por F. Morais Gomes

22
Abr 11

  Para ler escutando o vídeo

 

1-Introitus: Requiem aeternum

Petrificados plátanos saudavam o cortejo, miserere mei, seguia para a eterna noite, oh glórias vãs, poderes etéreos, interrompidas esperanças. Estão Giotto,Guariento,Vitale, a Sacra Via de  crucificados suplicantes à porta dos Céus, impotentes corpos  servidos em tarde pascal, chove nas almas, descansam os corpos, morri no dia em que se morre.

2-Kyrie

Confesso. Confesso que não vivi. Aqui vou, deitado, eu que já não sou, nós que não seremos, a Matilde chora por mim, agora preso neste corpo inerte, ah, um cipreste confortante, logo as almas sairão, fraternos patrulharemos angústias. E Deus, existirá? Ficarei sentado à direita? Faz frio, arrefece. Voltem, não vão já, não me deixem, egoístas, de volta às vossas mortes diárias. É apertada a urna, falta  o ar. Cheira a flores, flores de morte.

3- Diez irae

Inicio a viagem, Anúbis barqueiro em silêncio me leva, Matilde chora, bem vejo, porque levantarão o som, é o Inferno pela certa. E Jesus? Não está, regressou dos mortos, qual filme de Corman. São belos os quadros, perfumados, olha, Brunelleschi, Fra Angelico,Donatello, Masaccio. Renascimento lhe chamam, cenas de mortos porém. Quando parará a barca?

4.Tuba mirum

Chegamos ao cais, miserere mei, misere mei, disformes embuçados carregam meu caixão, será bom sinal? Vejo Matilde, acaricia-me em foto, porque não guiei devagar? É esquisita a morte, cheira a flores e cera. Dois homens riem naquela margem, chegaram agora, novos, discípulos do Cancêr, guerreiro da Morte.

5.Rex tremendae

Ergo-me do caixão, mandam que aguarde, à volta retábulos,dentro mortos, vivos, mortos-vivos, Van Eyck retoca um morto,e madonnas, muitas, florentinas, papais. Há vida também, caminhos para o Paraíso, olha a Vénus, Botticelli, Bellini, Verrochio. Os corpos estão desnudados, a mim desnudam também, pecador corpo suplicando um lugar. Sim, são cicatrizes, muitas, cataterismos, acidentes de mota, não foi por eles que cá estou.

Ei-lo,o Redentor, Altivo, Castigador. Existe! Afinal existe!. É como nos filmes, velho como o mundo. E agora, ajoelho, choro, que faço? Tirem-me daqui, quero jantar, quero os meus amigos, já sei, daqui a pouco vou acordar e rirei a bom rir. Não vejo a Matilde agora, está escuro, toda a luz  cai sobre o Velho.

7.Recordare

Sim, é verdade. Matei rolas, indefesas. Bati no Alcides,coitado. Pequei, pequei, pronto. Pecados mortais? Todos. Bem, todos não, nunca tive inveja  do Antunes, coitado, só do Porsche. E a mulher do Brás, foi ela que quis...

8. Confutatis

Abre-se uma porta ao fundo, estou nu e faz frio. Pronto, pronto, como queiram. Os quadros mais belos passam agora, olha o Bellini, Leonardo. O Leonardo, Deus meu, desculpa, Deus tu, é o paraíso por certo, com Leonardo só pode ser o paraíso, espreito ao fundo, parece Sintra, há castelos, e muitos anjos. Virarei anjo, sem sexo e alado? Quando a Matilde me vir...

9.Lacrimosa

Passa agora um filme. Sou eu, é a minha vida. Olha, a avó Chica, tão frágil, o Zézito, coitado, morreu em África. Olha a Matilde. Chora. O Velho nada diz, mas estuda-me, bem vejo. Deixem-me voltar, não sou daqui, minhas lágrimas nada valem? Onde está a caridade? Afastem de mim este frio, tapem-me, torturem-me mas deixem-me.

10.Domine Jesu

Afinal há mais gente. Jesus, o Nazareno. Como é magro, nos olhos trás o sofrimento do mundo. Olha-me, acaricia-me a cara, segue pela esquerda, sumiu. O Velho hesita, começo a ficar conformado. Sempre há os quadros, Rafael, mais Leonardos. Sublimes, imortais, perenes, serenos, gloriosos. Mandam que avance. É agora. Toca Mozart, ah Wolfgang, estarás cá também, salvo da abjecta vala onde te deitaram? Só pode. Volto a ver a Matilde, está bela, a dor torna as pessoas belas.

11.Hostias

O Velho baixou novo quadro. A avaliação está feita.Tenho medo, mas estou sereno. Oh, não pode, Michelangelo, a Capela Sistina, o camarote da Vida, será para mim?

12.Sanctus

Adão, Noé, Abraão, filhos de Israel, crianças do Darfur, os inocentes, estão cá todos. Vou entrar! Sanctus, Sanctus, acredito agora, desnudado entro, tocam tubas, repicam carrilhões, Matilde, Matilde, é Sexta Feira Santa, não chores, estava escrito. Olá, sou o Alberto, cheguei hoje, estagiário no Paraíso, aleluia! aleluia!

13.Benedictus

A imagem some no ar, entrei! Não eram graves, os pecados, choro e rio, oh catártico quadro onde afinal morto renasço. Oh triunfo de azul, azul de Céu, azul dos teus olhos Matilde, azul do nosso mar, salgado, só nosso. Estás longe, cada vez mais longe, mas posso escutar-te a respiração, clara e próxima.

14.Agnus Dei

Apagam as luzes lá atrás, qual passarola voo agora, criação de Michelangelo, em sistino paraíso sulco os Céus, rodeado de anjos, seráficos e louros, da cor do ouro, como os serafins do antiquário em S.Pedro.

15.Communio: lux eterna

Adeus, Matilde. Ao morrer, vivo para sempre. Fala de mim ao André, é lindo o nosso filho. E quando tiveres saudades, abre o livro grande da sala. Lá estou, celestial sentinela e redimida alma, criatura de Michelangelo.

No cemitério fecham a porta. Adeus, Matilde, até já…


publicado por Fernando Morais Gomes às 19:11

Mais um excelente texto! Anseio por uma publicação em livro para que eu e muitos outros leitores possam guardar estas histórias para sempre! Continua meu amigo!
Ricardo Urbano a 23 de Abril de 2011 às 16:19

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