por F. Morais Gomes

18
Abr 11

Na singela gruta açoitada pelo vento perto dos Capuchos, Frei Honório esperava o fim, seco de carnes, noventa anos já penados. Solitário vinte deles, sábias reflexões deixava escapar em letras que um dia quando a carne consumida fosse pelos vermes deixaria aos homens, testemunho da sua santidade e sacrifício. Sentado na pedra, ornada de musgo e heras, servo entre os servos, curvado pelos anos, escrevia a Deus e aos homens:  

“Pequei. Pequei muito. Em actos e palavras. Vai para dez anos que expio nesta gruta, neste singelo cárcere de minha alma e merecida prisão de meu fraco corpo. Quando a Deus me entreguei, humilde anacoreta, bafejado fui pela graça de perceber que era chegado o momento de mudar a minha peregrinação pelo mundo, que era a  hora de renunciar a tudo e não haveria retorno nessa jornada. Para receber a Deus, forçoso é pagar um soldo e o meu foi este: não mais ter nome, nada possuir, nada desejar senão servir a Deus, esvaziando o coração para nele dar lugar a Cristo. Se ser frade é duro, renunciando ao corpo e à vontade própria, mais difícil é para um simples pecador suportar o suplício dos dias que a um santo suportar o martírio ou a própria morte, pois tal se dá em espaço curto e fugaz. O martírio diário trás as torturas da mente, infortúnio que qualquer homem que o enfrente sem perder a pureza longe não andará das portas do Céu.

E mais o é  quando tem de atravessar a porta negra da alma que é a das tentações da carne e do demónio. Senhor, que por nosso bem mandas as tentações, faz cair sobre este mim os sofrimentos do mundo para poder sentir compaixão dos que se sentem atormentados por  provações. Várias vezes senti o demo rondando, sob forma de lavadeiras de alvas carnes ou  ruborescidas colarejas. Flagelando a carne reprimi a carne, quando não em corpo igualmente me assaltando a tentação em sonhos, enlouquecendo-me e  em desespero me conduzindo ao cadafalso da alma. Ninguém verdadeiramente pode fazer frente às insídias do chifrudo, nem extinguir o fogo incandescente da natureza, se a mercê da graça de Deus não proteger a fraqueza humana. Com o escudo da oração, aceito, Senhor, o flagelo que me enviastes, porque se ele propicia sofrimento  também almeja a salvação, se humilha também exalta, se pode levar à morte também salva, redentora, faz descer aos infernos mas fortalecido de lá sair.

Hoje compreendo que antes de desdenhar dos outros ou com soberba condená-los, é mister com humildade calçar suas sandálias e com elas trilhar os escolhos, para um dia, merecedor, com alegria calçar as do Pescador, protector de almas neste mar encapelado.

Desde que  me enviaste o Diabo e fraco de carne pequei, não mais abandonei este negrume, expiando, orando, só dos animais selvagens e das frágeis plantas fazendo irmãos. Capuchos misericordiosos me alcançam água e pão, mas em jejum expiarei meus pecados.

Aqui terminarei meus dias. Esta singela e nua gruta açoitada pelo vento norte será altar da minha redenção, nela meu corpo à terra tornará pacificada a alma e proclamada a alforria pelo desapego a riquezas e honrarias vãs. Maior honra é ser nobre de alma que tenente de almas perdidas em tempos de usura pelo metal e cobiça de mandar.

Já diversas vezes  aqui vi El-Rei caçando, e calcorreando esta serra. Uma raposa aflita aqui se abrigou um dia destes, acossada, pedindo clemência com os olhos. Acolhi-a, minha irmã da Serra, desatentos, os batedores do rei perderam-lhe o rasto. Várias vezes me visita agora e aqui descansa à noite, segura e cúmplice. A cobiça de El-Rei e dos grandes do Reino afastou-os de Deus, trilhando a estrada do mando e da luxúria. Por mais de uma vez ofereceu agasalho e alimento. Como desconhece o quanto estou agasalhado pelo calor da fé e  plenamente alimentado pela alma!

No dia que por certo marcaste já, Senhor, meu frágil corpo virás colher, aqui repousará até que pó torne a ser, raiz de vida nesta floresta em silêncio. Meu desejo, outro não é senão esse. Nestas serranias de Sintra fui tentado, nelas findarei meus dias em busca da salvação. A grandeza do Destino é feita daquilo de que se abdica e não daquilo que se obtém. Quem viver contente com nada, tudo terá. Infeliz o que julga estar  farto pois um dia terá fome!

Uma coisa aprendi, no eterno renovar dos dias e solitário silêncio das noites: julgamos nascer com duas mãos feitas para agarrar, porém jamais paramos para meditar quão bom seria se servissem sobretudo para abraçar.”

Aos cem anos, partiu enfim. Uma pequena raposa  se abriga às vezes na gruta, eterno refúgio na noite dos séculos.


publicado por Fernando Morais Gomes às 06:20

Fernando, uma pequena observação de um leitor diário: os franciscanos eram frades e não monges.

Parabéns por mais um belo texto.
RV
RS a 18 de Abril de 2011 às 10:06

Obrigado pelo reparo.Vou rectificar.

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