por F. Morais Gomes

19
Abr 11

Elise gostara do local, a Pena não, grande demais, seria tema de falatório, Maria Pia não perdoaria. Aquele recanto resguardado por ciclópicos penedos era perfeito, longe o suficiente para o recato procurado. Agora que a obra estava pronta havia que ajardinar, John Slade, o cunhado de Elise ajudaria, silvicultor experiente na América, já muito lhe falara em plantas do Japão e da Austrália para o local. Depois do casamento, Fernando apressara as obras, queria fugir das Necessidades, das irritantes tosses de S. Carlos e dos remoques de Luís, agora no trono. Lipipi crescera, largara o fato de marujo, depois do desaparecimento de Pedro, era agora rei de Portugal.

Planeara uma coisa pequena, o talhão doze parecia indicado, longe o suficiente da desmesura da Pena. Elise sugerira cortiça na fachada e acabamentos de alvenaria que recordassem as casas de Boston, pinturas de heras cobrindo as paredes. Gregório, o mestre-de-obras também dera sugestões, mas por si queria um chalé simples, rectangular no piso térreo e cruciforme no primeiro andar, com varandas ao estilo suíço. Logo de manhã, com Gregório, visitara a estrutura, já pronta, Elise, agora condessa d’Edla, no andar de cima,  vazio, rejubilava, antevendo os  acabamentos daquele ninho providencial. Entusiasmados, percorriam o primeiro andar, escolhendo cores e móveis e planeando a futura casa:

-Aqui podia ser o salão, eventualmente com uns troncos de hera em estuque desenhados e nervuras entrelaçando nas cornijas ramagens cobertas de folhas. Que me diz, Fernando? - Elise Hensler, a bem dizer, dividida entre tournées pela América e Europa, nunca desde que Boston a perdera, espalhando graciosidade por Paris e Milão voltara a ter uma casa que chamasse sua, até a de Lisboa era alugada -Acolá, o seu quarto, talvez com motivos árabes… O meu quarto será aqui em frente, e na escadaria…

-Na escadaria, proponho algo mais solene, as armas de Saxe e as de Portugal!- institucional, D. Fernando sempre a sublinhar coração e cérebro, nesta pátria agora sua - Tem ideias para o seu quarto, meu anjo? - de novo casado, o rei parecia vinte anos mais novo, cavaleiro andante atrás de sua donzela. Elise divagava,  pueril e feliz:

-Domingos sugeriu-me rendas nas paredes, sob um fundo rosa, talvez azul, o que lhe parece?

Fernando Saxe-Coburgo não ouvira o final da conversa, de Lisboa chegava agora o secretário, as árvores do Japão chegariam a tempo das plantações, na Primavera estariam adaptadas, Slade inspeccionaria uma a uma.

Sintra regida pela Lua encontrava nova sacerdotisa e seu altar, os troncos de hera na fachada do novo chalé bem podiam simbolizar  Ouro, Prata, Bronze e Ferro, comentara Kessler, ali daria largas ao espírito recolhendo-se com Fernando e suas canções, barítono animador de saraus com amigos, com as suas plantas, o seu piano, um mundo só deles.

Muito sucedera em dez anos desde que Fernando por ela se encantara. Fora em S. Carlos, em 1860, ela graciosa e frágil como pagem no “Baile de Máscaras” de Fraschini. Depois as visitas furtivas e cada vez mais frequentes ao 68 da R. dos Remédios. Pedro, jovem rei, percebera algo de estranho no pai, várias vezes o havia surpreendido chegando tarde ao palácio, qual jovem conquistador. A morte prematura de Pedro precipitou as coisas, ferido e só, apenas encontrava conforto no regaço da Hensler, cada vez mais por Lisboa e afastada das récitas. Disfarçada, chegou a levá-la em viagem como falsa esposa de Kessler, o médico ficara embaraçado mas não pudera dizer não ao amigo. Até que a 10 de Junho de 1869 surpreendeu, casando na capela da infanta Isabel, em Benfica, já Luís reinava. A pedido de Fernando, dias antes Ernesto de Saxe-Coburgo fizera condessa d’Edla a filha de Conrad Hensler, alfaiate de Boston. Nesse mesmo dia, na feteira da Pena, ao plantarem um eucalipto, perenes selaram a aliança dum sentido e tardio amor.

Alheios à corte de Lisboa, na Pena teriam uma corte só deles. Maria Pia com o seu feitio latino nunca a aceitaria como sogra, em S. Carlos de soslaio a olhavam os Pares do Reino, a rainha do palco não queriam  ver no palco rainha, astuta Messalina que por artimanhas levara à certa o rei velho e viúvo. Em Sintra encontrariam paz, entre primaveras floridas e os desenhos de Fernando, na Abegoaria preparariam os  chás, renovariam as plantas, reis da Floresta no altar da Cruz Alta.

-Elise, que me diz se ali puséssemos magnólias? - Fernando contemplava o imenso vale do alto dos rochedos frente à casa. Olhando-o de frente, mãos entrelaçadas, fez-lhe uma festa na testa e sorriu. Mirando de lá o chalé, quase terminado, a certeza duma chegada lhe ficava cada vez mais clara. Era aquele o lugar.


publicado por Fernando Morais Gomes às 09:26

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