por F. Morais Gomes

03
Mai 11

Fui Lourenço em vida, Gribskov em espírito, hoje enfim Arquiduque dos Pisões, pássaro paradípsico esvoaçando sobre a casa amarela, eterno exilado dentro de mim mesmo. Desiquilibrado desiquilibrista em silêncio muitas vezes subi e desci a rampa, doge sem palácio envolto em belos palácios. De vez subi já ao Parnaso,  esperando,lá estava  o João Bénard para o café ao fim da tarde.

Obreiro escrevi letras  musicais, claves de literatura, música da alma.A minha alma. Alexis-Christian Von Rätselhaft und Gribskov, eis-me, o poeta que é, loucamente desalinhado, perfeito na imperfeição, buscador do indizível, triunfador visionário. Ah, e de Sintra, claro!

Equívoco, autêntico, barroco, aventureiro, tudo isso fui e nada disso também,  capturando-me pelo verbo escapuli-me pela alma, delirando, por vezes na vida, em Sintra-Ninho, outras nas Sintras da Vida e das vidas que vivi, ventríloquo do verbo. Vagabundo da palavra, tardes várias calcorreei o golgóta dos pisões, na velha casa hibernei invernos e  sofri verões,  urso pardo à espera do seu Norte. E a paradípsica ave, planando, livre.

Poesia é melodia. Que força maior haverá que troar em alemão, indistinto, viril, denso e forte? Mais lágrimas não há na língua pátria, pois nasceu chorando, língua de carpires e dor, bem diversa da italiana que a fizeram quente numa gôndola cantabile.

Sou desiquilibrista, é certo. Hermético? Hummm… Enigmático? Q.B. Fingidor sem fingimento, invisível peregrino agora da Vila ao Tirol. Onde está o meu loden, o loden verde do Arquiduque dos Pisões? Minha prosa é poema, meus poemas ladainhas, em línguas decentes de poetas descrentes. “Oh! God, I am too tired and old to learn to love, leave me alone for ever ! Branca serenidade deleitosa…Our Lady , Queen of Saints, Angels and men. Porta coeli.Stella matutina. Janua coeli. Figlia del tuo figlio. Queen of Heaven”.

É escuro à noite, o caminho dos Pisões, tão escuro que dele irradia luz, a luz que só  cegos podem ver, pois maior cegueira não há que a da paixão. E logo depois o torpor, o acordar, o pássaro paradípsico sumindo, o doge veneziano naufragando em sua gôndola dolente.

Matei Lourenço  no dia 15 de Janeiro de 1973, quando tomava   banho. Nesse momento, descobri quem era, afinal: era uma truta. As escamas caíram uma a uma e foram engolidas pelos esgotos do condado. Lourenço jaz hoje no estrume de Dorchester com a esperança de se tornar num cacto. Agora e apenas,  eis-me ex-Lourenço,Arquiduque Grishkov.

“Repousa em redor a pequena vila. Às luzes que cruzam a rua juntam-se as lanternas de um fiacre. Poluídos para alguns os frutos do dia,  deixam o mercado agora, ermo, sem uvas nem girassóis”….

De máscara em máscara, mascarado morri , sou eterno agora, patrulheiro de sombras, morcego de Sintra, de vez desconstruído. Meu roteiro cessou. Terá cessado?

Cuidado, leitores amigos, de Lourenço ou Grishkov, não percais o equilíbrio, deixai ser eu o desiquilibrista, o visionário perdido no desfiladeiro lúdico. Holograma de Sintra, quando à noite na serra escutarem sussurrantes poemas em  límpido  e tonitruante alemão, sorriam, é Alexis-Christian Von Rätselhaft und Gribskov, Arquiduque dos Pisões quem vai passando.


 

 

http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/noticias/466-mslourenco-vai-ser-evocado-em-sintra

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:31

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