por F. Morais Gomes

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Abr 11

Depois de grandes obras na alcáçova, D. Manuel mandou que mouros forros de Colares zelassem pelas almedinas do castelo e dos eirados das torres. Várias vezes percorrera essas terras e várzeas distribuindo benesses, esmoler em Montelavar, caridoso no Penedo, generoso em Janas. Naquele Outono de 1514 a vila parecia contudo enfadada com El-Rei, novos alvarás régios mandavam cobrar pesados impostos, Damião Nunes, oficial da jugada, frente ao Paço, anunciava a má nova e solene advertia os vizinhos ali reunidos, Gonçalo Anes chegava da entrega de  queijadas  e leite coado em casa do almoxarife:

-Homens bons de Sintra, é mister d’El-Rei em sua avisada governança que quem lavre a terra com junta de bois, na vila ou no termo, pague dezasseis alqueires de pão, oito de trigo e oito de cevada. Quem só tenha um boi pague porém só oito alqueires de pão- anunciava, lendo o edital, apesar de lá veranear, o rei não se mostrava magnânimo com seus súbditos de Sintra.

No terreiro, o povo escutava, desconfiado. Gonçalo Anes e Nuno de Colares, com as suas juntas de bois, torciam o nariz, só na eira de Janas ocupavam quatro bois, tentando contornar essa injusta jugada ainda reclamaram, antes de seguir para os baixos do Arraçario:

-Então e quem lavrar com enxada só e sem alimária?

-Quem só lavrar com enxada, fica isento. Os demais deverão acertar comigo o pagamento em trigo, de 15 de Agosto até ao Natal. O celeiro d’el-rei estará aberto três dias por semana, lá me podem encontrar! -Damião, ufano, exibia o poder do seu cargo, para quatro anos era oficial da jugada, e muito porfiara entretanto em fartas fazendas, umas para el-rei, outras para si, dizia o povo à boca pequena, a fama de Damião já tivera melhores dias. E continuou:

-E dêem-se por bafejados, pois el-rei dispensa os da vila de pagar o mordomado, só os do termo são submetidos ao tributo! - acrescentou, o mordomado era imposto apenas aos habitantes do termo, não aos da vila, a fim de alimentar os mordomos da jugada.

-Vale-me este ano a safra do vinho ser fraca, quarenta almudes, a seca foi muita…-Gonçalo Anes coçava a cabeça, muitas vezes contrariado caminhara para os armazéns reais a enchê-los de trigo, uma injustiça, pensava.

-Já a mim me toca e muito, tenho duzentos almudes, parece que se deve pagar antes do relego…-Nuno de Colares suspirava, tocavam as doze na torre de S. Martinho.

O oficial régio continuava:

-Da colheita havida há também que pagar socos da rainha, sob pena de não poderem aceder aos fornos reais e ser o procurador do concelho punido. De tudo o que for aí moído, de moenda pagarão um quarto!

Mais vizinhos se juntavam agora, era Novembro, mês de relego, o vinho do rei teria primazia na venda, só depois podendo os particulares vender o seu, sob pena de coimas. André Gonçalves, Almoxarife de Sintra e Juiz das Sisas e Coutadas de Colares, com mantimento de ofício pela confortável quantia de 4800 reais, chegou entretanto, a tempo de escutar Nuno de Colares:

-Pois não chegam a El-Rei as fazenda da Índia, e o trato com os marranos de Génova? Com tal canga não pode o povo dar sustento a seus filhos com o pouco que lavra em suas terras e hortas.

-Antes o mar, ao menos para morrer na costa da Guiné não se paga…-Gonçalo Anes, retirando-se, seguia para os baixos de Oliva, magicando forma de ludibriar o oficial da jugada, breve mandaria umas galinhas à sua casa em Cabriz, a lembrar quanto o estimava…

-Pois do mar também há mercê de pagar! –interrompeu André Gonçalves, metendo-se na conversa, e puxando da dignidade de almoxarife: -Se forem apanhadas dez pescadas, que se pague uma, quem não apanhar dez fica isento. Marisco e outros peixes, onze ceitis. Estes impostos pagarão directamente ao alcaide-mor. Para este concelho constituído fica também o dever de portagem aos oficiais régios, sob pena de confisco das mercadorias, e de acordo com o montante e categoria das mesmas. E que não haja maus intentos quem conluiar-se com mercadores para enganar, pode sofrer degredo em Ceuta por dois anos.

-E quem mercadejar boi, porco, cabrito, escravo ou outro animal pague treze reais por cada peça! -rematava, servil, Damião.

Da Pêndoa chegava entretanto Inês Pereira, desde que casada com Pêro Marques se mudara para Sintra, vida boa folgava, marido manso e lerdo, farta bolsa, estava como queria. Alcoviteira, Constança Pires correra a contar-lhe do rebuliço no Paço, com a leitura do edital. Pêro Marques, meio tosco, no meio do povo, não sabia se algo daquilo era com ele, segurando a burra com alfaces que ia vender na alpendrada. Inês, interesseira, insinuou-se a Damião Nunes, realçando o busto, farto e alvo, um oficial de jugada não era de desprezar:

-Senhor oficial da jugada, pois zelais pela fazenda de el-rei? Grande e nobre trabalho tendes, só alguém com vosso saber e fortaleza o poderia fazer!

Ruborizando, Damião agradeceu, sempre derretido na presença de Inês, olhar aquilino, astuta que nem rato. Parando a leitura, saudou:

-Bons olhos vos vejam, senhora D. Inês. Exagerais, por certo….

Chegando-se a ele, Inês roçou-se, dengosa, vendo o almoxarife a afastar-se perguntou em voz baixa:

-Carecia de moer minha farinha. Em vosso moinho, se vos aprouver. Pobre e desvalida que sou tenho também de pagar de moenda um quarto…?

-Ora, ora, por quem sois. D. Inês. A vós, o quarto dou eu…

Resmungando, o povo dispersou, enfadado com Damião Nunes. Na alcáçova do castelo de S. Jorge, el-rei perguntava a Gaspar Gonçalves se todo o vinho de Colares estava já vendido. Maravedis de Malaca, ceitis de Sintra, rendas da Casa da Índia, a sua fama de rei farto e poderoso não poderia os cofres deixar à míngua, fosse com o açafrão de Goa ou com o bom néctar de chão de areia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 22:30

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