por F. Morais Gomes

16
Abr 11

Alfredo Regaleira ganhara as autárquicas de 2017 pelo Partido dos Verdadeiros Sintrenses, criado após o resgate do FMI  de 2011 e formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora administrador de empresas municipais, vereador e suplente na distrital. Depois da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o  recurso foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima  presidente da Câmara de Sintra para um mandato de quatro anos.

Era uma pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as  associações  ou recebia os munícipes, o Orçamento  pautava-se por cortes cegos, ferrenho adepto  do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade a partir da retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos serviços, controladas pela Presidência, aconselhavam prudência. Ivone, a secretária, detestava-o, sempre carrancudo, sorriso de plástico apenas para televisão ver, mal cumprimentava as pessoas. Implicara até com o retrato da filha que tinha na secretária, familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos grupos culturais e associações que lhe pediam apoio, despachava sem contemplação, "não há dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a um transplante de medula enviara para o Querida Júlia, as pessoas são lamechas, desabafava entediado, haveriam de lançar um peditório. Divorciado e sem filhos, morava na Beloura com Sócrates, um labrador cachorro, e aí se isolava quando se livrava das aborrecidas cerimónias em infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças ranhosas e velhas sempre a queixar-se.

Uma noite já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro. Esfregou os olhos, seria produto de alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido, entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:

-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz metalizada. Sou eu, o Mário!

Atónito, reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e  antigo administrador da empresa municipal de educação, falecido meses antes num acidente não longe dali.

-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive no teu funeral! Que raio…

-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu um grilhão, pesado, parecia  uma cena de  thriller americano. -Venho avisar-te que ainda esta noite receberás três visitas a que deves estar muito atento.

-Mas…E antes que tivesse tempo de concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.

Chegou a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe surgiu no quarto. Sobressaltado, pensava já chamar a Policia quando o vulto o advertiu que não abrisse a boca.

-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!

Mal tivera tempo de reagir e  em pijama, já o vulto o levava voando nos céus de Sintra para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandys com casadoiras donzelas, na estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam. Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor, romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu  na cama, sentado e baralhado.

Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em que se achava, minutos depois, encostada ao frigorífico outra figura o aguardava já, um homem de fato escuro, fumando um cigarro e com um jornal debaixo do braço. Conformado, perguntou:

-Suponho que sejas Sintra do presente…

O vulto assentou com a cabeça, e de automóvel o levou por Sintra, deserta à noite, vários anos sem obras lançadas. Num lar de idosos na Portela racionava-se a luz por falta de verba, uma família de desempregados vasculhava caixotes buscando comida. Na Volta do Duche um jovem  fazia carjacking a um incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que  de perto.

De volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés, receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem desdentado, capuz na cabeça, dois piercings no lábio. Olhando-o, com desprezo fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na zona pedonal da Estefânea, na Vila, no sítio da Piriquita surgira uma loja chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra. Na Volta do Duche alinhavam-se contentores onde encavalitadas moravam famílias sem tecto depois dos despejos  por si ordenados. A pequena Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio,  o jovem dos piercings apontou-lhe uma lápide grafitada. Aí se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2018”,  descontraído um cachorro urinava em cima. Estarreceu, com suores frios.

Mal refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.

Vestiu-se num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente, distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou na Odete Florista a comprar um bouquet  para a Ivone, a quem entregou com um beijo na mão;

-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena, a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director dos assuntos sociais, é urgente. Ah,  nunca lhe disse que o seu penteado é muito charmoso?

Ivone hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa ante o piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.

Daí em diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade, criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta.

À cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada, brinca com o labrador, está sempre um mágico livro da autoria de Charles Dickens…

publicado por Fernando Morais Gomes às 05:29

Muito bem escrito! Mas, a realidade é que o dinheiro acabou; os artistas vão ter de usar ainda mais da imaginação e a sua criatividade se quiserem continuar a trabalhar. Muitas das associações vão ter de arranjar alguma coisa para "dar" e ou "dizer". Como diz o povo "quem tem unhas é que toca guitarra", eu acrescento: têm de ter guitarra e saber música! O dinheiro fácil acabou é preciso repensar estratégias culturais, objectivos e novos públicos. A Cultura voltou novamente ao antigo patamar, para trás fica as "indústrias" da cultura. Em Portugal a cultura vai fazer-se com o "coração", na base de um amadorismo, salutar, porque quem fica fica mesmo por "amor", quando amamos aquilo que se faz, somos mais de que "profissionais" .
rui oliveira a 16 de Abril de 2011 às 23:09

Concordo. Poucos e amadores, mas dedicados a uma causa, e realizados pelo pouco (...muito...) que farão. E o público - o fiel, o verdadeiro apreciador da cultura, o que realmente interessa (não porque dá dinheiro, mas apoia e reconhece o valor do trabalho produzido) - estará sempre lá...
Daniela Colaço a 28 de Abril de 2011 às 12:43

A minha saudação ao Fernando Morais Gomes por este texto.

Permitam que pegue - apenas - numa parte do comentário de Rui Oliveira no que concerne a "o dinheiro acabou". Apenas...porque recomendo que estude onde ele tem sido aplicado.

Não mentiras que calem o pouco que se consegue saber.

Na verdade, quem se dê ao trabalho de consultar - apenas - o que é divulgado como Deliberações Camarárias, poderá avaliar por defeito onde são feitas as aplicações.

Porque as tenho lido, porque tenho abordado algumas das "distribuições" do nosso dinheiro, que deveria ser para o desenvolvimento colectivo, em 2010 esses valores passaram a ser quase sempre omitidos: divulgam-se as Deliberações mas não se indicam os valores.

Chegou a altura de inverter tudo isto de uma vez por todas. Procurar e escolher, se tanto fora do quadro partidário viciado, uma figura sintrense, cá de dentro e não de fora (por cá investem carreiras políticas, para nos abandonarem logo que possam) que se comprometa em levar-nos por outros e melhores caminhos.

Este seu texto, amigo Fernando, é um bom alerta, é preciso quem lhe pegue.

Um abraço,

Fernando Castelo


Fernando Castelo a 24 de Dezembro de 2011 às 10:18

Abril 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


21
23

26
28


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO