devastadores.

Guilherme, o director do Sintra Canal enviou Pedro e Luísa a cobrir a situação, no local a Protecção Civil fazia buscas, indicações iam sendo dadas por Alex em chamadas para cabines públicas e a conta-gotas, atraindo os ratos para a ratoeira, seguindo o plano maquiavélico, enquanto o relógio fazia a contagem decrescente para a explosão. No local para fazer a reportagem, o Super-Homem detectou os explosivos, via-os mentalmente, havia que inventar algo e fazer Pedro desaparecer o tempo necessário para salvar a cidade. Lá se iria a reportagem sensação mas um bem maior se salvaria.

Voando célere sobre a barragem, já como Super-Homem, ao visualizar os explosivos, aproximou-se, para destruí-los. Eis senão quando a silhueta de Alex, calvo e de óculos escuros, lhe surgiu por trás, na ponta do paredão:

-Bem vindo Super -Homem. Ou deverei chamar-te Pedro, coleguinha?...

-Alex! Que queres tu fazer? Enlouqueceste?

-Sim, herói de trazer por casa. Enlouqueci ao ponto de te propiciar uma viagem. Mas só de ida! Ah! Ah! Ah!- soltou, dando estridentes gargalhadas abafadas pelo som das descargas da barragem.

-Desiste, vais destruir-te! Vou desactivar os explosivos e nada poderás fazer! É uma loucura!

-Será, super-idiota?- soltando uma risada cínica sacou do bolso um fragmento de kriptonite, levantando-o na direcção do Super-Homem. Surpreso primeiro, este  de imediato  ficou com as pernas dormentes e a visão distorcida, e, cambaleante, teve de se agarrar ao paredão para não cair desamparado. Alex, desfrutando a cena, provocava:

-Então, Super-Homem? Porque não salvas o mundo agora, tens dores de cabeça? É o teu fim, fanfarrão, a Luísa será minha e não de nenhum pássaro com colants idiotas!

Já se preparava para empurrar o fragilizado herói quando por trás lhe surgiu Luísa:

-Alex! Deixa-o! Não vales nada! Nunca me terás, e agora ainda menos!

Ao vê-la, Alex mudou o fácies, ela era tudo para ele, paixão de adolescência nunca correspondida:

-Luísa, eu amo-te. Só eu te posso fazer feliz!- Alex, suplicante, ensaiava abraçá-la, por ela havia engendrado tudo aquilo.

-Enlouqueceste de vez, Alex?- Luísa repeliu-o com um empurrão, ao empurrá-lo, ele desamparou-se e caiu gritando do alto do paredão, levando consigo o fragmento de kriptonite. Recuperando as forças, o Super Homem lançou-se atrás dele, super-sónico, salvando-o da morte certa, logo voando a neutralizar os explosivos no último segundo. Deitando um olhar cúmplice a Luísa, que nele não reconheceu Pedro, sumiu, Lisboa estava salva, havia que voltar a ser jornalista, para todos os efeitos retido na casa de banho, indisposto.

Mais tarde, na redacção do Sintra Canal, Guilherme saudava Pedro e Luísa pela reportagem, João filmara tudo, um “furo”, passara até na CNN. Pena a prisão de Alex, até parecia atinado. Revendo as imagens, comentava com os dois repórteres:

-Grande Super-Homem! Enquanto estiver por perto a cidade pode dormir descansada. Nada nem ninguém nos pode fazer mal!

Da sala da régie interrompiam entretanto, havia que emitir em directo uma conferência de imprensa, os tipos do FMI iam anunciar as medidas  do resgate de Portugal. Guilherme, mudando a expressão, encolheu os ombros, conformado:

-Já falei de mais. Eis algo que nem o Super-Homem pode resolver…


publicado por Fernando Morais Gomes às 02:09

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