por F. Morais Gomes

24
Abr 11

 

 

Era luzidia a embaixada para o tratado de casamento: o Senhor de Roubaix e de Erzelles, Balduíno de Lanoy , Thoulongeon , Gil de Tournay,  e Jan Van Eyck, moço da câmara do Duque e  seu mestre de pintura. Van Eyck, para muitos João de Bruges, o mais notável pintor flamengo do seu tempo,pintava o retábulo da Catedral de Bavon, encomenda do Senhor de Ramela, quando o Duque de Borgonha o encarregou de retratar a noiva, Isabel de Portugal. Interrompendo a obra, que só anos depois retomaria, com os enviados do Duque chegou em Dezembro a Lisboa, logo passando a Estremoz onde a Corte se encontrava.

Para Filipe, o Bom, seria a terceira união. Filipe III de Borgonha, Brabante e Países Baixos, desposara antes Michelle de Valois  e Bonne de Artois,já falecidas, em Portugal buscava nova aliança. Isabel, a filha de D. João I foi a escolhida e a lustrosa embaixada chegava para o pedido formal, era o ano de 1429. A Van Eyck competiria retratá-la, para que Filipe dela tivesse imagem antes dos esponsais em Bruges, mais tarde.

Isabel passava os trinta anos. Única filha mulher de D. João, vivia em Évora desde que a mãe, a doce Filipa de Lencastre se finara ia para mais de catorze anos. Com El-Rei no ocaso da vida e D. Henrique em plena saga africana, novas alianças políticas se impunham em plena Guerra dos Cem Anos, os interesses do Reino aconselhavam. Por sugestão de D. João, o pedido seria em Sintra, no paço que tomara a Henrique Manoel de Vilhena, leal a João de Castela durante a crise da sucessão.

Van Eyck espantava-se com Sintra, mistura de arte mudéjar e mourisca, e com as suas originais e  pantagruélicas chaminés. Uma semana se ocupou retratando a princesa, pouco prendada de feições por sinal. Balduíno de Lanoy ofertara dois cisnes, que muito surpreenderam os locais, pouco familiarizados com tais aves, D. João agradado mandou mesmo soltá-los nos jardins do Paço. Jan, tirado das neblinas de Bruges e das suas sombrias sacristias, sentia familiares as névoas de Sintra, mais serena que o tórrido Alentejo.

Com Giacomo Arnolfini, um genovês na corte de D. João criou mesmo amizade nessas semanas, registando retabulares paisagens em óleos pujantes e incisivos. Jan era um amante do belo, de influência helenística, plena de profundidade e de sombras, escapando das caçadas e torneios, inspirado retratava o Paço, entre pinceladas no retrato da desenxabida princesa.Com o infante D. Pedro, várias vezes hóspede de Filipe e viajante de várias partidas se entretinha em profícuo diálogo, conversando de política e viagens, do longínquo Chipre dos Lusignans ou da Morávia distante. A governança da Flandres era para Pedro exemplar, isso mesmo confessou a Jan, certo dia no Paço:

-Saiba, meu caro Jan, que à distância da Flandres vi claramente os fortes e fracos do nosso povo. Temos nós o vício da basofia, que todos atrai á corte, enjeitando os filhos as profissões dos pais, afidalgando-se, formando uma nuvem de parasitas que enchem o Paço d’El-Rei e atulham as escadas das secretarias na esperança dum lugar de escudeiro. Aqui falta-nos economia privada, e abusa-se da quebra da moeda, expediente para saldar as contas. Não há que mudar a moeda, há que por cobro às despesas do rei e não esmagar o povo com peitas e impostos extenuantes. Avisado iria meu pai se houvesse conselho de quem viu outros Reinos e ouviu outras gentes.

-Príncipe Pedro, bem vejo que vosso Reino tendes em grande empenho. Eu me contento com meus óleos, e o serviço ao senhor meu Duque, e em breve de vossa irmã, pela Graça de Deus.

-Bem sei, e para terras de Flandres e Brabante nosso Reino se devia orientar. Meu irmão Henrique cuida melhor ser a empresa de África, pois por mim melhor será aliança com os reinos europeus. Minha irmã é avisada, e gostará de Bruges, e de Filipe, estou certo.

No Paço, jantares opíparos com tangeres de música e torneios de canas assinalaram por vários dias o acerto dos esponsais, posto o que Van Eyck e os plenipotenciários se retiraram para a Flandres, o retrato estava pronto e o contrato assinado.

Única filha, não foi sem uma lágrima que D. João viu partir Isabel para terras distantes. No dia aprazado, após as vénias, com um sentido beijo  se despediram. Já velho, o de Boa Memória sabia que não mais a tornaria a ver, ao serviço do Reino e da política de alianças.

Após semanas de viagem,Isabel de Portugal finalmente chegou a Bruges, recebida com pompa  e um cerimonioso te deum. Van Eyck, esperando-a em Ostende, recordava D. Pedro, Arnolfini e aquele céu azul a oeste de Castela.

A 10 de Janeiro de 1430, enfim Filipe desposou Isabel. Dela teve três filhos, dois falecidos de tenra idade e Carlos o Temerário, que lhe sucedeu. Para trás, os cisnes no Paço de Sintra. Vendo-os,altivos no lago, neles D. João  muitas vezes recordou Isabel, e também Filipa, precocemente levada.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:03

Abril 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


21
23

26
28


mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO