por F. Morais Gomes

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Abr 11

Novo paraíso. Terra onde a a Primavera tem seu trono. Hans tinha de conhecer essa Sintra de que tanto falavam, o momento surgiu com o convite para a casa dos O'Neill, entre Julho e Agosto.As  chaminés acopladas do Paço, que mais lhe pareciam garrafas de champanhe, circundadas por aquele êxtase de verde, confirmavam o que lhe haviam dito: Sintra era História feita jardim, perfumada e bucólica, recordava-lhe as florestas de Roskilde e os palácios de Elsinore, onde crescera e aprendera as primeiras letras.

Hans Christian Andersen depressa se afeiçoou aos amigos portugueses. A viscondessa de Reboredo, filha do almirante Zahrtmann, dinamarquesa como ele, recebeu-o com entusiasmo, bem como o conde de Almeida e o marquês da Fronteira.Por cá descobriu igualmente um amigo de Copenhaga, Edward, filho do poeta Lytton-Bulwer, agora segundo secretário da legação britânica em Lisboa. A comida era boa, o ambiente familiar, por Sintra ficaria até o barco para França chegar do Brasil, em escala.

Nesses dias, com Edward e José O’Neill visitou a Pena e Monserrate, verdadeiros palácios de conto de fadas. A igreja românica fronteira à casa dos 0’Neill transportava já por si para eras medievais, sugerindo princesas trancadas em torreões e ogres escondidos na serra, os palácios no alto, porém, eram verdadeiros olimpos de deuses, logo na sua imaginação transformados em histórias magníficas que os seus leitores por certo devorariam, suspensos do desfecho. Era belo  Portugal, e esfuziante a Sintra onde o traziam.

Atento, em Monserrate um episódio lhe chamou a atenção: num lago,um jovem cisne partilhava o ninho com  uma pata e seus rebentos. Órfão, por certo, diferente dos irmãos, apesar de recolhido, era porém perseguido e maltratado pelos outros patos do lago. Hans várias vezes ali se deteve a observá-lo, bastardo, quem sabe se adulto não levantaria asas e deslumbrante dominaria o lago, príncipe da feteira. Como ele, que pobre filho dum sapateiro tivera de se criar em casa de outros, e agora adulto era reconhecido pela aristocracia, ali encontrou uma alma gémea , um patinho feio que um dia viraria esbelto cisne, conquistando a floresta mágica de Sintra.

Carlota, a filha dos 0’Neill simpatizou com ele no primeiro dia, quem escrevia para crianças só podia ter bom coração. Uma noite, depois de jantar quis que ele fosse ao seu quarto. Hans, a maior criança dos adultos foi, de mão dada, intrigado e divertido, ante a advertência da mãe de que não importunasse o amigo. No quarto, uma boneca de porcelana sobre a cama, loura e sorridente, olhava na direcção dos dois. Carlota pegou-lhe e mostrou-a ao escritor:

-Esta é a Bárbara, é a minha melhor amiga. Gosta dela?-perguntou, da inocência dos seus cinco anos.Hans sorriu, pegando na frágil boneca:

-É linda, Carlota. Brincas muito com ela?

-Sim…Mas quando a deixo para ir aprender a tocar piano ela fica muito sozinha. Acho que precisa de um amigo!

-Pois é…tens de lhe arranjar uma companhia. Mas ela se é amiga verdadeira vai esperar por ti sempre que voltes ao quarto, para brincar contigo. E por vezes, devias levá-la à serra ou à vila, acredita que ia ficar contente!

De volta à sala, amigos dos 0’Neill chegavam para jantar, já famoso na Europa, muitos  queriam conhecer Andersen.

Os restantes dias foram de descanso e descoberta. O pequeno cisne lá continuava no lago, ainda trôpego, Hans sorria, antecipando-o adulto meses mais tarde, quando o Inverno chegasse e a Natureza ditasse as suas regras.

No início de Agosto, o navio vindo do Rio  que levaria Hans a Bordéus chegou finalmente, duas semanas haviam passado. Em Sintra, um último jantar foi organizado sua em honra, Carlota, por essa vez assistia, a pedido de Hans. Antes dos brindes, escreveu no álbum dos O’Neill:

Quando, querendo Deus, em breve passear

Nas galerias de faias do meu país natal,

Voará muitas vezes meu pensamento

Para o belo país que é Portugal

Fora uma jornada magnífica. Pela manhã,antes de a carruagem o levar a Lisboa, depois das despedidas, acariciou Carlota e puxando de um embrulho,deu-lho, com voz de mistério:

-Isto é para ti, e para a Bárbara. Mas abre só depois de eu partir. As duas vão gostar muito, vão ver!

Mal a carruagem com  Hans desapareceu na curva de Santa Maria, Carlota, curiosa, correu a abrir o embrulho. Era um soldadinho de chumbo, azul e vermelho, com um chapéu em feltro preto. Doravante, Bárbara não mais ficaria só quando a deixassem na cómoda do quarto. Para ela chegava enfim o Príncipe Encantado.


publicado por Fernando Morais Gomes às 04:22

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