por F. Morais Gomes

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Abr 11

A cerca ficara mal vedada, bem lhe parecera que a rede estava periclitante, o Seca-Adegas, com a pressa dum tinto no Miranda despachara o assunto em três tempos. Antevia já problemas com o Acúrcio, há mais de vinte anos que as famílias não se falavam por causa dum cavalo, vinha borrasca dali, pela certa.

Na quinta, Virgílio cultivava hortaliças e criação, tudo vendido na praça ao fim de semana e na Malveira à quinta, com os filhos criados, para ele e para a Micas chegava. Pior era a vizinhança. Com o Acúrcio era impossível falar, certa vez por causa dum marco quase se mataram com uma forquilha, não fosse o Zé de Fontanelas e a coisa teria metido sangue. Saloio que se preze é cioso do seu cantinho, e nisso eram muito parecidos, daí as quezílias e os ódios que lhes infernizavam a vida e a das famílias. Café onde fosse um, o outro não entrava, e se um comprava um porco na Malveira o outro tinha de comprar dois, tudo devidamente relatado na tasca do Miranda.

Ambos tinham gado, para consumo dos seus e para venda, criava umas vaquitas, a carne para o Júlio do talho, o leite ele mesmo vendia, mais os queijos que a Micas fazia. Com o Ernesto formado e a viver em Lisboa, para eles bastava. Sem vícios, que a diabetes não perdoava, pachorrento levava os dias da feira para casa e da casa para o Miranda.

A rede da cerca ficara efectivamente solta, quando apanhasse o Seca-Adegas lhe daria a coça. E para mal dos pecados, das cinco vacas, faltava uma, bem a viu na propriedade do Acúrcio, já misturada com as dele. A contra gosto, chamou-o, o ódio era de muitos anos, a reclamar a propriedade:

- Ouve lá, não te chegam as tuas, também tens de pilhar as vacas dos outros, minha anta? Passa para cá a minha vaca, ou tenho de ir buscar a Flaubert?

O Acúrcio, já vermelho só de o ver, veio do celeiro, de mão na anca, a barafustar com o Virgílio:

-O que queres, unhas de fome? Mete-te na tua vida e deixa os outros em paz.Ou queres que te parta a cara….

-Passa mas é para cá a minha vaca, e enquanto estou calmo, se não…

-Qual vaca? Estás mas é doido, as vacas que ali estão são todas minhas, vai mas é apanhar bonés!

Furibundos, já quase em vias de facto, chegou o Ernesto, filho do Virgílio, a pedir calma. Mais ponderado, achando aquelas guerras absurdas, sem desapoiar o pai, chamou-o à parte, para se ver a melhor maneira de recuperar a “Mimosa”:

-Isto com violência não vai lá, pai, depois ainda perde a razão. O melhor é falar com um advogado e arranjarmos maneira de recuperar a vaca.

Rosnando, a caminho do Miranda, onde o Seca Adegas jurava a pés juntos, já sem poder fazer um quatro, que a rede ficara bem posta, lá anuiu, no dia seguinte procuraria o dr. Anselmo, em Sintra, era advogado dos antigos, conceituado, ganhara uma causa ao Domingos por causa dumas partilhas. Iria sozinho, mas a vaca tinha de voltar, a bem ou a mal.

No dia seguinte, pela manhã, lá apareceu no escritório, na Portela de Sintra, o doutor Anselmo, com mais de quarenta anos de tribunal e um escritório de bilros, clássico,tinha  com ele um estagiário, o Afonso, licenciado meses antes e dedicado aos processos, rapaz diligente.

Virgílio lá expôs a situação: a vaca era dele, toda a gente em Bolembre podia atestar, tinha uma mancha preta entre os olhos, e todos sabiam que o Acúrcio só tinha três. O dr. Anselmo, dando umas passas no cachimbo, ouvia, matutando, Afonso tirava notas. No fim lá sossegou o Virgílio:

-Ó homem, isso nem tem discussão. Com as testemunhas e o recibo da compra, não tem de saber. A vaca é sua!

Mais descansado, lá saiu a contar ao Ernesto, o sacripanta do Acúrcio havia de ver, ainda havia de pagar uma indemnização e ser  levado preso, por roubo. Descansado,até pagou uma rodada no Miranda à chegada de Sintra.

No dia seguinte, no escritório do dr. Anselmo, outro cliente marcara consulta. O Acúrcio, aconselhado pelo compadre a ir àquele advogado, queria saber dos direitos sobre a vaca, o tribuno ouvia, dando uma baforada:

-Pois é como lhe digo doutor, apareceu-me uma vaca no meu terreno, não tem identificação do veterinário, que é obrigatório, o meu vizinho anda a dizer que ele é que é o dono, o que é que o doutor acha?

-Não se preocupe, senhor Acúrcio- o dr. Anselmo, seguro do Direito e da razão, sossegava o cliente- sendo assim como diz, isso nem tem dúvidas: a vaca é sua!

-Tirou-me um peso de cima, doutor! Deixe estar que eu sou de boas contas….

-Não se preocupe, não se preocupe…- o advogado acompanhava-o  à porta, contas era com a Cecília lá fora. Voltando ao cadeirão, Afonso, que igualmente assistira à conversa, coçava a cabeça, intrigado, era a mesma história da véspera, do cliente de Bolembre:

-Ó doutor Anselmo, o senhor ontem disse àquele cliente, o sr. Virgílio, que a vaca era dele, hoje diz a este senhor que a mesma vaca é dele. De quem é a vaca, afinal?

Sorrindo, matreiro, o velho causídico deu duas palmadinhas nas costas do colega, ainda verde e ingénuo, e rematou, sacudindo o cachimbo no cinzeiro:

-Oh meu rapaz,mas tu não vês que a vaca é nossa?..


publicado por Fernando Morais Gomes às 16:25

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