por F. Morais Gomes

17
Abr 11

O nº10 do Largo da Abegoaria fora o local acertado. Sem espectáculos por esses dias, seria no salão do Casino Lisbonense que se efectuariam as conferências, Antero, o impulsionador, se encarregara com Batalha Reis de alugar o espaço. A ideia das palestras surgira em reuniões na Rua dos Prazeres, e fora amplamente divulgada no "Revolução de Setembro".A 18 de Maio foi divulgado o manifesto, já antes distribuído em prospectos, e assinado pelos nomes principais. Urgia preparar as consciências para o progresso das sociedades e resultados da ciência, dizia-se. Eça de Queirós, Salomão Saragga, Lobo de Moura, Manuel de Arriaga, José Fontana, o próprio Antero, eram entusiastas. No programa, podia ler-se: "não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações."

Herdeiros da Questão Coimbrã, quatro dias apenas depois dos eventos da Comuna, em Paris, desassombrados, os membros do Cenáculo propunham-se acordar Lisboa. No dia da palestra de Antero, antes do início, Oliveira Martins pleiteava com Eça no foyer, repleto de gente, e polícias também:

-Tens toda a razão, José Maria. A arte, nas sociedades, encontra-se ligada ao  seu progresso e decadência. O artista, meu amigo, encontra-se sob  influência do meio, do estado dos espíritos. Hoje acho que a arte deve obedecer às ideias da sociedade conduzindo à harmonização entre ela e os ideais sociais. Isso concilia o determinismo de Taine e o princípio moral de Proudhon, defende o papel social do artista e a utilidade da sua arte. Eça concordava, comentando com um grupo:

-Creio que só o realismo é a base filosófica para as concepções do espírito, na região do belo, do bom e do justo, deixando de ser um simples modo de expor. Isso não é realismo, é o seu falseamento! O realismo é outra coisa, é a negação da arte pela arte. É a abolição da retórica, essa  inchação do período, epilepsia da palavra e congestão dos tropos. O romantismo é a apoteose do sentimento, o realismo é a anatomia do carácter! -o bigode, retorcido, acompanhava o discurso, nada epiléptico ou congestionado…

A imprensa, em particular o “Revolução de Setembro” cobria a palestra de Antero, bastante aguardada, o açoriano dera brado em Coimbra e guardas municipais, alertados da existência de propaganda subversiva pontificavam na assistência. O Marquês de Ávila e Bolama, presidente do ministério mandara observar, um tal Proudhon, até ver, estaria implicado, escrevia um intendente, zeloso, muito ouvira esse nome na sala.

Provocador, Antero atacou como fera em Roma, a assistência fazia silêncio, iria falar sobre a decadência dos povos ibéricos. Eça, a um canto, endireitava o monóculo, atento e mordaz.

-Meus senhores! Muitos se perguntam porque as grandes nações ibéricas enfrentam hoje o crepúsculo da História. Explicações há. A primeira é a Contra-Reforma e a Inquisição, que desvirtuaram a essência do Cristianismo, conduzindo à atrofia da consciência; de seguida, a Monarquia Absoluta que conduz à  ruína das liberdades sociais levando a raça ibérica a uma cega submissão; por fim, o desenvolvimento das conquistas ultramarinas, que exauriram as energias do país, levando à criação de hábitos de grandeza e ociosidade e conduzindo ao esvaziamento de uma nação pequena, substituindo o trabalho agrícola pela procura de riqueza, a disciplina pelo risco, o trabalho pela aventura! - José Fontana, sublinhava com a cabeça, o que era preciso era reagir, atrasado, Teófilo Braga juntava-se a Eça, de pé a um canto. Tomando água, com a assistência em silêncio, Antero continuou:

 -Oponhamos ao catolicismo a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a filosofia, a ciência e a crença no progresso, na renovação incessante da humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. Oponhamos à monarquia centralizada a federação republicana dos grupos autonómicos, de todas as vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal. À inércia industrial oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo, pelo povo, e para o povo, não dirigida e protegida pelo Estado mas espontânea organizada de  maneira solidária e equitativa.

O tom anti-monárquico foi o copo de água entornado, um bruà soou entre alguns. Sendo um casino, os dados estavam lançados, na Brasileira não se falou de outra coisa na manhã seguinte.

 A 5 de Junho Augusto Soromenho ainda discursou sobre a literatura portuguesa, empolgado com Chateaubriand, a 19, Adolfo Coelho arrasou o ensino em Portugal. Quando a fechar Salomão Saragga se preparava para falar sobre a "História Crítica de Jesus", o Governo por portaria mandou encerrar o Casino Lisbonense, proibindo as Conferências e invocando que os conferencistas sustentavam doutrinas contra a religião e as instituições políticas do Estado.

Indignado, nesse mesmo dia Antero redigiu um protesto no café Central, havia ali mão de Castilho, seu inimigo desde Coimbra, por certo. Eça, erguendo a bengala, foi cáustico contra o Governo:  

- Esta foi a primeira vez que a revolução sob a sua forma científica teve em Portugal a palavra. Também com a palavra se dão bengaladas, caro Antero!

A Comuna de Paris não passou do Chiado naquele Verão de 1871, mas as ideias do Progresso sopraram no Bairro Alto, culminando as revoluções entre a Brasileira e a Casa Havaneza, sem sangue derramado ou na força das baionetas mas temperadas por charutos de importação e finos tintos de Colares.

Casino Lisbonense, hoje desaparecido

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:20

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