por F. Morais Gomes

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Abr 11

Foi há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme tendo por tema a  Gafaria de S.Pedro, a mal conhecida  leprosaria no Arrabalde.Lázaros escorraçados  e errantes ali encontraram refúgio até ao sec XVI, sob a protecção do Espitral do Espírito Santo, o assunto era fascinante. Se não arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod Browning,lendo nas sombras e silêncios dessas fitas grandes semelhanças com as angustias do mundo actual.

Da pesquisa que fez para o filme, chamou-lhe a atenção a história de Mabília, uma leprosa que morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído lepra como castigo pela prática de bruxaria, que usava para   seduzir os homens e depois os roubar e matar. Morrera no maior sofrimento, jurando vingança.

Falando com pessoas mais velhas de S.Pedro,André verificou que apesar do tempo passado a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa de saber mais, havendo inclusive  quem jurasse ter assistido a missas negras nos Capuchos  comandadas por Mabília, enquanto velas acesas rodeavam galinhas oferecidas em sacrifício.

Por essa altura alguns casos ocorreram,porém,denunciadores de anormalidade numa terra bucólica e pacata, surgindo notícias nos tablóides relatando o desaparecimento de pessoas que não deixavam pistas ou testemunhas. Um em Ranholas, em Março de 2008, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda cujo ultimo avistamento fora perto da Mourisca pouco depois de encerrar. Vozes  delirantes, dos que visionavam filmes perturbantes de Sintra no You Tube associavam mesmo o facto à tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido,se bem que emprestando um ar trocista aos comentários.

Três pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse. André, absorvido na concepção do seu filme e com a adrenalina do perigo decidiu investigar  por conta própria. Passadas algumas semanas, contudo,nada descobrira. As pessoas não voltaram a ser vistas e a GNR pensava em arrumar o assunto, para eles a dispensar grandes investigações. Até nem eram pessoas da terra, comentavam, se calhar tinham sumido zangados com  familiares. Importante eram os gangues da linha de Sintra, e fechar os bares a horas por causa das inevitáveis reclamações de sábado à noite.

Uma noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando no posto da GNR de Sintra. Não dormira na noite anterior e assaltava-o uma intuição que se adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo de serviço que o acompanhasse com algumas praças a S. Pedro, tinha a certeza de haver descoberto algo aterrador,tendo seguido para o local onde pela sua pesquisa a bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta em frente da igreja de S. Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as pedras da calçada, perante o ar boçal dos agentes, seguros de já lhes terem estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com largo de S. Pedro parecia mole e húmida, como se alguém ali tivesse estado recentemente. Perturbadoramente, restos de uma mão  putrefacta começaram a aparecer.

Face à macabra descoberta, o rosto de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis, cabeceando, possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos, vexando-o como  presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar uma ânsia de vingança que de tempos a tempos  se tinha de saciar.O corpo era de um dos desaparecidos, e alienado, André o havia morto, tal como os outros,embora nada recordasse.

Arrancou a camisa e desatou a gritar,possesso, qual marioneta desalmada e impotente capturada por um dono invasivo de quem se queria apartar. Dos seus olhos emanava o olhar de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer saber sobre ela na pesquisa para o filme, o seu corpo fora por si possuído,e assim se vingava séculos depois de ter morrido numa enxerga imunda, usando  André como títere do seu plano predador.

André recupera lentamente numa casa de repouso em Mértola, absorto,com os olhos sempre fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda pode ser avistada junto ao Ramalhão, no Túmulo dos Dois Irmãos, esperando infelizes presas em noites de lua cheia.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:12

Espectacular!
Fico sempre na dúvida, entre a ficção e a realidade.
Cumprimentos.
C.Santos
Carlos Santos a 30 de Abril de 2011 às 10:20

Obrigado. A Gafaria existiu, criada pela rainha D.Leonor, ia até ao actual Ramalhão. Aliás daí a capela de S.Lázaro, em S. Pedro. A Mabília... bem... há muitas Mabílias obscuras no nosso íntimo...

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